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Bjørn Lomborg - Especialista na área do ambiente © Project Syndicate, 2008 www.project-syndicate.org
17 de Agosto de 2011 às 12:16

Contrabandistas e Baptistas verdes

Em Maio, o Painel Intergovernamental das Nações Unidas para as Alterações Climáticas (IPCC) deu que falar nos meios de comunicação social com um novo relatório sobre energias renováveis.

Em Maio, o Painel Intergovernamental das Nações Unidas para as Alterações Climáticas (IPCC) deu que falar nos meios de comunicação social com um novo relatório sobre energias renováveis. Como anteriormente, o IPCC emitiu primeiro um breve resumo e só mais tarde revelaria toda a informação. Assim, ficou a cargo dos especialistas do IPCC apresentar a mensagem aos jornalistas.

A primeira linha do comunicado de imprensa do IPCC refere que, "em meados do século, perto de 80% da oferta mundial de energia poder ser alcançada através de renováveis se existirem as políticas públicas adequadas". Esta história foi repetida pelos meios de comunicação social a nível mundial.

No mês passado, o IPCC revelou o relatório completo, em conjunto com os dados que serviram de base a esta afirmação assustadoramente optimista. Só nessa altura se percebeu que se baseava apenas nos cenários mais optimistas dos modelos analisados pelos investigadores. E este cenário resultava de um único estudo baseado num relatório da Greenpeace. O autor deste relatório - membro da Greenpeace - era um dos principais autores do IPCC.

A afirmação baseava-se na hipótese de uma grande redução da utilização de energia a nível global. Tendo em conta o número de pessoas, na China e na Índia, que estão a sair da pobreza este é um cenário extremamente implausível.

Quando o IPCC fez esta afirmação pela primeira vez, os activistas ambientais e as empresas de energias renováveis festejaram. "O relatório mostra, claramente, que as tecnologias renováveis podem fornecer muito mais energia do que aquela que o mundo precisa", afirmou Steve Sawyer, secretário-geral do Global Wind Energy Council.

Este tipo de comportamento - em que os activistas e as grandes empresas de energias se unem para aplaudir algo que aponta para a necessidade de aumentar os subsídios às energias alternativas - pode ser explicado através da famosa teoria "contrabandistas de bebidas alcoólicas e Baptistas".

A teoria surgiu da experiência do sul dos Estados Unidos, onde muitas jurisdições obrigavam as lojas a fechar ao domingo para evitar a venda de álcool. A lei era apoiada por grupos religiosos, por razões morais, mas também por contrabandistas, que assim tinham o mercado só para si aos domingos. Os políticos adoptaram a retórica religiosa baptista, enquanto, às escondidas, recebiam contribuições dos criminosos.

Como é óbvio, os actuais "contrabandistas" das alterações climáticas não estão envolvidos em comportamentos "ilegais". Mas o interesse das companhias energéticas, dos produtores de biocombustíveis, das seguradoras, "lobbies" e outros grupos que apoiam as políticas verdes é uma questão muitas vezes esquecida.

De facto, a teoria dos "contrabandistas de bebidas alcoólicas e Baptistas" serve para explicar outros desenvolvimentos da política de aquecimento global durante a última década. Por exemplo, o Protocolo de Quioto teria custado biliões de dólares mas teria alcançado resultados, praticamente, imperceptíveis para combater a subida da temperatura global. Ainda assim, os activistas defenderam que existia a obrigação moral de cortar emissões de dióxido de carbono, e foram aclamados pelas empresas que beneficiavam com eles.

Durante a Cimeira de Copenhaga, em Dezembro de 2009, a capital da Dinamarca foi coberta de cartazes, que pediam aos delegados para alcançarem um acordo forte, paga pela Vestas, a maior produtora de torres eólicas do mundo.

O magnata do petróleo, T. Boone Pickens, um famoso convertido ao ecologismo, formulou um plano (que baptizou com o seu próprio nome) para aumentar a dependência dos Estados Unidos às energias renováveis. Como é óbvio, T. Boone Pickens tem sido um dos principais investidores na energia eólica e nas empresas de gás natural que beneficiam dos subsídios do governo.

Os gigantes energéticos tradicionais, como a BP e a Shell, têm promovido as suas credenciais "verdes" ao lucrarem com a venda de petróleo ou gás em vez do ambientalmente nocivo carvão. Mesmo o gigante eléctrico Duke Energy, um grande consumidor de carvão, obteve "créditos" verdes ao promover um mercado de troca de emissões. Mas a empresa acabou por se opor à legislação que previa a criação deste mercado, porque esta não disponibilizada licenças suficientes para as empresas de carvão.

Afirmações duvidosas por parte de activistas fiéis impulsionaram a indústria de biocombustíveis (com o apoio de lobbies). É provável que a produção de combustíveis aumente o carbono na atmosfera por exigir uma desflorestação em larga escala e contribua para a fome mundial, já que existe um desvio das colheitas. Apesar dos ambientalistas terem começado a reconhecer estes impactos, a indústria recebeu, no início, muito apoio dos activistas e agora nem a agro-indústria, nem os produtores de energia verde, têm interesse em mudar o rumo.

Obviamente que as empresas são motivadas pelo interesse próprio e isso não é necessariamente algo de mau. Mas, muitas vezes, ouvimos analistas a afirmar que quando a Greenpeace e as grandes empresas estão de acordo deve ser uma opção sensata. O apoio das empresas a políticas dispendiosas como o Protocolo de Quioto - que têm feito muito pouco pelas alterações climáticas - indica precisamente o contrário.

Os "Baptistas" das alterações climáticas fornecem a cobertura moral que os políticos podem usar para vender a regulação, juntamente com histórias assustadores que os meios de comunicação social podem usar para atrair leitores. As empresas encontram oportunidades para obter subsídios pagos pelos contribuintes e fazer recair sobre os consumidores o inevitável aumentos dos custos.

Infelizmente, esta convergência de interesses pode levar-nos a dar atenção a respostas ineficazes e dispendiosas para combater as alterações climáticas. Sempre que forças políticas opostas se atraem, como aconteceu com os activistas e as grandes empresas no caso do aquecimento global, existe um elevado risco do interesse público ser apanhado no meio.

Bjørn Lomborg é autor dos livros "The Skeptical Environmentalist" e "Cool It", director do Centro de Consenso de Copenhaga e professor adjunto na Copenhagen Business School.

© Project Syndicate, 2011.

www.project-syndicate.org

Tradução: Ana Luísa Marques

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