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Baptista Bastos - Cronista b.bastos@netcabo.pt
07 de Janeiro de 2011 às 11:43

Eles falam, falam, mas não dizem nada

Vai a morna campanha presidencial a meio e pouco se sabe do que pensa o candidato Cavaco sobre o tipo de Estado que defende, o modelo de sociedade por que é propugnador ou o que projecta para o futuro nacional.

O homem é omisso nesses e em outros problemas. Mas os seus silêncios não ocultam os seus desígnios. Já os revelou quando primeiro-ministro. A redução do Estado e da sua influência social pertence ao abecedário das ideias dominantes. Combatê-las, em nome da solidariedade, faz parte do novo processo histórico.

Já nestas páginas referi a importância dos estudos de Tony Judt para tentarmos perceber as complexidades do mundo actual. Judt, que faleceu há meses, fez críticas cerradas às deficiências e aos crimes da Esquerda, indiciando a procura de novos caminhos. Por exemplo: as análises a que procedeu, sobre a obra teórica de Eric Hobsbawm, são demolidoras. Hobsbawm, considerado o maior pensador marxista vivo, é acusado, por Judt, de deliberada eliminação histórica, denúncia gravíssima, por atingir a honorabilidade intelectual e ética da pessoa em apreço. Mas a intervenção de Judt não fica pela rama das coisas. Os seus textos fornecem-nos preciosas indicações sobre o estado dos Estados, e o que a política e a ideologia podem (e devem) fazer para obstar à sua ruína total.

Seria bom que os candidatos à Presidência se debruçassem não só sobre os textos de Tony Judt como de outros pensadores actuais. A sugestão é feita, principalmente, ao dr. Cavaco, como se sabe pouco dado à leitura e à reflexão que a leitura exige. Evidentemente, o Estado Social, tal como o conhecemos e que é uma das grandes criações da Europa, está a ser cercado e ferozmente combatido pelas forças da Direita mais exacerbada. Não se trata de salvar esta conquista fundamental da civilização. A Direita quer, pura e simplesmente, destruir o Estado Social e transformar as nações (ou o que delas ainda existe) em grandes empresas administradas por gestores, com objectivos definidos e programados.

O dr. Cavaco, por intuição e desejo, pertence a este projecto de demolição. E, ao contrário do dr. Passos Coelho, que já disse e repetiu, claramente, ao que vinha e queria, dissimula-se em evasivas de discurso. Voltemos a Judt. Escreveu ele, em "Um Tratado sobre os nossos Actuais Descontentamentos", ensaio fundamental: "A única coisa pior que governo a mais é governo a menos: nos Estados falhados, o povo sofre pelo menos tanta violência e injustiça quanto sob um governo autoritário (…) O capitalismo não é um sistema político; é uma forma de vida económica compatível, na prática, com ditaduras de Direita (o Chile sob Pinochet), ditaduras de Esquerda (a China contemporânea), monarquias sociais-democratas (a Suécia) e repúblicas plutocráticas (os Estados Unidos)."

As nossas amargas experiências parece não nos terem trazido lições de maior. Como a pedagogia ideológica anda pelas ruas da amargura, e, com raríssimas excepções, os políticos que nos governam demonstram aflitivas carências culturais e ausências de leitura que bradam aos céus, enfrentamos o vazio das alternativas que nos apresentam. Já o disse e repito: o dr. Cavaco foi um incidente à espera de acontecer. E a Esquerda portuguesa é um retalho de programas que não entendemos, que entre si se chocam e contradizem, e que não obtêm nada porque o nada é aquilo que nos oferecem.

Voltando a Tony Judt e ao livro que nomeei: "Sem idealismo, a política reduz-se a uma forma de contabilidade social, à administração quotidiana dos homens e das coisas. Isso é algo a que um conservador consegue sobreviver bem. Para a Esquerda, é uma catástrofe." Olhamos em volta. Esta Esquerda veio substituir-se a quê? Depois da queda do Muro e da implosão do "socialismo real", parece que esta Esquerda se esqueceu de que a questão fundamental do nosso tempo continua a ser o conflito de classes, a exploração da mais-valia e as formas de produção. Nada disso a Esquerda portuguesa estuda, analisa e propõe como tese de debates.

Em outro texto estimulante, "O Século XX Esquecido. Lugares e Memórias", editado, como o acima indicado, pelas Edições 70, Judt refere como odioso a circunstância de as grande vitórias da humanidade não terem sido desenvolvidas por se apoiarem na mentira e terminaram em banhos de sangue. Os erros e os crimes da Esquerda não se podem cingir a análises e julgamentos feitos pela Esquerda. A dimensão dos sonhos e das esperanças é tamanha que as frustrações causadas pelos horrores praticados diz respeito a toda a humanidade.

Seria excelente que, nesta campanha, houvesse quem discutisse as nossas querenças e as nossas crenças. O que falhou, o que soçobrou e o que se não perdeu. Mas os nossos candidatos estão interessados em tudo menos em dilucidar os dilemas que nos afligem.

b.bastos@netcabo.pt

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