Outros sites Cofina
Notícias em Destaque
Opinião

Estará a "exuberância irracional" de volta?    

O termo "exuberância irracional" é hoje em dia utilizado para descrever um estado de fervor especulativo. E, com as bolsas a registarem níveis recorde em alta, a pergunta é: não estaremos outra vez num "território irracionalmente exuberante"?

Já ouvimos isto antes. Foi Alan Greenspan, antigo "chairman" da Reserva Federal em Washington, quem falou, pela primeira vez, em "exuberância irracional". Em 1996, durante um discurso em direto para a televisão, Alan Greenspan colocou uma pergunta retórica: "Mas como é que sabemos quando a exuberância irracional fez escalar de forma indevida o valor dos ativos, ficando estes depois sujeitos a inesperadas e prolongadas contrações do mercado como aconteceu no Japão durante a última década?"

 

Depois desta sua afirmação, a bolsa de Tóquio ressentiu-se de tal forma que fechou com perdas de 3%. Outras bolsas do mundo experimentaram perdas semelhantes. Esta reação tão forte às palavras de Greenspan tornou famoso o termo "exuberância irracional". Também se tornou um slogan durante a recessão depois da derrocada da bolsa em 2000 (o colapso da bolha das dot.com). Autocolantes nos quais se lia "Eu quero ser de novo Irracionalmente Exuberante" foram colocados em Silicon Valley.

 

O conceito ganhou nova aplicação, em 2008, depois do colapso do mercado imobiliário nos Estados Unidos que levou à queda do Lehman Brothers e deu origem à segunda crise financeira mundial. O quarto maior banco de investimentos dos Estados Unidos entrou em falência após incorrer em perdas bilionárias em créditos imobiliários "tóxicos".

 

E isto deu origem aos caos. Os negócios caíram em quase todos os países. O crédito à economia real caiu de forma dramática. Para limitar o endividamento, os governos recorreram à austeridade. Tendo esgotado a possibilidade de diminuir as taxas de juro, os bancos centrais resolveram imprimir dinheiro para comprar títulos ("quantitative easing"). 

 

Apesar de as economias mundiais terem, entretanto, recuperado e os valores do PIB estarem em níveis iguais ou superiores a 2008, as consequências foram significativas. A crise alterou o sistema financeiro e levantou algumas questões relacionadas com a desigualdade de rendimentos, insegurança laboral e globalização. Também levou à onda de populismo a que atualmente assistimos.

 

Tudo isto nos traz aos dias de hoje. O termo "exuberância irracional" é hoje em dia utilizado para descrever um estado de fervor especulativo. E, com as bolsas a registarem níveis recorde em alta, a pergunta é: não estaremos outra vez num "território irracionalmente exuberante"?

 

Robert Shiller, prémio Nobel da Economia em 2013, pelo estudo que fez sobre o preço dos ativos,  avisa que o preço global das casas está novamente a entrar numa "bolha" e que os preços das ações estão altos. Também considerou a bitcoin como o melhor exemplo atual de "bolha" especulativa. Shiller escolheu precisamente "Exuberância Irracional" para título do seu livro sobre avaliação do mercado de ações. Publicado em 2000, no pico da bolha das "dot.com", o livro evidenciou os argumentos que demonstravam como o mercado de ações estava sobreavaliado. 

 

O colapso da bolsa em 2000 coincidiu com a data de publicação do livro. A segunda edição, publicada em 2005, foi atualizada de forma a incluir a "bolha" imobiliária que Shiller previa que iria rebentar em breve. E, de facto, isso acabou por acontecer em 2007, despoletando a recessão mundial.

 

No que diz respeito ao valor das ações hoje, as opiniões divergem. O problema em afirmar que o mercado está sobreavaliado porque negoceia a múltiplos mais altos hoje do que no passado é que o valor atual líquido (e o resultante múltiplo dos resultados) deveria ter em consideração as taxas de juro e as taxas de crescimento dos resultados.

 

De forma a comparar os múltiplos (rácio preço/resultados) de hoje com aqueles de há dez ou vinte anos, será o mesmo que comparar maçãs com laranjas, a menos que taxas de juro e de crescimento dos resultados fossem as mesmas, agora e antes. Portanto, comparar os múltiplos históricos com os múltiplos atuais é enganador.

 

É preciso ter em consideração resultados, taxas de crescimento esperadas e taxas de juro futuras. E o que é que estas grandezas nos podem dizer sobre a avaliação atual do mercado de ações? 

 

Se as taxas de juros permanecerem baixas e o crescimento dos resultados se mantiver na média histórica, o mercado de ações está barato. Apenas o facto de o valor do mercado ter crescido substancialmente, desde a crise financeira, não significa automaticamente que o mercado está caro. Provavelmente as bolsas venderam a mais durante a crise financeira e estavam demasiado baratas nessa altura. Se assim for, o atual mercado "bull" está apenas a atingir o valor correto, e não está sobreavaliado. E a compra de ações pode ser ainda vantajosa.

 

Contudo, isto não significa que não se possa começar a vender as ações, levando a um preço de mercado mais baixo, por outros motivos que para lá do valor económico. Os analistas de mercado acreditam que as taxas de juro podem aumentar. E isso será um fator-chave. Outros fatores podem também afetar os mercados de ações a nível global.

 

Por exemplo, o crescimento económico da China, o crescimento do populismo/nacionalismo e o seu impacto no livre comércio, nos níveis de endividamento globais e o seu impacto no crescimento do crédito, a taxa de câmbio do dólar americano e a dívida dos mercados emergentes. É muito difícil quantificar os efeitos destes fatores nos preços das ações. O mercado de ações não gosta de incerteza e estes fatores podem, sem dúvida, criar essa incerteza. Se estas questões não se tornarem relevantes, então o mercado de ações pode focar-se nos resultados. E, tendo em consideração os resultados atuais, as ações não parecem estar sobreavaliadas.

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

Ver comentários
Mais artigos do Autor
Ver mais
Outras Notícias
Publicidade
C•Studio