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José Diogo Madeira jdmadeira@netcabo.pt 21 de Setembro de 2005 às 13:59

Força, força, camarada Sócrates

O primeiro-ministro acredita que deixará obra e que cada vez que um sector corporativo desce à rua, isso significa que algo está a mexer. E mesmo que tenha de sacrificar uma nova maioria absoluta em favor das suas convicções reformistas, Sócrates manterá

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A minha caixa de email foi, durante a última semana, bombardeada por uma chuva de mensagens, assinadas por uma boa quantidade de Sargentos e Praças deste País, em protesto contra o que aqui escrevi sobre as Forças Armadas. Por um lado, barafustam contra a sua equiparação à restante Função Pública - mas esquecem que as suas actividades sindicais os equiparam imediatamente a todos os demais trabalhadores, dos sectores público e privado. Não sobram muitos dos valores da instituição e da dignidade militar, quando ela se manifesta pelas ruas - ignorando as recomendações das suas próprias chefias - em luta pelos seus «direitos adquiridos». Por outro, reclamam pelas más condições salariais e deficiente estado do material com que operam. Parecendo esquecer que o orçamento da Defesa Nacional é largamente consumido nos salários e demais benefícios da corporação, deixando pouca margem para a renovação do equipamento militar. Mas sobre o tema, não vale a pena alongarmo-nos: o tempo ditará um irreversível encolhimento das Forças Armadas portuguesas, no sentido de reequilibrar a sua pirâmide hierárquica, encurtando o número total de militares e permitindo a manutenção dos meios que realmente fazem falta - os navais e os de protecção aos civis e aos seus bens.

Mais importante é fazer notar que para lá das demos militares, temos, nas próximas semanas, um calendário impressionante de protestos públicos: os funcionários judiciais em greve a 29, 30 de Setembro e 3 e 4 de Outubro; a associação sindical dos juízes tem greve convocada, ainda sem data marcada; o sindicato dos magistrados do Magistério Público deu o prazo de 23 de Setembro para o Governo responder às suas propostas; a Fenprof convocou várias manifestações de rua; o SEF faz greve de três dias na primeira quinzena de Outubro; a Comissão Coordenadora dos Sindicatos e Associações das Forças e Serviços de Segurança (PSP, GNR, Polícia Marítima, SEF, Guardas Prisionais) realiza uma manifestação em 22 de Setembro; os funcionários da Polícia Judiciária ameaçam uma greve de três dias até ao final deste mês; o Sindicato dos Enfermeiros também já decidiu uma greve; o Sindicato de Profissionais de Polícia marcou uma manifestação para 2 de Outubro; e a Frente Comum da Administração Pública estuda formas de luta «em convergêncai» com o Sindicato dos Quadros Técnicos do estado e com a CGTP, estando já prevista um desfile frente à residência do primeiro-ministro para o dia em que escrevo, terça-feira.

O País vai entrar num agitado período de lutas laborais, todas partindo de «frentes» da função pública que se sentem ameaçadas nos seus direitos. Ora, isto são excelentes notícias para os portugueses. Significa que estas «corporações» estão todas descontentes. Independente da legitimidade, história ou tradição dos direitos em causa, Portugal precisa muito de reformas. E reformas são isto mesmo - coisas que mexam estruturalmente com as coisas e abanam as pessoas. Claro que o Governo não está a fazer isto por prazer sádico, mas porque precisa impiedosamente de meter o défice orçamental na ordem. Mas há mais para lá disso - José Sócrates tem uma visão messiânica da sua missão enquanto primeiro-ministro. O primeiro-ministro acredita que deixará obra e que cada vez que um sector corporativo desce à rua, isso significa que algo está a mexer. E mesmo que tenha de sacrificar uma nova maioria absoluta em favor das suas convicções reformistas, Sócrates manterá uma atitude convicta e rígida.

Isto deixa a oposição, especialmente o PSD, sem margem de manobra. Marques Mendes queixa-se das nomeações do Governo na Caixa Geral de Depósitos com a legitimidade de um marido infiel que descobre a esposa com outro. Não foi o PSD que nomeou António de Sousa e Mira Amaral, ilustres laranjas, para a presidência da CGD? E Joaquim Ferreira do Amaral não foi «chairman» da Petrogal? Marques Mendes queixa-se da venda da TVI à Prisa e parece ultrapassar o Bloco de Esquerda pela?esquerda. Mas o líder do PSD não tem muito mais de que se queixar - mal ou bem, Sócrates está a mexer no País e a tocar num dos pontos do «sistema»: os custos faraónicos de uma quantidade de serviços públicos, que muito gastam e - na sua grande generalidade - apenas produzem entropias. É disto mesmo que precisamos. E não foi exactamente para isto que eles tiveram uma maioria absoluta?

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