Mulheres que também lideram
Persistem diversos constrangimentos que limitam o percurso profissional das mulheres, em particular o acesso às esferas do poder empresarial e do poder político.
Numa semana em que se comemora o 31º aniversário do Dia Internacional da Mulher, julgo oportuno abordar aqui o tema das mulheres que também lideram nas empresas e na política.
Associadas desde sempre aos papéis tradicionais na esfera familiar, a verdade é que, cada vez mais, é sentida a presença das mulheres em todos os níveis das organizações. Por exemplo, em Portugal – onde as mulheres representam 51,6% da população residente –, a taxa de actividade feminina ronda os 50%, próxima da de países europeus onde este indicador é mais elevado. Apesar deste quadro, no início do século XXI, ser mulher e profissional ainda não é fácil. Persistem diversos constrangimentos que limitam o percurso profissional das mulheres, em particular o acesso às esferas do poder empresarial e do poder político.
Desde logo, são de notar as disparidades no acesso ao mercado de trabalho: em Portugal, à semelhança do acontece na maioria de outros países, o desemprego atinge mais as mulheres do que os homens e se em 2005 a taxa de desemprego média anual se fixou em 7,6%, a taxa de desemprego para os homens foi de 6,7% e para as mulheres de 8,7%.
Além disso, e de acordo com uma notícia publicada em 2005 no «Financial Times» – que cita um estudo efectuado pela Rede Europeia de Mulheres Profissionais e a Egon Zehnder International –, apenas 5% dos principais executivos das 200 empresas mais importantes da Europa são mulheres. E se são algumas as mulheres que ocupam cargos de topo nas empresas, raríssimas são as que lhe presidem.
Mas atentemos nos casos mais mediáticos de sucesso. Segundo o «ranking» da revista «Forbes», em 2005 a espanhola Ana Patricia Botín foi considerada a empresária mais influente da Europa e uma das mulheres de negócios mais importante do mundo. Filha de Emilio Botín – presidente do grupo Santander –, Ana Patricia Botín pertence à quinta geração de uma família de banqueiros. Depois de ter estado na JPMorgan, entrou para o grupo Santander e, em 2002, tornou-se a «executive chairwoman» do Banesto. É igualmente, entre outros, presidente de uma fundação que promove a ligação das universidades ao desenvolvimento da economia espanhola e é membro do IFC Banking Advisory board. Ainda de acordo com o «ranking» da «Forbes», o segundo lugar é ocupado por Anne Lauvergeon, presidente do grupo nuclear francês Areva, e o terceiro lugar por Valerie Gooding, que preside à seguradora britânica Bupa. A francesa Anne Lauvergeon começou o seu percurso profissional na emblemática fábrica de siderurgia Usinor tendo, posteriormente, entrado para o grupo Alcatel onde foi responsável pelas áreas do nuclear, da defesa, da energia e dos transportes. Em 1999, foi nomeada presidente do grupo nuclear Cogema e, em 2001, do grupo Areva. Já Valerie Gooding, actual «chief executive» da Bupa, ocupou, entre outras, posições relevantes na British Airways, no British Museum, na Universidade de Warwick e na Association of British Insurers.
A este grupo de empresárias com influência referenciado pela «Forbes», acrescento um outro nome: o de Laurence Parisot, a presidente do Medef (estrutura semelhante à já anunciada Confederação Empresarial de Portugal). Esta empresária francesa ocupou, entre outros, cargos na Euro Disney SCA e na Michelin, sendo actualmente – a par de presidente do Medef – membro do Conselho Económico e Social francês. Aquando da sua eleição para a presidência do Medef, em Julho de 2005, anunciou como objectivo principal do seu mandato melhorar a imagem desta organização junto da sociedade francesa. E parece tê-lo conseguido. Dotada de capacidade política e da vontade de promover o diálogo social, as suas intervenções reflectidas rapidamente conquistaram empresários e sindicatos. Particularmente decisivo foi o seu protagonismo aquando da «crise das Banlieues». Em nome do Medef, apresentou uma série de iniciativas relativas, nomeadamente, à questão da integração social através do conforto da habitação, da renovação urbana, da pré-aprendizagem, tendo ainda solicitado que se retomasse a negociação sobre a diversidade que havia proposto aos parceiros sociais em Agosto.
Estes são alguns casos de sucesso no feminino. Mas o que acontece de facto é que, tendo alcançado a almejada igualdade no acesso aos diferentes graus de ensino, a figura da mulher é, paradoxalmente, ainda rara quando se fala da ocupação de cargos de chefia empresarial ou política. Em Portugal, por exemplo, quantas mulheres são presidentes ou dirigentes de grandes empresas? E quantas mulheres – de entre ministras, secretárias de Estado e assessoras – participam no actual Executivo?
Em meu entendimento, convém realçar que a fraca representatividade das mulheres em cargos de chefia empresarial e na política prende-se, sobretudo, não com o facto de as mulheres serem pouco «competentes» ou «ambiciosas» no seu percurso profissional e/ou no acesso a cargos políticos, mas com o facto de existirem diversos obstáculos (muito associados a estereótipos) à ascensão feminina no mundo laboral e político. Mas finalizo com a seguinte nota: o que é constrangimento hoje poderá não o ser amanhã. É importante realçar que um pouco por toda a Europa as mulheres vão dando, progressivamente, mostras de maior intervenção quer na área empresarial, quer no sistema político. E esta parece constituir uma tendência de carácter irreversível.
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