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Mohamed A. El-Erian | Michael Spence 30 de Junho de 2010 às 12:41

Podem os mercados emergentes salvar a economia mundial?

Ao longo dos últimos dois anos, os países industrializados têm vivido episódios de grave instabilidade financeira. Actualmente, debatem-se com problemas crescentes em torno da elevada dívida soberana e da alta taxa de desemprego.

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Ao longo dos últimos dois anos, os países industrializados têm vivido episódios de grave instabilidade financeira. Actualmente, debatem-se com problemas crescentes em torno da elevada dívida soberana e da alta taxa de desemprego. No entanto, as economias emergentes, outrora consideradas muito mais vulneráveis, têm sido impressionantemente resistentes. Atendendo a que o crescimento está a regressar aos níveis anteriores ao despoletar da crise em 2008, o desempenho da China, da Índia e do Brasil constitui um importante motor para a actual expansão da economia global.

O elevado crescimento e a estabilidade financeira nas economias emergentes estão a contribuir para facilitar os maciços ajustamentos com que se deparam os países industrializados. No entanto, esse crescimento tem significativas implicações de mais longo prazo. Se o actual padrão se mantiver, a economia global será permanentemente transformada. Mais especificamente, não será preciso muito mais que uma década para que a proporção do PIB mundial gerado pelas economias em desenvolvimento ultrapasse os 50% quando calculada nosd preços de mercado.

Assim sendo, é importante saber até que ponto é que esta fase de crescimento intenso é sustentável. A resposta tem duas partes. Uma delas depende da capacidade das economias emergentes para gerirem o seu próprio sucesso; a outra tem a ver com a medida em que a economia global poderá adaptar-se a esse mesmo sucesso. A resposta à primeira pergunta é tranquilizadora, mas a resposta à segunda já não o é.

Se bem que continuem a ter capacidade para explorar as margens de crescimento de modo a recuperarem do seu atraso, as economias emergentes devem empreender uma mudança estrutural contínua, rápida e por vezes difícil, de par com um processo paralelo de reforma e de criação de instituições. Nos últimos anos, os países sistemicamente importantes demonstraram uma impressionante capacidade de adaptação pragmática e flexível, situação que muito provavelmente se manterá.

Se as políticas governamentais mantiverem o actual rumo, será de esperarmos um gradual fortalecimento dos motores de crescimento doméstico endógeno nas economias emergentes, motivados por uma classe média em expansão. Acrescente-se um maior volume de trocas comerciais entre os diferentes países emergentes e o futuro destas economias será caracterizado por uma menor dependência da procura por parte dos países industrializados, se bem que não haja uma completa desvinculação.

A distribuição, tal como o crescimento, também tem importância. As economias emergentes continuam a precisar de gerir melhor as suas crescentes tensões internas, que reflectem o aumento da desigualdade de rendimentos e um acesso desigual aos serviços básicos. Um fracasso nesta frente faria descarrilar as suas dinâmicas de crescimento regional e doméstico. Isto é algo que hoje em dia se compreende melhor, pois as agendas políticas dos países emergentes que visam uma estratégia de cerescimento contemplam os aspectos relacionados com a distribuição.

Apesar de as economias emergentes conseguirem lidar com o abrandamento económico nos países industrializados, o mecanismo de transmissão do sector financeiro é mais problemático. O actual contexto de baixas taxas de juro está a provocar uma forte vaga de fluxos financeiros para as economias emergentes, onde aumenta assim o risco de inflação e de bolhas de activos. Os problemas vividos pelos bancos ocidentais contribuíram para perturbar a disponibilidade dos créditos comerciais e, se forem amplificados, poderão acabar também por desestabilizar os bancos locais.

Estes riscos são bem reais. Felizmente, várias economias emergentes continuam a ter amortecedores contra choques. E como estavam de óptima saúde antes da crise de 2008-2009 (incluindo grandes reservas internacionais, excedentes orçamentais, balanças de pagamentos mais do que aceitáveis e bancos fortemente capitalizados), a flexibilidade financeira e orçamental dessas economias está longe de estar esgotada – e, consequentemente, mantêm também a capacidade de responderem a choques futuros.

No seu conjunto, as economias emergentes estão bem posicionadas para continuarem a navegar com êxito num mundo tornado instável pelas crises nos países industriais. Ainda assim, uma vez mais, a desvinculação não é total. Um desfecho favorável exige também a capacidade e vontade dos países industriais para se adaptarem à crescente dimensão e importância das economias emergentes. A este respeito, existem riscos substanciais que apontam para um vasto leque de potenciais problemas.

O fluxo de conhecimentos, de fundos e de tecnologias que possibilita elevadas taxas de crescimento sustentado nas economias emergentes está estreitamente associado a uma economia globalizada, aberta e baseada em normas. No entanto, essa ordem mundial está sujeita a alguma pressão, num ambiente em que os países avançados continuam a apresentar uma taxa de desemprego elevada e episódios de volatilidade financeira. A localização do crescimento na economia global acaba por ser vista como um jogo de soma nula, levando a reacções muito aquém do ideal.

Consequentemente, não se pode dar por garantida a contínua abertura dos mercados dos países industrializados. Os modelos políticos e as medidas adoptadas limitam-se cada vez mais a um quadro nacional, ao mesmo tempo que está a ser cada vez mais difícil que se tenham em conta as prioridades internacionais e a prossecução dos interesses comuns no mundo inteiro.

Estes problemas irão intensificar-se nos próximos anos. E não podemos esquecer-nos da questão das instituições globais e de “governance” a nível mundial.

Gerir um conjunto cada vez mais complexo e crescente de ligações transnacionais é um desafio ainda maior num mundo de várias velocidades que está a ser completamente revirado. Um mundo destes exige uma melhor “governance” global, acompanhada de reformas institucionais emprateleiradas durante demasiado tempo que dêem às economias emergentes uma voz mais presente e uma força representativa em instituições internacionais.

Se não estas mudanças não acontecerem, a economia global poderá passar de uma crise para outra, sem uma mão firme no leme para definir um sentido de direcção conjunta. O resultado é aquilo a que os economistas chamam de “Nash equilibria” ou uma série de resultados pouco cooperativos e que poderiam ser bem melhores.

Onde é que tudo isto nos coloca? As economias emergentes serão chamadas a desempenhar um papel ainda mais importante numa economia global a várias velocidades, caracterizada por uma prolongada reabilitação de balanços sobrecarregados nos países industriais. Se forem deixadas a braços com os seus próprios mecanismos, essas economias estarão à altura do desafio e poderão ser bem sucedidas. Mas elas não funcionam num sistema de vácuo. A capacidade “lubrificante” das economias emergentes para facilitar o ajustamento nos países industrializados depende também da vontade destes últimos de se adaptarem às mudanças tectónicas no funcionamento e na direcção da economia global. Esperemos que se preste a atenção merecida a estas questões de âmbito mundial.


Mohamed A. El-Erian é CEO e co-CIO da PIMCO e autor de “When Markets Collide”. Michael Spence foi laureado com o Nobel da Economia (2001), preside à Comissão para o Crescimento e Desenvolvimento, é membro da Hoover Institution e, desde 1 de Setembro passado, é professor de Economia na Stern School of Business da Universidade de Nova Iorque. Se quiser aceder a um tratamento mais detalhado das lições e desafios da crise financeira, pode encontrá-lo em “Post-Crisis Growth in Developing Countries: A Special Report of the Commission on Growth and Development on the Implications of the 2008 Financial Crisis.”


Direitos de autor: Project Syndicate, 2010.
www.project-syndicate.org

Para aceder ao “podcast” deste texto em inglês, deve utilizar o seguinte link:
http://media.blubrry.com/ps/media.libsyn.com/media/ps/spence13.mp3







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