Brahma Chellaney 30 de Setembro de 2015 às 20:00

Risco engarrafado

Ao longo dos últimos 15 anos, a indústria da água engarrafada tem assistido a um crescimento explosivo, que não mostra sinais de desaceleração. Na verdade, a água engarrafada - desde a "água de nascente purificada" à água com sabores e água enriquecida com vitaminas, minerais ou eletrólitos - é a área de maior crescimento na indústria de bebidas, mesmo em cidades onde a água canalizada é segura e altamente regulamentada. Isto tem sido um desastre para o meio ambiente e para os mais pobres do mundo.

Os problemas ambientais começam na origem, ou seja, na forma como a água é extraída. A maior parte da água engarrafada que se vende em todo o mundo é extraída das reservas de água subterrâneas de aquíferos e nascentes, muitos dos quais alimentam rios e lagos. Esvaziar essas reservas pode agravar as condições de seca.

 

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Mas engarrafar o escoamento de glaciares nos Alpes, Andes, Ártico, Cascades, Himalaia, Patagónia, Montanhas Rochosas e outros lugares não é muito melhor, uma vez que desvia essa água de funções dos ecossistemas como a recarga de zonas húmidas e a manutenção da biodiversidade. Isso não impediu os grandes engarrafadores e outros investidores de tentarem comprar os direitos sobre a água dos glaciares. Por exemplo, a indústria chinesa de água mineral, explora os glaciares dos Himalaias, prejudicando os ecossistemas do Tibete.

 

Contudo, grande parte da água engarrafada hoje em dia não é água glaciar nem de nascente natural, mas sim água processada, que é água municipal ou, mais frequentemente, águas subterrâneas directamente extraídas que foram submetidas a osmose inversa ou outros tratamentos de purificação. Sem surpresa, os engarrafadores têm-se envolvido em disputas com as autoridades locais e grupos de cidadãos em muitos lugares, devido ao seu papel no esgotamento da água, e até mesmo na poluição. Na Califórnia, alguns engarrafadores têm enfrentado protestos e investigações; uma empresa foi mesmo proibida de extrair água de nascente.

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Pior ainda, o processamento, o engarrafamento e o transporte de água requerem a utilização intensiva de recursos. São precisos 1,6 litros de água, em média, para embalar um litro de água engarrafada, o que torna este sector num grande consumidor de água e gerador de águas residuais. O processamento e transporte acrescentam ainda uma pegada significativa de carbono.

 

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Os problemas não acabam quando a água chega ao consumidor. A indústria depende de garrafas feitas de tereftalato de polietileno (PET), matéria-prima que deriva do petróleo bruto e gás natural. Na década de 1990, foi o PET que transformou a água num produto de conveniência portátil e leve.

 

Mas o PET não se decompõe; e, ainda que possa ser reciclado, geralmente não o é. Como resultado, a água engarrafada é agora a maior fonte de resíduos de plástico, com dezenas de milhares de milhões de garrafas depositadas como lixo, todos os anos. Nos Estados Unidos, onde o volume de água engarrafada vendida no ano passado aumentou em 7% face a 2013, 80% de todas as garrafas plásticas de água tornam-se lixo, asfixiando os aterros.

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Naturalmente, taxas mais elevadas de reciclagem poderiam melhorar esta situação de forma substancial. Por exemplo, a Alemanha tem promovido com sucesso a reciclagem com uma combinação de regulamentação e incentivos inteligentes, tais como máquinas em supermercados que dão vales de compras em troca de garrafas (muitas vezes trazidas pelos pobres). Mas a reciclagem implica a utilização de mais recursos.

 

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Na verdade, a água canalizada é muitas vezes mais saudável do que água engarrafada. O tratamento químico significa que a água engarrafada pode ter falta de flúor, que está naturalmente presente na maioria das águas subterrâneas, ou é adicionado em pequenas quantidades no abastecimento de água municipal para promover a saúde dentária.

 

Também existem preocupações com a saúde devido ao potencial de lixiviação de compostos químicos das garrafas PET e dos grandes recipientes de policarbonato reutilizáveis ??com que os engarrafadores fornecem água para casas e escritórios. Condições sub-óptimas de armazenamento - que incluem, por exemplo, a exposição prolongada à luz solar e ao calor - podem causar uma potente actividade estrogénica em água engarrafada, expondo os consumidores a produtos químicos que alteram a função do sistema endócrino, imitando o papel de hormonas naturais do corpo.

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Essas consequências não passam despercebidas. Nos EUA, as preocupações ambientais levaram alguns campos universitários e pelo menos 18 parques nacionais a proibir a venda de água engarrafada.

 

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A indústria da água engarrafada também reconhece o perigo - e está a fazer os possíveis para manter a opinião pública do seu lado. Para o efeito, grandes engarrafadores de água como a Nestlé, PepsiCo e Coca-Cola Company têm imitado gigantes da energia, como a ExxonMobil, a BP e a Shell, através da prossecução de iniciativas "verdes".

 

Mas não se deixem enganar: A água engarrafada está a agravar os desafios ambientais e de recursos do mundo. Está a dificultar o fornecimento de água potável para os mais pobres. Não oferece mais benefícios de saúde do que a água canalizada. E nem sequer sabe melhor; de facto, testes cegos revelam que as pessoas não distinguem a água engarrafada da água da torneira.

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Obviamente, a água canalizada necessita de melhorar a sua imagem. Infelizmente, não tem os orçamentos de publicidade e marketing que têm alimentado o crescimento dramático da indústria de água engarrafada. Quando um produto que é mais barato e melhor não prevalece, é uma má notícia para os consumidores. Quando esse produto é a água, todos nós perdemos.

 

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Brahma Chellaney, professor de Estudos Estratégicos no Center for Policy Research em Nova Deli e assistente na Robert Bosch Academy em Berlim, é autor de nove livros, incluindo Asian JuggernautWater: Asia’s New Battleground, e Water, Peace, and War: Confronting the Global Water Crisis.

Direitos de Autor: Project Syndicate, 2015.

www.project-syndicate.org 

Tradução: Rita Faria

Direitos de Autor: Project Syndicate, 2015.

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