Brahma Chellaney 29 de Julho de 2015 às 20:00

Tibete depois de Dalai Lama

No 80º aniversário do 14º Dalai Lama, que tem estado em exílio na Índia desde 1959, o futuro do Tibete parece mais incerto do que nunca. Durante o seu reinado, o actual Dalai Lama viu a sua pátria – o maior e mais elevado planalto do mundo – perder a sua independência para a China. Quando morrer, a China provavelmente irá instalar uma marioneta como seu sucessor, corroendo potencialmente a instituição.

A China já moveu o seu peão para a segunda maior posição no Budismo tibetano, o Panchen Lama, em 1995, depois de raptar o eleito tibetano de seis anos, que tinha acabado se ser designado pelo Dalai Lama. 20 anos depois, o Panchen Lama por direito figura entre os prisioneiros políticos há mais tempo encarcerados em todo o mundo. A China também elegeu a terceira figura religiosa mais importante para os tibetanos, o Karmapa. Mas em 1999, quando tinha 14 anos, fugiu para a Índia.

 

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Este ano marca mais um aniversário importante para o Tibete: o 50º aniversário da fundação do que a China apelida de "Região Autónoma do Tibete". O nome é altamente falacioso. De facto o Tibete é governado pela China e metade do seu território histórico foi incorporado em outras províncias chinesas.

 

Com a conquista do Tibete em 1950-1951, a China ampliou o seu território em mais de um terço e alterou significativamente a paisagem geoestratégica da Ásia. A China tornou-se vizinha da Índia, Nepal e Butão e ganhou o controlo sobre os principais sistemas fluviais da região. Rios que têm origem no Tibete rico em água e que são vitais para suportar os dois países mais populosos do mundo, a China e a Índia, bem como o arco de países que se estende desde o Afeganistão ao Vietname.

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Para a China, capturar a instituição de Dalai Lama com 437 anos parece ser o passo final para garantir o seu domínio sobre o Tibete. Afinal, desde que fugiu para a Índia, o Dalai Lama – o legítimo líder político e espiritual do Tibete (embora tenha cedido o seu papel político a um governo democraticamente eleito no exílio em 2011) - tem sido a cara da resistência ao controlo chinês sobre o Tibete. Nos últimos anos, contudo, a China tem utilizado a sua crescente influência - apoiada pela ameaça de sofrimento diplomático e económico - para obrigar um número cada vez maior de países a não receber o Dalai Lama, reduzindo assim a sua visibilidade internacional.

 

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O Governo da China, que emitiu um decreto em 2007 que proíbe lamas seniores de reencarnar sem permissão oficial, está essencialmente à espera que o atual Dalai Lama morra, para que possa exercer a sua autoproclamada autoridade exclusiva para selecionar o seu sucessor. Os líderes chineses não parecem estar impressionados com o absurdo de um governo ateu escolher um líder espiritual. É como se Mussolini tivesse afirmado que só ele, e não o Colégio dos Cardeais, poderia nomear o papa.

 

O velho Dalai Lama tem discutido publicamente vastas possibilidades pouco ortodoxas para a disposição futura da sua alma - desde ser reencarnado como mulher, a nomear o seu sucessor enquanto está ainda vivo. Além disso, sugeriu que o próximo Dalai Lama será encontrado no "mundo livre", deixando implícito que será reencarnado enquanto exilado tibetano ou no distrito de Tawang da Índia, onde o sexto Dalai Lama nasceu, no século XVII.

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Tais declarações levaram a China a reivindicar, desde 2006, todo o estado de Arunachal Pradesh da Índia como "Tibete do Sul" e a pressionar a Índia, nas negociações em torno da fronteira dos Himalaias à muito disputada, a renunciar pelo menos à parte do distrito de Tawang localizada naquele estado. Mas a declaração que mais enfureceu a China foi a que fez em Dezembro passado, sugerindo que seria o último Dalai Lama.

 

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A China sabe que tem todas as razões para esperar que um Tibete rebelde - cujo povo, em grande parte, desprezou o Panchen Lama nomeado pela China como uma fraude - não aceitaria a sua escolha para Dalai Lama. Se o Dalai Lama emitir orientações claras sobre a sua própria reencarnação, os tibetanos deverão ainda menos aceitar a nomeação da China. A questão é porquê que o Dalai Lama tem hesitado fazê-lo.

 

O maior risco decorrente da passagem do Dalai Lama é a violenta resistência à repressão chinesa no Tibete. Tal como está, o compromisso do Dalai Lama com a não-violência e conciliação - exemplificado na sua abordagem "caminho intermédio", que tem como objetivo a reconquista da autonomia do Tibete, mas não a independência - está a ajudar a garantir que a resistência tibetana ao domínio chinês permanece pacífica e evita o separatismo manifesto.

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Na verdade, ao longo dos últimos 60 anos, os tibetanos têm procurado um movimento de resistência modelo, não viciado por quaisquer ligações ao terrorismo. Mesmo com a repressão da China ao património religioso, cultural e linguística do Tibete a tornar-se cada vez mais severo, os tibetanos não pegaram em armas. Em vez disso, protestaram através da autoimolação, que foi realizada por 140 tibetanos desde 2009.

 

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Contudo, quando o atual Dalai Lama morrer, esta abordagem não deverá continuar. Os jovens tibetanos já se sentem exasperados pelos métodos brutais da China - para não mencionar a sua rejeição acentuada, incluída num relatório oficial recente, das insinuações do Dalai Lama. Neste contexto, um Dalai Lama "impostor", nomeado pela China, poderá acabar por transformar um movimento pacífico pela autonomia numa luta clandestina e violenta pela independência.

 

Dado que o legítimo Dalai Lama seria uma criança pequena e, por isso, incapaz de assegurar uma liderança forte para o movimento de resistência, esse resultado seria ainda mais provável. A China explorou uma situação exactamente igual, quando o atual Dalai Lama tinha apenas 15 anos, para invadir e ocupar o Tibete.

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Após o 13º Dalai Lama morrer em 1933, um Tibet sem liderança foi atormentado por intrigas políticas, até que o presente Dalai Lama foi formalmente eleito em 1950. O próximo vácuo de poder na hierarquia tibetana poderia selar o destino da linhagem Dalai Lama e impulsionar o Tibete em direção a futuro violento, com consequências que vão muito além desse vasto planalto.

 

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Brahma Chellaney, professor de Estudos Estratégicos no Center for Policy Research em Nova Deli e assistente na Robert Bosch Academy em Berlim, é autor de nove livros, incluíndo Asian JuggernautWater: Asia’s New Battleground, e Water, Peace, and War: Confronting the Global Water Crisis.

 

Direitos de Autor: Project Syndicate, 2015.

www.project-syndicate.org 

Tradução: André Tanque Jesus 

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