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Andrew Sheng | Xiao Geng 02 de Outubro de 2014 às 18:00

Grandes cidades e cidades fantasma

Em 2012, o responsável de capital de risco William Janeway argumentou que o desenvolvimento económico é um jogo com três jogadores que envolve o Estado, a inovação empresarial privada e o capitalismo financeiro, com excessos cíclicos inevitáveis que criam as condições para a próxima onda de invenção e crescimento de produção.

Muitos observadores tendem a considerar o surgimento das modernas "cidades fantasma" desocupadas, financiadas através de veículos de financiamento de governos locais com risco associado (LGFV, na sigla em inglês), como sintoma do colapso próximo da China. Mas esta visão subestima a inevitabilidade - de facto, a necessidade – de tais desafios no caminho para o desenvolvimento.  

 

Em 2012, o responsável de capital de risco William Janeway argumentou que o desenvolvimento económico é um jogo com três jogadores que envolve o Estado, a inovação empresarial privada e o capitalismo financeiro, com excessos cíclicos inevitáveis que criam as condições para a próxima onda de invenção e crescimento de produção. Os Estados Unidos tiveram cidades fantasma e bancos locais falidos assim que começaram a investir em caminhos-de-ferro, exploração mineira e industrialização em meados do século XIX. Mas não viveram crises sistémicas que transbordaram das suas fronteiras.

 

Sem investimento de larga escala em infra-estruturas, especialmente nos transportes, os ganhos de produtividade que permitiram a emergência dos Estados Unidos como uma potência industrial teriam sido impossíveis. Embora o processo tenha incluído uma destruição criativa significativa, o rápido crescimento económico compensou perdas que resultaram do excesso de capacidade.

 

De forma semelhante, quando vistas através das lentas da história, as cidades fantasma da China vão revelar-se buracos no caminho do desenvolvimento. O massivo investimento em infra-estruturas da China, financiamento em grande medida através dos LGFV, será provavelmente lembrado pelo seu contributo crucial para a modernização económica do país.

 

Claro, o reflexo do investimento em infra-estruturas no progresso económico não é garantido. As novas infra-estruturas – juntamente com o treino que permite aos trabalhadores chineses geri-las de forma eficaz – deve impulsionar a capacidade produtiva do país de forma suficiente a compensar a destruição de valor dos activos fixos obsoletos e do subemprego.

 

Neste sentido, as perspectiva para a China são promissoras. Nas actuais circunstâncias, o valor total do investimento em infra-estrutura na China ascende a apenas cerca de 240% do PIB, menos de metade dos 551% do Japão – e com uma população muito mais jovem. O capital social da China permanece abaixo de 10 mil dólares per capita; um dado que se situa acima dos 90 mil dólares nos Estados Unidos e dos 200 mil dólares no Japão (com base em valores de 2011).

 

Além disso, cerca de 1% da população da China – cerca de 12 milhões de pessoas – estão a migrar para as cidades todos os anos. A procura incessante por infra-estruturas modernas e inovadoras que apoiam a qualidade de vida dos cidadãos, melhoram a eficiência da energia e minimizam a poluição que não pode simplesmente ser ignorada – especialmente dado o papel central da urbanização na condução da modernização económica e nos ganhos de produtividade.

 

Embora os LGVF tenham alguns riscos intrínsecos, decorrentes dos níveis relativamente baixos de transparência e da supervisão do governo, têm sido parte integrante do processo de industrialização da China até agora. De facto, emergiram no início da década de 90 para permitir a Xangai e Guangding que melhorassem as suas infra-estruturas na preparação para o seu impulso para a industrialização.

 

Ambas as cidades sofreram de fraca capacidade técnica e institucional e pouco câmbio ou crédito doméstico. Ao trabalhar com o Banco Mundial e o Banco de Desenvolvimento da China (CDB, nas siglas em inglês), Xangai e Guangdong criaram uma estrutura institucional inovadora para facilitar a coordenação de "stakeholders" para entregar projectos de infra-estrutura específicos, utilizando as ferramentas legais e de contabilidade das empresas modernas. Por outras palavras, os LGFV são, na sua natureza, um veículo para a modernização local.

 

Esta inovação institucional permitiu a reconstrução de centenas de cidades chinesas, ligadas por aeroportos, caminhos-de-ferro, ligações de alta velocidade e sistemas avançados de telecomunicações. Beneficiando destas estruturas e ligações, um terço das cidades chinesas atingiram um PIB per capita de mais de 10 mil dólares.

 

Além disso, os LGFV inicialmente não estavam sujeitos a discrepâncias de maturidade, porque foram financiados através de empréstimos de longo prazo do CDB, com os governos locais a utilizarem as comissões e taxas resultantes da conclusão de uma infra-estrutura para cobrir os custos operacionais e amortização de dívidas. Neste caminho, os LGVF também ajudaram a criar a rede de ligação dos mercados locais às cadeias de valor mundiais.

 

Mas, como é frequentemente o caso, o sucesso leva ao excesso. Os estímulos massivos do governo na onda da crise financeira mundial levaram os governos locais a pedir empréstimos aos bancos chineses para realizar os projectos de infra-estruturas de sonho, com as cidades remotas a tentarem imitar os casos urbanos, como Xangai ou Shenzhen.

 

Em certo sentido, este foi um desenvolvimento positivo. Acima de tudo, nivelar o diferencial da infra-estrutura amplia o leque de opções que as pessoas e empresas podem escolher quando decidem onde viver ou estabelecer as fábricas e escritórios.

 

Mas o "boom" de infra-estrutura foi baseado na crença de que os governos locais teriam sempre acesso a crédito fácil, terrenos baratos e procura em crescimento. Quando o mercado apertou em 2011, as perspectiva para muitos projectos diminuíram, levando os LGFV a procurarem crédito no sector bancário "na sombra", que provocou um aumento dos custos do empréstimo e introduziu novos desafios no mercado para o processo de reforma.

 

No entanto, uma vez que a China é um credor líquido do mundo, a dívida dos LGFV não tem implicações sistémicas mundiais. Ainda que a dívida activa dos governos locais da China tenha ascendido a 29 biliões de yuans (4,7 biliões de dólares) no final de 2011, as suas propriedades e activos estão avaliados em 90 biliões de yuans, o que significa que mesmo que o valor destes activos seja amortizado em cerca de metade, os governos locais continuariam solventes.

 

Isso leva-nos à questão do serviço da dívida. Para a resolver, o governo anunciou reformas orçamentais para separar as receitas entre governos centrais e locais e permitir a estes últimos emitir dívida municipal de longo prazo.

 

As "cidades fantasma" da China e as dívidas dos governos locais não constituem os sinais de alerta da desgraça. São solavancos na estrada de uma economia desenvolvida, na qual os excessos terão de ser resolvidos pelo Estado ou pelo mercado. De facto, superar estes desafios vai fazer dela uma economia mais resistente no longo prazo.

 

Andrew Sheng é um destacado membro do Fung Global Institute e membro do Conselho de Assessoria do UNEP [Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente] sobre Finanças Sustentáveis. Xiao Geng é director de investigação no Fung Global Institute.

 

Direitos de autor: Project Syndicate, 2014.
www.project-syndicate.org

 

Tradução: Raquel Godinho 

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