A toupeira entra no segundo semestre
A tese de que “a crise económica não existe” tem adeptos. João César das Neves já escreveu sobre isso. Zapatero afirmou-o este domingo, em entrevista ao “El País”. Ambos contestam as análises apocalípticas e sustentam que nem o PIB está com variações negativas (só desacelerou), nem a inflação galopa, nem o desemprego é avassalador. Sendo assim, vive-se uma espécie de alucinação colectiva, propagada pelos jornais, de uma “crise psicológica”, que todavia tem efeitos arrasadores: quebra de consumo, redução de vendas das empresas, menos investimento e emprego, menos receitas fiscais, etc..
É um facto: tomara em crises económicas anteriores ter tido indicadores tão bons como os actuais, que estão tão maus. Mas grande parte desta inversão anímica é culpa do Governo bipolar, que durante muito tempo foi radicalmente optimista, vendendo sonhos irreais. Grandes expectativas degeneram sempre em grandes frustrações. E volta-se à velha forma e activa-se a construção e obras públicas como um “pacemaker” para fazer bater o coração da economia.
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O que falta às famílias portuguesas é dinheiro. Para pagar o que devem ou para manter os mesmos padrões de consumo a que se habituaram. E à economia portuguesa não falta se não o mesmo: dinheiro. É uma economia descapitalizada, adicta da dívida externa. Só que os juros estão mais caros. E pela primeira vez em muitos anos, não somos apenas nós que estamos mal. Aqueles de quem dependemos, os bancos estrangeiros, estão sem dinheiro ou sem condições para o fazer circular.
O primeiro semestre deste ano foi para esquecer. As Bolsas colapsaram e poucos acreditam que o que se segue será melhor. Inflação alta na zona euro, recessão nos Estados Unidos e buracos financeiros na banca por delimitar são os vértices de um trio fatídico que tarda em dar sossego aos investidores: os que gostam de risco vão optando por especulação (matérias-primas, petróleo, alimentação); os que o detestam colocam o dinheiro em obrigações e depósitos a prazo.
É a estratégia da toupeira. Mete-se debaixo da terra à espera que passe. Os próprios empresários fazem o mesmo: numa altura em que os quadros de “os que subiram mais na Bolsa” estão preenchidos pelos que desceram menos, poucos destrunfam novidades e anúncios de investimentos, inúteis para melhorar o desempenho das acções a curto prazo, como usar um chapéu de chuva para travar um tsunami.
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Excepto se se está a trabalhar para o longo prazo. É apesar de tudo nestas alturas que quem tem unhas toca guitarra. Como a PT, que ganha concursos em Marrocos. Ou a EDP, que avança na produção de electricidade no Baixo Sabor e reforça no Alqueva.
O País não pode contar com o curto prazo para nada, sobretudo porque não o controla. Só resta trabalhar para o futuro, pagar o que deve, adaptar os padrões de consumo, preparar investimentos. Não temos sido grandes praticantes de formiga, mas pode ser que passemos a adular menos a cigarra. Ou a resignarmo-nos a ser toupeira.
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