Sigam o cherne
Só por miopia ou mesquinhez se pode recriminar Durão Barroso. E só por demência ou ignorância alguém é incapaz de entender que é bom para Portugal vê-lo partir para a presidência da Comissão Europeia.
Este foi, com nuances e em vários tons, o consenso do fim-de-semana. Na sexta, «analistas» como Pacheco Pereira e Lobo Xavier e precipitados como Guilherme Silva, o líder dos deputados PSD, ainda foram apanhados em conversas e entrevistas gravadas com antecedência. Agora ninguém se atreve a questioná-lo.
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A dúvida circunstancial de quem afirmava que sería incompreensível ver o primeiro-ministro marchar reside nisso mesmo: as circunstâncias em que ele abandona o país, o Governo, a coligação e o partido. Qual deles, em pior estado?!
Ninguém pode negar o óbvio. É realmente decisivo para Portugal, à imagem do que têm por exemplo feito os espanhóis, ocupar lugares-chave no plano internacional. A questão está no momento: algo que, como é lógico, Barroso não controla.
Ainda assim, como convencer as pessoas normais, aquelas a quem nunca ninguém se preocupou em explicar a União Europeia, de que não está Barroso a fugir do Governo?
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E os lisboetas? Com a cidade esventrada por um imbróglio que há quem diga que um dia se vai chamar túnel, não vão pensar que também Santana está a fugir da Câmara?
Acontece, como diria La Palice, que as coisas são como são. A saída de Barroso para Bruxelas é uma oportunidade imperdível. Porque dificilmente irrepetível. Tem naturalmente uma factura.
Este Governo cai, procura-se um novo Governo, um novo primeiro-ministro, nem que seja através de eleições. Não é dramático.
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Qual é o drama de ver este Governo morrer antes de tempo, se há muito definhava? A «banhada» nas eleições do Parlamento Europeu apenas acentuou a agonia de quem, a começar pelo próprio primeiro-ministro, não sabia já o que fazer aos dois anos que ainda restam.
A triste ironia é que o país volta a concluir que tinha um Governo novamente num pântano e o país na encruzilhada. Barroso segue o caminho de Bruxelas por razões totalmente diferentes das que levaram Guterres a sair para o desemprego.
É algo insultuoso, para este primeiro-ministro, insistir na comparação das duas demissões. O problema é que, entre uma e outra, o país fingiu que andava a fazer reformas muito importantes, quando, afinal e na prática, não mudou muito.
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Se o senhor Presidente da República não quer dissolver o Parlamento, em nome da estabilidade, deve então garantir que Santana Lopes não comprometa essa mesma estabilidade. Tenho sérias dúvidas. Muito boa gente do PSD também.
A ministra Ferreira Leite já fez saber que «com este nunca». O ministro Marques Mendes pede um Congresso extraordinário, fala num golpe de «legitimação na secretaria».
Santana Lopes tem grandes qualidades. Carisma, energia, dizem que é um mobilizador. Conta realmente com muitos fiéis seguidores. Organizou mundialitos de praia na Figueira. E tinha uns planos para o ParqueMayer.
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Barroso prefere Bruxelas. Sigam o cherne.
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