Volvidos dez anos desde a assinatura do Acordo de Paris, os especialistas não têm dúvidas sobre o caminho e a ambição da União Europeia (UE), mas dividem-se sobre o ritmo de execução no terreno. A perspetiva de Bruxelas é de que a principal conquista da última década foi, sobretudo, transformar o compromisso climático num “quadro abrangente de políticas e investimento juridicamente vinculativo”, assente na Lei Europeia do Clima, no pacote Fit for 55, em instrumentos como o REPowerEU e, mais recentemente, na nova meta intermédia de redução de 90% das emissões até 2040.
Em declarações ao Negócios, a Comissão Europeia sustenta que este quadro já se traduziu em mais investimento limpo, maior implantação de renováveis, produtos mais limpos e novos mecanismos de apoio à transição. Mas reconhece que agora “é na implementação que está o foco”.
A Comissão reconhece, aliás, que “é verdade que a transição está a entrar numa fase mais complexa”, mas rejeita a ideia de conflito entre clima e economia. “A ambição climática, a competitividade e a justiça social não estão em conflito. Pelo contrário, reforçam-se mutuamente”, sustenta, acrescentando que a descarbonização deve ser vista como motor de crescimento industrial e “um caminho” para a competitividade.
Produção renovável é conquista nacional
Em Portugal, o setor elétrico é provavelmente o melhor exemplo do progresso, como confirma a APREN, que fala mesmo numa “transformação estrutural profunda” do sistema energético nacional. A associação sublinha que, entre 2016 e fevereiro de 2026, a capacidade renovável instalada cresceu 9.762 MW, o equivalente a um aumento de 79,5%. Só no primeiro trimestre deste ano, 78,5% da eletricidade gerada em Portugal continental teve origem renovável, e durante 571 horas o consumo nacional foi totalmente assegurado por energia limpa. “Mais do que metas, falamos já de realidade”, sublinha.
A APREN destaca também o peso económico desta evolução e lembra que, em 2025, as renováveis permitiram evitar cerca de 873 milhões de euros em importações de combustíveis fósseis, 861 milhões em importações de eletricidade e 710 milhões em licenças de emissão de CO2. “Os ganhos associados às energias renováveis são hoje uma das decisões económicas mais racionais e estratégicas para Portugal”, defende fonte oficial.
Ainda assim, 2025 “marcou um ponto de inflexão” e, com exceção do solar, a instalação de nova capacidade nas restantes tecnologias praticamente estagnou, com um crescimento residual de apenas 0,03% face a 2024. Os principais bloqueios, diz a associação, continuam a ser o licenciamento demorado, a falta de capacidade da rede elétrica, o conflito social em torno de alguns projetos e um desenho de mercado que começa a gerar sinais adversos ao investimento.
A Último Recurso concorda que o balanço da década é de “progresso estrutural significativo, mas ainda aquém da ambição agregada necessária”. “Paris conseguiu estabelecer a arquitetura jurídica. A próxima década determinará se essa arquitetura se traduz em cumprimento efetivo”, aponta a associação.
Portugal tem, no entanto, motivos para reconhecer avanços, sobretudo no setor elétrico, embora se mantenha distante de uma trajetória compatível com Paris em áreas decisivas. “Descarbonizámos a eletricidade. O trabalho mais difícil – mobilidade, indústria, agricultura – continua por fazer”, considera a organização de justiça climática fundada por jovens europeus. Os transportes, diz, são o “caso mais urgente”, mas lembra também que há desafios na indústria, que exigem enquadramento regulatório, investimento e mercados para produtos de baixo carbono. “Não são medidas novas. Estão identificadas há anos. O que falta é execução”, afirma.