Nenhuma parte do oceano ficou à margem daquilo a que as Nações Unidas chamam a “tripla crise planetária”, que inclui alterações climáticas, perda de biodiversidade e poluição. Esta combinação de fatores está a afetar todos os grandes oceanos, enquanto a temperatura e o nível do mar continuam a bater recordes. É o retrato traçado pela nona edição do Ocean State Report, do serviço marinho do Copernicus, que reúne dados de satélite, observações no terreno e modelos para acompanhar a evolução dos oceanos.
Em 2024, o conteúdo de calor dos oceanos atingiu o valor mais elevado da série analisada. A temperatura média da superfície do mar ultrapassou temporariamente os 21 graus tanto em 2023 como em 2024, dois anos marcados por ondas de calor marinhas intensas e persistentes. O aquecimento resulta da combinação entre variabilidade natural e uma tendência climática de longo prazo, sem a qual os extremos recentes seriam “altamente improváveis”, concluem os investigadores.
Também o nível do mar está a subir mais depressa, com a taxa média global a chegar aos 4,1 milímetros por ano entre 2016 e 2024, a mais elevada registada, contra 3,1 milímetros anuais entre 1999 e 2006. Em pouco mais de duas décadas, o ritmo aumentou cerca de 30%. Desde 1901, a subida acumulada chega aos 228 milímetros, impulsionada pela perda de gelo na Gronelândia, Antártida e glaciares e pela expansão térmica da água à medida que aquece.
Na Europa, os sinais são particularmente visíveis no Atlântico Nordeste e nos mares que o rodeiam, onde o aquecimento e a acidificação avançam em várias regiões acima da média global. Em 2023, cerca de um terço destas águas esteve sujeito a ondas de calor marinhas severas ou extremas, algumas com duração até quatro meses. Cerca de 17% dos corais de águas frias e metade das pradarias marinhas da região foram expostos em 2024 a episódios extremos e prolongados.
O relatório encontra 8% dos principais pontos de concentração de biodiversidade marinha sujeitos a um aquecimento mais rápido do que a média mundial e 10% expostos a acidificação acima da tendência global. Entre os corais já classificados como ameaçados, 16% estão expostos a aquecimento ou acidificação rápidos. A proporção sobe para 30% entre os corais criticamente ameaçados.
Quase três quartos dos países que lançam mais de 10 mil toneladas de resíduos plásticos encontram-se junto de corais ameaçados ou criticamente ameaçados. E 92% dos países que ultrapassam esse volume de resíduos têm águas adjacentes onde o nível do mar está a subir mais depressa do que a média mundial, agravando a erosão e as inundações e facilitando o transporte de microplásticos de aterros, redes de saneamento e outras fontes terrestres para o oceano.
Para Costas Kadis, comissário europeu das Pescas e Oceanos, as conclusões representam “um diagnóstico difícil, mas essencial” e confirmam que “a tripla crise planetária não é uma ameaça futura, mas uma realidade presente”. A resposta europeia passa também por melhorar a capacidade de antecipação, nomeadamente com um gémeo digital europeu do oceano que permite já simular a propagação de espécies invasoras, prever o impacto de ondas de calor nos stocks de peixe ou testar áreas marinhas protegidas antes de serem implementadas. “O oceano está a enviar-nos um sinal claro. Estamos agora mais bem equipados para responder”, afirmou.
Andrius Kubilius, comissário europeu da Defesa e Espaço, considera que as conclusões são “um lembrete alarmante dos desafios urgentes que o nosso oceano enfrenta”, defendendo o papel das ferramentas de observação na concretização das prioridades do Pacto Europeu para os Oceanos.