Os ferries que operam na Europa estão a emitir mais dióxido de carbono do que 6,6 milhões de automóveis e, em várias cidades portuárias, são responsáveis por mais poluição atmosférica do que todos os carros juntos. A conclusão é de uma nova análise da Transport & Environment (T&E), que defende uma renovação urgente da frota.
De acordo com o estudo, em 2023 os 1.043 ferries analisados, muitos deles de pequena dimensão, emitiram 13,4 milhões de toneladas de CO2, “o equivalente a 6,6 milhões de carros durante um ano”. Barcelona surge como o porto europeu com maiores emissões de CO2 associadas a ferries.
Em cidades como Barcelona, Dublin ou Nápoles, os ferries são já responsáveis por mais emissões de óxidos de enxofre (SOx) do que todo o parque automóvel urbano. Dublin é atualmente “a cidade portuária mais poluída da Europa no que diz respeito à poluição atmosférica dos ferries”, seguida de Las Palmas (Espanha) e Holyhead (Reino Unido).
Mesmo no Mediterrâneo, onde já existem zonas de controlo de emissões marítimas, a diferença mantém-se significativa e em Barcelona, por exemplo, os ferries emitem 1,8 vezes mais SOx do que todos os carros da cidade.
A T&E reconhece que os ferries são essenciais para ligar ilhas ao continente e garantir mobilidade regional, mas aponta que a idade média da frota, de 26 anos, revela um parque envelhecido e altamente poluente. “Os ferries devem ligar comunidades, não poluí-las. Demasiados ferries continuam a queimar combustíveis fósseis poluentes, libertando ar tóxico nas cidades portuárias europeias. Eletrificá-los poderia reduzir drasticamente as emissões e trazer uma lufada de ar fresco a milhões de pessoas”, afirma Felix Klann, responsável pelas políticas de transporte marítimo da organização.
A boa notícia, segundo o relatório, é que a transição pode ser mais simples do que noutras áreas do transporte marítimo. Devido à sua menor dimensão e às rotas fixas, os ferries são particularmente adequados à eletrificação, com a T&E a estimar que pelo menos 60% da frota europeia poderá operar com baterias até 2035.
Além disso, mais de metade dos ferries (52%) seriam já hoje mais baratos de operar em versão elétrica do que com combustíveis fósseis, além de que, aponta o documento, a eletrificação e hibridização da frota poderia reduzir as emissões de CO2 até 42%, melhorar a qualidade do ar nas cidades portuárias e baixar os custos operacionais.
“A eletrificação faz sentido do ponto de vista económico. Os ferries elétricos já são mais baratos de operar em muitas rotas, e cada vez mais percursos serão competitivos nos próximos anos. Com uma idade média de 26 anos, este é o momento certo para uma renovação limpa da frota”, acrescenta Felix Klann.
O principal obstáculo identificado é a infraestrutura de carregamento nos portos, mas, ainda assim, a T&E sublinha que o desafio poderá ser menor do que se assume, já que 57% dos portos precisariam apenas de carregadores de pequena dimensão, abaixo de 5 MW, para suportar operações com ferries elétricos.
A partir de 2027, prevê-se que novas zonas de controlo de emissões no Atlântico Nordeste limitem a poluição associada aos combustíveis marítimos, alterando parcialmente o mapa das cidades mais afetadas. Até lá, conclui a organização, a renovação da frota representa uma oportunidade climática e de saúde pública que não deverá ser adiada.