Herberto Hélder: O poeta obscuro

Num dos seus livros mais iluminados, "Os Passos em Volta", Herberto Hélder traça a lápis, na parede em frente à sua cama, a frase que poderia ser o epitáfio da sua vida: "Meus Deus, faz com que eu seja sempre um poeta obscuro".
Alfredo Cunha / Porto Editora
Fernando Sobral 28 de Março de 2015 às 11:01

Num dos seus livros mais iluminados, "Os Passos em Volta", Herberto Hélder traça a lápis, na parede em frente à sua cama, a frase que poderia ser o epitáfio da sua vida: "Meus Deus, faz com que eu seja sempre um poeta obscuro". Nunca foi. Nunca será. A sua poesia não se esconde no lado escurecido da Lua ou nas florestas ainda virgens da Terra. Continua a iluminar a cultura portuguesa como um sol brilhante, mesmo no tempo em que a poesia está arredada da imprensa, esquecida entre sucessos mais relativos e falsos. Nesse livro sem data e sem idade, Herberto Hélder, escrevia também: "E é na morte de um poeta que se principia a ver que o mundo é terno". Ou: é na morte de um mundo que se começa a ver que um poeta é eterno. O seu olhar perdura, porque toda a sua escrita foi uma investigação nos labirintos da vida e da forma como todos nós vamos desfazendo os nós e os laços que estabelecemos com ela. Poucos poetas foram, no século XX português, tão relevantes como ele. Até porque as suas obsessões eram círculos concêntricos, onde a sua bússola nunca se perdia: a proximidade da morte, a magia das palavras, a vizinhança da loucura.

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Há um clube hipnótico na poesia portuguesa do século XX onde se coloca Herberto Hélder: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Teixeira de Pascoaes, Sophia de Mello Breyner ou Eugénio de Andrade. Ele foi um dos pioneiros do surrealismo entre nós, navegou em projectos experimentais, libertou-se na poesia experimental. A sua obra, muito própria, onde não havia fronteiras nem concessões (especialmente num país nivelado por baixo em termos culturais e com poucas janelas abertas para o mundo que nos circundava) cruzou-se também com esse nomadismo onde se refugiava dos holofotes. Evitava a luz. Deixava-a para o que escrevia. A sua obra, pessoal e extremamente enigmática, criou um grupo de seguidores que procuravam destrinçar as entrelinhas onde jogava com as palavras e as emoções.

A sua morte aos 84 anos deixa um verdadeiro défice cultural. Nascido no Funchal, em 1930, publicou em Junho do ano passado "A Morte sem Mestre" na Porto Editora, que incluía um CD com cinco poemas ditos pelo autor. Antes, em 2013, editara "Servidões", obra também de edição única. Para guardar a sete chaves, entre as mãos, e na memória. Tendo frequentado Direito, acabou por divergir para Filologia Românica. Fez de tudo, entre escrever em jornais, ser director editorial da Estampa, redactor de publicidade, ou metereologista. Em 1958 editou a sua primeira obra, "O Amor em Visita". Viveu entre a Holanda, a França e a Bélgica em finais dos anos de 1950 e regressou a Portugal em 1960, passando a ser responsável pelas bibliotecas itinerantes da Gulbenkian. Depois de ter vivido nos Estados Unidos, voltou a Portugal em 1975. E foi publicando as suas poesias, torres de sabedoria e fontes de imaginários que marcaram diversas gerações de poetas que foram chegando, como marés criativas, às costas de Portugal. Herberto Hélder cantava as cidades transformadas em pó. E os homens e mulheres que vivem no meio de cinzas. Escreveu ainda em "Os Passos em Volta": "Não queremos este inferno. Dêem-nos um pequeno paraíso humano". O paraíso das suas poesias fica aqui, entre nós. Para cuidarmos dele como riqueza maior deste país. 

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Herberto Hélder

1930/2015

 

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