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A empresa que avalia as outras empresas

A Informa D&B está a comemorar 110 anos em Portugal e vai lançar um novo modelo de avaliação. A sua missão é prever a probabilidade de uma empresa cessar a actividade em 12 meses com dívidas ou de, nesse período, começar a ter problemas de pagamento.

Alexandra Machado amachado@negocios.pt 30 de Setembro de 2016 às 13:00
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Fernando Pessoa regressa a Lisboa, vindo da África do Sul, em 1905, inscreve-se na faculdade, mas o curso superior de letras ficaria para trás. Por esses anos, arranja o que muitos estudiosos acreditam ter sido o seu primeiro emprego. Passa a ser analista da empresa norte-americana R.G.Dun & Cia, a primeira agência de avaliação de risco de crédito, fundada em 1841 por Lewis Tappan (nascida com o nome Mercantile Agency). A companhia tinha chegado a Lisboa em 1906, faz agora 110 anos. Na "Uma Quase-Autobiografia" de Fernando Pessoa, livro escrito pelo brasileiro José Paulo Cavalcanti Filho, fala-se do trabalho do escritor português na Rua d'El Rei (actual Rua do Comércio), número 99, 3.º esquerdo. "Foi provavelmente o seu primeiro emprego - conseguido por Aniceto Mascaró, marido da sua prima Laurinda Neves, então gerente daquela empresa em Portugal. Ficou lá no máximo por um ano. Mas não era propriamente um assalariado; o seu trabalho de estagiário consistia em coordenar informações de empresas portuguesas recebendo, como pagamento, recursos que apenas lhe permitam comprar cigarros, livros e fazer pequenas despesas."

Poucos adivinhavam, então, que este analista, inconstante e irreverente, se tornaria num dos maiores poetas portugueses. Ali tinha de trabalhar com números, contas e recolher informações das empresas que a R.G. Dun queria analisar. Os analistas tinham de andar de porta em porta a recolher informação, até junto dos vizinhos. Os repórteres tinham de ser "reconhecidos no meio empresarial, pessoas idóneas e não corruptíveis", explica, ao Negócios, Teresa Cardoso de Menezes, directora-geral da agora Informa D&B.

A história desta empresa, com 175 anos, 110 em Portugal, tem outros analistas famosos. Só Presidentes dos Estados Unidos, foram quatro: Abraham Lincoln, Ulysses S. Grant, Grover Cleveland, William McKinley. O escritório em Lisboa foi o quarto na Europa, depois de ter aberto na Suíça, Inglaterra e Espanha (Barcelona).

Fernando Pessoa tornou-se num dos maiores na sua arte. Também a R.G. Dun se tornaria numa das maiores companhias de avaliação de risco. Depois de fundada, em 1841, a importância do comércio norte-americano no século XIX tornou o negócio relevante. E, em 1939, após o "crash" de 1929, juntou-se à J.M. Bradstreet & Company para formar a Dun & Bradstreet, nome que, em Portugal, só foi assumido em 1968. O processo de crescimento continuou a nível mundial. Em Portugal, ainda havia mais história. Em 2004, a Informa Espanha, detida pelo grupo Cesce, adquire as operações dos dois países ibéricos da Dun & Bradstreet, com quem assina uma parceria. A R.G. Dun, que chegou a Portugal em 1906, passaria a Informa D&B quase um século depois.

Ser directora-geral de uma empresa centenária acarreta, assume Teresa Cardoso de Menezes, uma responsabilidade acrescida, uma herança que tem de preservar de forma intacta para a poder transmitir. "Quando entrei, sentia-se a importância e o peso da cultura e dos anos", assume ao Negócios, admitindo que há aspectos positivos e negativos no facto de ser centenária.

Há 25 anos na empresa, Teresa Menezes teve vários desafios pela frente. Este ano terá mais uma prova de fogo com o lançamento do novo modelo de avaliação, que representa um marco para a empresa. O projecto começou há dois anos e está em testes há mais de seis meses. Tudo para responder sempre à mesma questão: aferir se é seguro uma empresa fazer negócio com outra. "O problema que resolvemos é intemporal. Vai sempre haver necessidade de perceber quem está do outro lado", admite. Um pouco como nas relações pessoais. Hoje em dia, quando se conhece uma pessoa, vai-se à internet ver o seu perfil. Com as empresas é o mesmo, só que essa pesquisa começou bem mais cedo. Mas hoje está mais generalizada.

A Informa D&B contava com cerca de 3.000 clientes em 2008, hoje são cerca de 14 mil activos que têm qualquer coisa como seis milhões de empresas em vigilância (há duplicações) que geram diariamente 3,2 milhões de relatórios, além do que é enviado através de um serviço de alerta, que avisa os clientes quando alguma coisa muda nas empresas que puseram sob vigilância, um sistema de alerta que vai ser alargado para todo o tipo de informação.

Se a Informa D&B garante ter essa capacidade de resposta, tem também de ser capaz de recolher e tratar a informação que lhe chega todos os dias. É informação pública que tem de ser "arrumada" e tratada, para que sejam gerados os rácios e as avaliações de risco.

Recentemente, houve um pico de recepção de informação com a entrega dos balanços por parte das empresas nas finanças. A entrega foi em Julho e, a 15 de Agosto, a empresa já tinha 95% dos balanços tratados. Este ano, a recepção passou a ser diária; no ano passado, ainda semanal, chegaram a receber 50 mil balanços num só dia. Assim que um balanço entra, há milhares de processos que arrancam de forma automática, nomeadamente o cálculo do "rating" e dos rácios, alterações que são enviadas no dia seguinte para os clientes. Por dia, a Informa D&B "mexe" em quatro mil empresas.

"Não temos margem para erro", acredita a directora-geral da Informa D&B. E hoje, com a informatização, será mais fácil garantir a fiabilidade. Antes, o processamento era manual. Teresa Menezes recorda que, quando chegou, havia um esforço enorme para se contactar com as empresas avaliadas, para apurar dados. E, muitas vezes, só se sabia da criação de uma empresa oito ou nove meses depois, quando era publicada em Diário da República.

A revolução digital na Administração Pública abriu um novo mundo para a Informa D&B e para os seus clientes. A empresa tem duas avaliações-chave. O "failure score" determina a probabilidade de uma entidade cessar actividade com dívidas dentro de 12 meses; o "delinquency score" apura a probabilidade de uma entidade se atrasar nos pagamentos no espaço de um ano. Estes dois indicadores estão constantemente, eles próprios, a serem avaliados. Teresa Menezes avança que a capacidade de previsão da Informa D&B é "altíssima", superior a 70%. Mas chegou o momento de mudar o modelo. Em Novembro, acontecerá a alteração, mudanças que só são feitas quando há acrescentos de informação que chega da fonte ou uma nova forma de apresentação, mas só depois de haver um histórico de quatro anos e uma cobertura que permita observar o comportamento.

O primeiro modelo estatístico feito pela empresa remonta a 1998. Antes, o "rating" era atribuído pelo analista. Há 10 anos, todo o trabalho era manual. "A base de dados era um gigantesco processamento de dados com poucas tabelas. Tinha de haver uma grande disciplina na forma como os dados eram introduzidos." Para evitar os erros. A partir de 2007, a revolução da digitalização, nomeadamente na Administração Pública, obrigou a Informa D&B a mudar toda a infra-estrutura de suporte. "Não teríamos sobrevivido se não a tivéssemos alterado radicalmente" e teve de haver um grande trabalho de requalificação dos trabalhadores. Teresa Menezes acredita que foi um processo bem-sucedido, até pelos 120 trabalhadores da empresa, que têm uma rotação baixíssima. Ainda assim, há competências novas que a tecnologia obrigou a ter: os cientistas de dados, como lhe chama, permitem trabalhar e modelar todos os dados.

Agora, a tecnologia está em todos os poros. "Dependo completamente da tecnologia", assume a directora-geral, que diz ter o objectivo de conseguir entregar um relatório completo no menor espaço possível e visualmente de forma apetecível. O relatório não pode ter mais de 20 páginas. Um sumário não por ter mais de duas. "Isto é uma arte. As pessoas não querem quilómetros de informação." Vivemos na era da informação e a quantidade de dados disponíveis é cada vez maior. A Informa D&B, que ostenta uma taxa de crescimento médio anual na última década de 3,8% (sendo a banca o principal cliente), só trata dados empresariais, não se "atira" aos dados pessoais.


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