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Custódia Gallego: A sociedade ainda não aceita a diferença. Tolera-a, mas não a aceita

Filha de mãe espanhola, a actriz Custódia Gallego passava os três meses de Verão em Oliva de la Frontera, província de Badajoz, onde todos, adultos e crianças, saíam ao fim da tarde para "el paseo". Em Portugal, ainda não era assim.Era mais difícil ser-se adolescente do lado de cá. Mas ela punha o gira-discos na varanda e ouvia a música da moda. Ela e os vizinhos.

Miguel Baltazar/Negócios
Lúcia Crespo lcrespo@negocios.pt 16 de Setembro de 2016 às 12:00
Filha de mãe espanhola, a actriz Custódia Gallego passava os três meses de Verão em Oliva de la Frontera, província de Badajoz, onde todos, adultos e crianças, saíam ao fim da tarde para "el paseo". Em Portugal, ainda não era assim. Era mais difícil ser-se adolescente do lado de cá. Mas ela punha o gira-discos na varanda e ouvia a música da moda. Ela e os vizinhos.

Nasceu em Beja, morou em Portalegre, seguiu para Lisboa, onde estudou medicina durante três anos. A Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa não tinha um grupo de teatro e ela foi pedir ajuda ao Conservatório. Foi até lá, foi ficando e ficou mesmo. Presença habitual na televisão, Custódia Gallego chegou a fazer teatro radiofónico quando a chuva ainda era "feita" com fitas de cassetes. É agora o rosto do monólogo "A Mordaça", a partir do texto do escritor de Éric-Emmanuel Schmitt, com encenação de João Grosso. A peça está, até dia 2 de Outubro, no Teatro São Luiz, na sala Mário Viegas. De quarta a domingo. Fala-nos sobre exclusão e excluídos.

Descobri "A Mordaça" através de um psiquiatra que andava obcecado com o escritor Éric-Emmanuel Schmitt. Ele encontrou este monólogo e pediu-me para fazer uma leitura encenada num contexto de formação dos seus internos de psiquiatria. É um relato de uma pessoa, um pastor, que morreu de SIDA numa situação de isolamento. Neste contexto, o estigma é maior. Ao ler o texto apaixonei-me por ele, gostei de tudo aquilo que questiona e que tem que ver com a exclusão. Afinal, como é que a sociedade trata os excluídos?

Aquela doença infecto-contagiosa trouxe um estigma muito grande, uma vergonha muito grande… Esta leitura encenada terá sido feita há quatro anos, aproximavam-se então as comemorações dos 30 anos de luta contra a SIDA, e eu propus uma representação do texto a uma entidade idónea, mas responderam-me que queriam passar a mensagem de que hoje ninguém morre de SIDA. Por um lado, fez-me sentido. Com tanta investigação e medicação, podemos não morrer de SIDA, mas ainda existe morte por SIDA, por muitas razões. Por isolamento. Fez-me pensar que, por causa dessa ainda não verdade que há-de ser verdade, não se fala de SIDA. E quando já não se fala, é perigoso.


Este espectáculo não se centra apenas numa exclusão. Há muitas exclusões. Os nossos grupos sociais continuam muito fechados, a sociedade ainda não está no ponto em que aceita a diferença, tolera-a, mas não a aceita. Estamos na fase do "toda a gente faz um esforço de tolerância" e, se calhar, esse esforço, mantido mais ou menos confortavelmente, cala o esforço para trabalhar a aceitação. Aceitar é uma coisa, tolerar é outra.

Quanto mais pequeno é um burgo, mais hipóteses de exclusão existem porque a variedade é menor. Em Portalegre, onde vivi durante a adolescência, distinguiam-se facilmente os diferentes grupos, havia os mais abonados economicamente, os da burguesia mais ou menos confortável, e havia o povo. Numa cidade mais pequena, onde por vezes só há uma escola secundária, as diferenças entre quem tem mais dinheiro e mais livros e quem não os tem nota-se mais. E as crianças e os adolescentes são muito cruéis, são muito verdadeiros, ainda não construíram os seus filtros.

Nasci em Beja, mas a família da minha mãe é espanhola e eu passava três meses de férias intermináveis em Oliva de la Frontera, e lá eu sentia que era muito mais feliz do que as minhas amigas que não tinham a possibilidade de sair de Portugal e viver numa cultura, então, mais livre. Todos os dias, às sete da tarde, havia o ritual do "el paseo", largava-se tudo, os adultos começavam a beber jolas e a conviver com os amigos. Toda a gente ia para a rua. Mal chegava de Espanha, punha-me a ouvir Julio Iglesias, ouvia aquelas músicas das festas. E Marisol! E Joselito! Metia o gira-discos na varanda para toda a gente ouvir aquilo que eu ouvia, Pink Floyd, Led Zeppelin... Acho que fiz as coisas normais de miúda. Era palhacinha, gostava de ter as atenções sobre mim, mas nada mais que isso, fazia aquilo que as outras adolescentes faziam.

Temos o dever, hoje, de aproveitar mais a vida. O personagem do monólogo "A Mordaça" diz assim: "Vivi muito tempo sem me dar conta, levantava-me, deitava-me, ia todos os dias para o campo, de tempos a tempos ia ao mercado, ao mercado, era assim que nós chamávamos à festa popular, mas eu não sabia que o fazia, eu nunca me perguntava. Bem, comes uma maçã ou enfias as botas na lama? Não, eu fazia-o simplesmente, absorvia-o nos meus actos, como um torrão de açúcar se dilui na água, só hoje tomei consciência disso, agora que é demasiado tarde".

Mas, claro, a possibilidade de beber a vida todos os dias, de absorvê-la com tudo o que nos aparece à frente sem deitar nada fora, tem que ver com a nossa personalidade, tem que ver com tudo o que trazemos de trás. Ainda ontem falava de alguém que tem muito dinheiro e que passa o tempo a fazer ainda mais dinheiro, eu até acho que o dinheiro dá felicidade porque traz liberdade para não contarmos os tostões, mas só até aí. Depois disso, se vivermos para ter ainda mais dinheiro, deixamos de ter a liberdade que o dinheiro nos dá.

Penso que as pessoas, hoje em dia, para manterem um nível de vida confortável, uma vida que lhes dê liberdade, trabalham muito, e isto do trabalhar muito faz com que haja menos tempo para o lazer, menos tempo para se sair do núcleo de trabalho. Economistas conhecerão muitos outros economistas e, quem sabe, só. Médicos conhecerão muitos outros médicos e, quem sabe, só. Nós, os ditos da cultura, temos "obrigação" de abrir uma porta e dizer: "atenção, existem outros mundos". E a cultura comunica-se até pela via do lazer. É a área do prazer. Palavras que estão mal conotadas. É triste dizer isto, mas o consumo de arte em Portugal está pior do que estava quando eu comecei, e está pior porque está igual.

Eu queria ser médica, estudei medicina durante três anos e ainda hoje gosto muito de medicina e sei porque é que gosto, porque é das ciências que mais estuda o humano. E qual é que é o meu objecto de trabalho? O ser humano. Mas acabei por seguir o Conservatório e deixar a medicina. Como? Bom, tudo o que somos há-de vir de algum lado, não foi um vaipe que me deu. Percebi que a minha universidade, a Nova, não tinha um grupo de teatro. "Ai, então temos de criar um", pensei. Certamente que haveria alguém disposto a colaborar na nossa formação. Estava no Campo Santana, apanhei o Elevador do Lavra, atravessei a Avenida da Liberdade, segui no Elevador da Glória, andei mais um bocado e cheguei ao Conservatório. Daí até começar a almoçar lá, mais vezes do que na cantina da Nova, foi um nico. Pus-me a fazer as duas coisas ao mesmo tempo, até que tive de optar. Mas nunca me senti a sair da medicina, eu gostava, e gosto, e nunca mais me desliguei dela.

Os meus pais não aceitaram a minha opção, claro que não. Então, a filha tinha conseguido entrar num curso superior, que era o objectivo de qualquer pai na altura, e em medicina, e agora ia ser o quê, "artista de cabaré?!". Fiz o Conservatório às escondidas e eles só me viram actuar quando eu tinha 29 anos, foram ver a peça "O Auto da Barca do Inferno", do Gil Vicente.

Comecei por fazer papéis pequeninos, participações, criava os meus projectos, juntava-me a outros, cheguei a fazer teatro radiofónico, lembro-me da chuva "feita" com aquelas fitas de cassetes. Inicialmente, temos de fazer muitos trabalhos para sermos vistos. Hoje tenho quase sempre trabalho, mas também é preciso lutar por isso, esta peça é um projecto meu com a ajuda de muitos. "A Mordaça" é um monólogo e vejam as pessoas de que eu preciso, e que eu quero, a trabalhar comigo! Um encenador como o João Grosso, um figurinista como o José António Tenente e, na luz, o José Nuno Lima... Na minha profissão, é inevitável trabalhar em grupo, e isso é muito bom. 

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