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Joana Pontes: A negociação e o compromisso unem as pessoas

É da geração que cresceu antes da CEE, mas é a geração que nasceu depois que mais lhe dá esperança. Realizou Europa 30, uma série que a RTP está a mostrar para nos fazer pensar sobre os 30 anos que passaram desde que Portugal aderiu à comunidade europeia.

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Acabou de realizar Europa 30, uma série que a RTP está a mostrar para nos fazer pensar sobre os 30 anos que passaram desde que Portugal aderiu à comunidade europeia. É uma espécie de estado da União, onde se pretende lançar algumas pistas para o futuro, ou pelo menos deixar tudo um pouco mais claro para que sejam visíveis os erros do passado. Nuno Severiano Teixeira e David Castaño, co-autores, tinham razão em achar que a realizadora Joana Pontes podia apresentar a história mais complexa das nossas vidas como se fosse simples. Já fez um retrato do país em Portugal Social (com António Barreto) e mostrou outra forma de nos olharmos através de um retrato de Jorge de Sena. Entre os documentários, continua a estudar, como uma espécie de remédio necessário para se manter alerta, para continuamente fazer novas ligações. É da geração que cresceu antes da CEE, mas é a geração que nasceu depois que mais lhe dá esperança.


1. Considero-me uma pessoa bastante informada. E, no entanto, não sabia tantas coisas sobre a União Europeia. Não sabia, por exemplo, que o processo legislativo era tão complicado e tão moroso, entre a Comissão Europeia, o Parlamento Europeu e o Conselho Europeu.

Houve muitas coisas que só percebi agora, enquanto fazia esta série. Só percebi agora, por exemplo, que o alargamento não foi bem feito; que a UE não se preparou convenientemente para a entrada do Leste Europeu. E, de repente, eram 28 vontades a conciliar.

Lembro-me que quando comecei a ler a documentação sobre as instituições europeias, tive imensa dificuldade em entender o funcionamento de toda a engrenagem. Pareceu-me realmente opaco.

Então, estudei aquilo tudo com muito detalhe porque eu precisava de perceber para que depois os espectadores pudessem perceber. Desde o início que essa foi a nossa grande preocupação, também do Nuno Severiano Teixeira e do David Castaño: trazer alguma clareza.

A opacidade e a imagem burocratizada da União Europeia não ajudam a criar adesão ao projecto europeu. A União Europeia tem de ser mais transparente e aproximar-se mais das pessoas, mas também acho que as pessoas têm de se interessar mais; nós temos de nos informar.

Pensei muito nisso na altura [do referendo] do Brexit. No dia seguinte ao referendo, no Google, o maior número de pesquisas era: "O que é que é a União Europeia?"

As primeiras filmagens que fizemos para a série foram no Reino Unido, antes do referendo, no próprio dia e depois, quando toda a gente ainda estava chocada com o resultado.

Para mim, foi muito esclarecedor fazer este projecto e acho que veio numa hora em que é realmente necessário pensar em tudo isto.

2. Não percebo a expressão "classe política". "Classe política"? O que é isso? As pessoas que estão na política têm, acima de tudo, de ser pessoas a trabalhar para o bem comum, pessoas com boas ideias, pessoas com uma ideia de negociação e de consenso.

Dá ideia de que, cada vez que é preciso negociar para chegar a um consenso, isso é visto como uma fraqueza. E não deve ser. A negociação e o compromisso são uma coisa de grande inteligência para unir as pessoas. E acho que também é preciso trabalhar com uma ideia de descendência. Às vezes fica-se a pensar se as pessoas que estão em postos de grande responsabilidade têm filhos ou netos. Por exemplo, olha-se para as questões ambientais que são urgentes, mas não andam para a frente. Dá a impressão que não se pensa no mundo que estamos a deixar. Porque há um tributo. Nós vamos deixando coisas para as gerações seguintes.

3. Quando há uma crise - e crise, aqui, não tem um sentido pejorativo -, quando estou num impasse, geralmente vou estudar. Acho que faz bem à cabeça e ao coração. E houve um momento, quando acabei a série Portugal Social e outros dois filmes sobre a televisão que fiz com o António Barreto, que achei que precisava de ir fazer outra coisa e comecei o meu doutoramento.

Estou agora a acabar. Tem que ver com correspondência da Guerra Colonial. Era uma ideia que tinha há muito tempo. A minha premissa era perceber como é que os militares viram, perceberam e sentiram uma missão pública que foi a sua participação na guerra. Eles e as suas famílias.

Foi surpreendente encontrar semelhanças nos temas e na maneira de os exprimirem com outras correspondências de outras guerras. Estudei correspondência, já tratada e publicada, da Primeira e da Segunda Guerra por exemplo. Claro que há pormenores específicos, mas no fundo é o ser humano: nas saudades, na necessidade de educar os filhos que deixaram pequeninos para trás, nas relações com as namoradas, nas relações com as mães.

Por outro lado, acho que nestas cartas, que são cartas de gente comum, se vê a espessura do Estado Novo: aquela vidinha em que as pessoas tinham imensas dificuldades. Não havia luz em muitas casas, nem água. As pessoas trabalhavam desalmadamente. Podiam passar fome se havia mau tempo. E havia outras questões, mais de valores, como a violência familiar.

Às vezes, tinha de parar a minha pesquisa. É difícil não me vincular à sorte daquelas pessoas.

Ouço dizer como antigamente as coisas eram melhores. Parece que as pessoas se esquecem. Naquelas cartas, vê-se realmente o que era a miséria.

4. As pessoas mais novas são muito mais europeias. Muitas já fizeram Erasmus - e, realmente, o Erasmus foi importantíssimo para a criação do espaço europeu. E as que não fizeram, mesmo assim, cruzam-se com outros mundos, seja por causa da internet, seja por causa de conhecerem pessoas de outras nacionalidades na escola. Tudo isso deu uma abertura a estas gerações que é completamente diferente da minha geração.

Todas as pessoas jovens com quem falámos em Inglaterra estavam tristes com a saída do Reino Unido. Em Bruxelas, a mensagem das pessoas mais novas era: não nos façam perder isto! Poder viajar e viver em qualquer lado - e ser fácil - é de inestimável valor.

Quando entrevistámos músicos aprendizes da Orquestra Geração e lhes perguntámos o que é a Europa para eles, eles responderam: é a livre circulação, é ter uma moeda comum. É eles, como futuros instrumentistas, poderem deslocar-se de um lado para o outro sem barreiras.

As gerações mais novas que conheci nesta série deram-me esperança. São pessoas que têm precisamente uma ideia de que é preciso haver paz, haver compromisso, haver negociação, haver consenso, e que é preciso trabalhar e discutir para esse entendimento.

Um dos depoimentos que mais me iluminou enquanto estava a montar foi o da Maria de Sousa. Ela diz que o país dos 3 F - fado, futebol e Fátima - está a acabar. E que há agora um país dos 5 C: criatividade, cultura, conhecimento, ciência e compaixão. E fiquei a pensar numa coisa que ela disse: que isto já mudou e nós ainda não percebemos. Muitas vezes, quando nos damos conta das mudanças, já elas aconteceram.


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