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Maria Cândida Rocha e Silva: Às vezes, as pessoas fazem negócios com coisas inegociáveis

Maria Cândida Rocha e Silva, presidente do Banco Carregosa, foi a primeira corretora da bolsa e é a última banqueira. Fala-nos da sua vida e do seu banco.

Miguel Baltazar/Negócios
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São os "nossos tempos maus" que o mostram. Maria Cândida Rocha e Silva, presidente do Banco Carregosa, foi a primeira corretora da bolsa e é a última banqueira. Combina a entrevista no "charme" do Ritz. É dada a estes requintes, que, no seu caso, são naturais.

Fala da sua vida com à-vontade, mas vai dizendo que não tem muito para contar. Não é verdade. A conversa, de duas horas, podia ter continuado, percorrendo o banco, Luanda, Vila do Conde e, sempre,

a sua família. Aos 72 anos, agradece a vida que teve e que tem. "Eu sei que há vidas muito difíceis. A minha foi sempre muito fácil…".


Ainda vai ao banco?

Todos os dias. Até por uma questão de gratidão. Tenho de reconhecer que fui uma privilegiada. Tive uma sorte imensa nesta vida. Tenho sempre.

 

Em quê?

Calhou, por exemplo, trazer-me um dos melhores fotógrafos, que eu não conhecia. Isto não é ter sorte? Eu tive uma carreira realmente muito boa. Tive a sorte de ser a primeira corretora do país.

 

Isso é sorte? Essa sorte, não a construiu?

Ajudei sempre um bocadinho. Mas muitas coisas aconteceram por sorte, absolutamente. Antes de casar, estava a estudar filologia clássica, latim e grego – ainda hoje gosto imenso –, que era a minha paixão. Tinha feito três anos de faculdade e casei-me – casei-me muito cedo. Fui para África e, quando vim, tinha de acabar o curso, mas como, na altura, não havia no Porto, comecei filologia românica que era o sucedâneo. E fiz o curso a trabalhar, com uma casa grande, marido e duas filhas. E com aquele espírito de conseguir cobrir estes campos todos sem se notar ineficiência em algum deles, pensava eu.

 

Notou-se?

Acho que correu sempre bem, mas também é a minha visão… O meu pai era muito exigente e, como tinha muitos funcionários, queria que eu desse provas. Eu nem sequer podia entrar mais tarde para ficar a preparar os exames.

 

Uma vez, Belmiro de Azevedo disse que qualquer gestor da família, para entrar na Sonae, tinha de mostrar 20% mais do que os outros trabalhadores… O seu pai era assim?

Exactamente. Sempre admirei muito o Eng. Belmiro, ainda não tinha ouvido isso, mas acho que diz muito bem, porque há sempre aquela coisa de que ‘veio para aqui porque nasceu filha de não sei quem…’.

 

Mas ajuda… até pela transmissão do saber.

Meu Deus, se não ajuda! Até para nascer imbuída daquele espírito. O meu pai era exigente. Fiz o curso em cinco anos, mas como tinha dificuldades de tempo deixava sempre uma ou duas cadeiras para Outubro. Na altura, havia a segunda época. No ano em que acabei o curso, fiz todas as cadeiras em Junho e só assim pude concorrer ao lugar de corretora de bolsa. Se não tivesse concluído a licenciatura, não podia concorrer. Então não acha que isto foi uma sorte?

 

Com que média é que terminou o curso?

Não me recordo. Mas não foi nada de brilhante. O banco tem uma parceria com a Universidade Católica e há um colega meu na administração que  escolhe, entre os finalistas de gestão, aqueles que vêm estagiar connosco. Ele diz que não entrevista ninguém com uma média abaixo de 18.

 

E têm de ter cursos no INSEAD? A propósito da Caixa Geral de Depósitos... É importante?

Para os [administradores] executivos, é muito importante. E penso que isso também foi para mostrar aos outros que quem vai para lá não é por ser importante, rico ou bem colocado. Quem vai, tem de saber o que está a fazer. Eu achei bem. Até para quem está de fora….

 

Tem essa preocupação em relação aos executivos do seu banco?

Muito. Muito. Não é só preocupação, é também um investimento. Na Católica, havia um menino a terminar gestão que dava nas vistas e foi para o Imperial College, em Londres. Era o que ele queria. O banco pagou para ele ir e voltar. Esperou por ele. Fazemos sempre isto. Ainda eu era corretora e já o fazíamos. É importante investir para que as pessoas possam dar o seu retorno.

 

E depois ficam?

Curiosamente, tenho tido muito boas experiências. E nunca fiz daqueles contratos a dizer ‘se for embora ao fim de ‘x’ anos, tem de dar 30%, ou ao fim de seis…’, nunca fiz isso.

 

Teve sorte?

(risos) Tive. Se calhar... Acredito na sorte.

cotacao Não sei se me agrada muito que me chamem banqueira, embora não tenha problemas nenhuns nisso. 

Todos os dias vai ao banco…

Todos os dias. Hoje em dia, há a comissão executiva, mas eu gosto que eles me dêem a conhecer o que vai sendo tratado. Disso, eu gosto. Mas eles são os decisores.

 

Não tenta intervir na gestão do dia-a-dia?

Nada. Nada. Eles são os decisores. Eu tenho uma parte muito importante, que é a da representação. A de dar a conhecer o banco. Não sei se vai concordar comigo, mas nós somos um banco diferente, o nosso modelo está naqueles bancos suíços antigos que ficavam numa moradia, bonita, em que se tocava à porta, entrava-se, e quem olhava de fora não via nada. Estes bancos acabaram todos…, mas nós pretendíamos esse modelo.

 

É um private. O BPP também queria isso.

Não gosto de falar da concorrência, sobretudo quando está enterrada. Mas não é a mesma coisa, de todo. Quem tem uma tradição, tem de a respeitar. No banco, temos uma frase do Miguel Torga, que eu acho fantástica e que diz, a propósito da obra dele, ‘nenhuma árvore anuncia os seus frutos, embora goste que lhos comam’. E nós estamos na mesma. Não anunciamos os nossos produtos bancários, mas claro que gostamos que nos venham visitar. Um banco destes precisa de uma representação especial.

 

Sente que é a embaixadora do banco?

É isso. Neste trabalho, eu contacto com pessoas interessantíssimas. Mais logo, por exemplo, vou a um ‘cocktail’ à Embaixada do México.

 






É também uma embaixadora de Portugal?

Não, não, não. Isso, o dr. Augusto Santos Silva deve fazer bem o seu papel, não sei. Isto é Banco Carregosa. Isto vem do meu pai. O que eu faço é dar a conhecer o Banco Carregosa. Os meninos, como eu digo – porque os meus executivos têm 40, 50 anos, à minha beira são uns meninos –, têm outro trabalho. Se fizermos como as abelhinhas e cada uma se focar no seu trabalho, no fim, teremos qualquer coisa. Nisso, eu também vejo a minha sorte, porque para o final de vida…

 

… pensa no final de vida, pensa na morte?

Não penso nada. Sou muito optimista e penso que a morte também vai ser suave.

 

Qual acha que vai ser o futuro do banco?

Eu gostava que o futuro do banco fosse crescer em clientes, ser conhecido, mas sempre conhecido como diferente. Sendo pequenino, mas reconhecido pelo seu bem fazer. Temos muita preocupação em ser diferentes, em fazer bem, em fazer correcto. Eu disse a uma pessoa que tivemos de admitir – infelizmente, a minha secretária de há 40 anos está doente e eu sinto uma orfandade que não imagina – que este banco é diferente, que neste banco faz-se cerimónia. Ela ficou um bocadinho espantada. Mas, depois, percebeu. Somos diferentes.

 

As suas filhas e os outros accionistas comungam dessa visão?

As minhas filhas – uma é economista mas vive aqui [em Cascais], a outra é farmacêutica – não têm nada que ver. Ninguém [da família] está formatado… Nós éramos quatro irmãos e só eu é que fui trabalhar com o meu pai.

 

É isso que os outros accionistas querem do banco?

Sim, perfeitamente. O sr. Américo Amorim, durante algum tempo, até fazia o favor de estar presente nas reuniões do conselho. O que nós achávamos uma benção, porque ele é uma pessoa com muita experiência, que comunica muito bem.

 

Quem são os accionistas do banco?

Eu e um colega meu, somos os dois administradores não executivos e trabalhamos juntos, nem digo há quanto tempo. Temos a maioria [do capital]. O senhor Américo Amorim e um senhor que é advogado no Algarve, o dr. António Marante, têm, a seguir, as duas participações mais relevantes e, depois, está tudo pulverizado por clientes, pessoas que nos conheciam e que, quando passámos a banco, quiseram dizer ‘nós acreditamos’.

 

José Veiga é accionista?

É, na parte que não podemos controlar. Qualquer accionista pode vender as suas acções. Não temos parassociais. Agora, nessa qualidade, nunca tive qualquer contacto com ele. Cruzou-se connosco como cliente, foi sempre muito correcto.

 

Foi a primeira vez que lhe entrou a polícia pela porta adentro?

Sim. E tivemos muita pena.

 

Afecta a imagem do banco?

Eu tinha dito que não queria falar sobre o assunto. Mas vou dizer o seguinte, porque é um bocadinho vaidade minha. Acho que, pelo facto de o banco ser tão respeitado, a sua imagem não foi afectada. Fiquei aflita, sob o ponto de vista reputacional, mas graças a Deus que não aconteceu nada.

cotacao O caso BES foi muito, muito mau. É natural que as pessoas não olhem os banqueiros com bons olhos. Fica sempre qualquer coisa para o contribuinte. 

Porque a banca hoje em dia tem má fama… até por causa dos casos BPP, BPN e, especialmente, do BES.

Especialmente do BES…. Eu não gosto muito de comentar porque não sei, coisas há que eu nem percebo.

 

Imaginava alguma vez que pudesse acontecer o que aconteceu ao BES?

Nunca. Nunca. Ao BES, nunca. E considero que, ao dizer-lhe isto, não estou a ser nada ingénua. Porque, na véspera do colapso, o governador, o primeiro-ministro e o Presidente da República vieram dizer que se podia investir porque havia o ‘ring fence’, BES e GES estavam perfeitamente separados, e não iria acontecer nada. E eu acreditei… E não estou a fazer de ‘naïve’. Acreditei porque estas três pessoas tinham obrigação de saber e não podiam, de maneira nenhuma, estar a enganar os portugueses.

 

Para quem está dentro do sector, como se recebe uma notícia da resolução do BES?

Muito mal. Foi o fim do BES, o fim da PT, foi o fim de muita gente… Foi muito mau.

 

Teve impacto para vocês?

Teve. Teve impacto em toda a gente. Foi muito, muito mau. É natural que as pessoas menos informadas não olhem para os banqueiros com bons olhos. Fica sempre qualquer coisa para o contribuinte.

 

Foi a primeira corretora e pode dizer-se que é a última banqueira em Portugal?

(risos) Eu não sei.

 

Não gosta que lhe chamem banqueira?

Não sei se me agrada muito… (risos), embora não tenha problemas com isso. Mas a parte executiva não me está entregue, embora goste de estar muito presente e sempre ao corrente de tudo.

 

Ainda tem a adrenalina dos mercados?

Passou-me quando o mercado se tornou electrónico. Dantes, íamos à bolsa, era tudo presencial, até tínhamos de fazer um bocadinho de ‘bluff’… era engraçado. Não digo que fosse adrenalina pura. Estamos num país que, tradicionalmente, não recorre à bolsa. O movimento não era muito, mas estávamos no ‘floor’. Agora, estar ali a clicar… não é muito excitante.

Também houve, nos anos 80, o caso Pedro Caldeira… foi um choque na altura?

Foi, não se estava à espera. O escritório de um corretor era muito exigente. Além do muito papel que produzíamos para registar as transacções, também os títulos eram de papel, não estavam desmaterializados. O que fiz nos anos 80 só foi possível porque era muito nova. Saía muitas vezes do escritório às quatro ou cinco da manhã para ir a casa dormir um bocadinho, tomar banho e voltar. Sentia-me tão cansada que não tinha olhos para guiar dali para minha casa. Ia de táxi e aproveitava para passar por dois bancos que eram meus clientes e deixava as notas, que se chamavam contratas, ao segurança. Muitos vezes, diziam-me: o banco agora está fechado… às quatro da manhã, pedir para ir ao banco? Na altura, era mesmo físico, de manhã ir à bolsa e ter o cuidado de não falhar. Era um trabalho de muita atenção… porque, se em vez de comprar, vendia… era complicado.

 

Teve algum grande falhanço?

Não me recordo de ter tido um tropeção. Lembro-me de que, a seguir ao ‘boom’, houve um ‘crash’. Foi aquela história…

 

Quando o primeiro-ministro Cavaco Silva falou de se estar a vender gato por lebre… que ainda hoje não gosta de ouvir falar.

Detesto. O Prof. Cavaco Silva foi infeliz.

 

Custou a Cavaco Silva um voto para todo o sempre?

Ah. Bem… [não responde]. Mas, realmente, foi infeliz e a seguir veio o ‘crash’. Nesse tempo de estagnação, deu para pôr a casa em ordem.

Podiam ter caído nessa altura?

Foi um período difícil. Mas nós estamos habituados a travessias no deserto. Logo quando comecei, em 1981, foi uma travessia no deserto. Mas tendo por detrás a Casa Carregosa, fui mais uma vez privilegiada. Tinha estado ao balcão da Casa Carregosa e ao lado do meu pai. As transacções eram poucas e havia que pagar aluguer, água, luz, pelo menos um funcionário, chama-se um proposto, e eu comecei um pouco mais desafogada. Depois do ‘crash’, quando fomos fazer as limpezas, verificámos que tínhamos um saco de títulos encostado a um cantinho do cofre.

 

O que é que aconteceu?

Vendíamos quando tínhamos comprador e comprávamos porque tínhamos vendedor. Dessa vez, repetimos a mesma contrata e recebemos duas vezes do vendedor, quando só tínhamos um comprador. Aqueles ficaram ali. Felizmente, eram do Eng. Belmiro, que foi um homem fantástico. Resolveu o problema. Eu falo sempre deste episódio porque é nestas alturas que se conhecem os verdadeiros senhores e empresários. Ele não teve culpa nenhuma.

 

Fala muito de Belmiro de Azevedo, Américo Amorim, Jardim Gonçalves, que também esteve envolvido no banco...

Tenho pena do que aconteceu ao Eng. Jardim Gonçalves. Dizem que facilitou no final, que houve falta de transparência nos aumentos de capital, mas não se lembram do que ele fez de verdadeiramente extraordinário. Eu conheci-o de perto, esteve em Luanda na mesma altura que eu. São pessoas de bem. É a ideia que guardo.

 

A história julgará?

A história julgará. Mas a história já julgou que, quando ele fez o BCP, foi um ‘case study’ nos Estados Unidos, e nós nunca tivemos banco nenhum que fosse estudado nos Estados Unidos, como foi o caso. Bem sei que vínhamos daquela época de nacionalizações e de bancários com cabelos compridos, que tinham tirado as gravatas. Podemos dizer: neste contexto, qualquer um faz, mas não é assim tão fácil. Claro que há esse contexto mau e o BCP foi feito com meninos que tinham de andar de blazer...

 

E não entravam mulheres no banco.

Pelo menos, ficou a fama. Hoje tem imensas. Nunca perguntei ao Eng. Jardim Gonçalves, mas penso que o facto de ter apenas homens seria para corresponder mais à imagem exterior que ele procurava. Quando ia aos bancos nacionalizados, via-se aquelas pessoas ostensivamente mal vestidas, com cabelos compridos, sem gravata, e entrava no BCP e toda a gente era aprumada, tinha gravata e havia a preocupação da cerimónia e deferência para com os clientes; toda a gente começou a levar para lá o dinheiro e a querer ser tratada daquela forma. Naquele tempo, ainda se ia aos bancos, hoje já ninguém vai. Os períodos revolucionários são muito maus, trazem coisas positivas, há coisas que estavam mal e se põem bem, mas, no durante, no tal processo revolucionário em curso...

 

Onde é que estava no 25 Abril?

Estava a trabalhar com o meu pai.

 

E não tiveram medo da nacionalização da Casa Carregosa?

Não. Curiosamente, as casas de câmbio foram tratadas muito civilizadamente. Fecharam as casas de câmbio e não se teve de pagar indemnização, porque os funcionários, que eram empregados bancários, foram para a banca nacionalizada, e os donos não tiveram qualquer incómodo de fortuna pessoal. Será que não estava lá a minha estrelinha da sorte? Que a vida tem sido generosa comigo, isso tem.

 

É curioso, mais tarde, que acabe por transformar a corretora em banco em 2008 em pleno "subprime"… É, mais uma vez, sorte ou é ver a oportunidade do mercado em baixo?

Achámos que estava na altura, porque estavam a pedir capitais cada vez maiores e o nosso âmbito era limitado.

 

Como banco, não tem muitas exigências regulatórias?

Muitas. Não tem mesmo explicação. É por isso que digo que é estranho como é que no mercado tão regulado…

 

... se dão casos como BES?

Eu não queria falar, nem quero. Mas que é estranho, é.

 

Não me vai dizer porque acha que aconteceu o caso BES?

Eu não sei. Se um dia descobrir, gostava que me dissesse. Nós somos hiper-regulados.

 

Será que há mais exigência com os pequenos?

Não sei. O que sei é que as exigências, mesmo que sejam iguais, nos pequenos, sentem-se muito mais.

 


Chegou a dizer que a Casa Carregosa, na altura, a intimidava. Quando é que deixou de se intimidar?

Eu não digo que ela me intimidava, porque sempre vivi naquele ambiente e sabia que aquele ambiente era intimidante. Na Casa Carregosa, não entrava qualquer pessoa. Não por ter porteiro, porque os bancos também tinham, mas porque a Casa Carregosa era diferente. Antes do 25 de Abril, os bancos tinham porteiro, mas toda a gente entrava. Isso não acontecia na Casa Carregosa, porque as pessoas só iam lá se tivessem dinheiro. Eu sou de Vila do Conde, onde havia uma confeitaria belíssima, a Bom Doce, que povoou de bom as nossas infâncias e juventude. Ir lanchar ao Bom Doce normalmente era para os ricos, vinham tabuleiros que traziam muitos doces, pãezinhos, era natural que tudo fosse caro, mas só um bolo não era assim tão caro, já não me lembro quanto custava. Vila do Conde sempre foi uma terra de castas, as pessoas não se misturavam, mas qualquer pessoa podia ir comprar um bolo, mas não o faziam. Porque intimidava.

 

Há intocáveis?

O Presidente da República deveria ser intocável, enquanto investido nas suas funções.

 

Há elites em Portugal?

Se calhar, não se vê muito.

 

Não se confunde a elite com os ricos?

Elites, para mim, são sinónimo de muito saber. O Prof. Adriano Moreira é o grande sábio e é uma pessoa extraordinária, muito grande e muito simples. Devia haver mais como ele.

cotacao Tenho uma parte muito importante que é a de dar a conhecer o banco. Não sei se vai concordar comigo, mas nós somos um banco diferente. 

É daquelas pessoas que diz que a juventude está perdida?

Não. Tenho netos fabulosos e, como eles, vejo lá no banco gente tão boa. Tão esforçada. Não, de maneira nenhuma.

 

A juventude é mal tratada?

Nós, em Portugal, estamos a deixar-lhes poucas oportunidades. Mas eu tenho sempre fé.

 

É uma mulher de fé?

Sou. Muito.

 

Então essa sorte de que fala tanto…

É Deus. Eu acho. Tenho uma fé imensa. Eu incomodo muito mais Nosso Senhor para Lhe agradecer do que para Lhe pedir. Ele já dá tudo. Portanto, estou sempre a agradecer. Tenho pena que nem toda a gente agradeça tanto como eu, é preciso sermos gratos sem nos deixarmos parar. Temos de lutar sempre por mais.

 

É reconhecida na rua?

Vivi em Vila do Conde até aos 10 anos e lembro-me de sair e de as pessoas chamarem: ‘a menina Nuchinha’. Toda a gente me conhecia. Hoje é um reconhecimento diferente. Ali era só por gostarem de mim.

 

Hoje é por interesse?

Não. Não. Não sinto nada isso. Outros banqueiros podem sentir. Nisso, não me sinto nada banqueira...

 

Viaja muito. O que lhe falta conhecer?

Não conheço a Ásia e tenho sentimentos um bocadinho misturados. Custa-me muito estar no meio de gente que não veja para dentro. E eu já sou tão velha que na escola me falavam do perigo amarelo. Acho que nem sabia muito bem o que era. Também gostava de ir ao Vietname….

 

Como vê esta investida do capital chinês em Portugal?

O Prof. Adriano Moreira diz que o século XXI é um século sem bússola. Se calhar, nós temos uma bússola no século XXI: o dinheiro. Eles têm, compram. Como sou optimista, daqui a não sei quantos anos, os bancos na Côte d’Ivoire ou num sítio qualquer vão ser todos de capital português…

 

Há um tema que lhe perguntam sempre. Está cansada de falar sobre as mulheres na gestão das empresas?

Não me importo nada de falar, mas estou um bocadinho… Apesar daquelas características que estão cientificamente provadas e com essas diferenças que graças a Deus existem – senão seria uma maçadoria –, o ser humano é o ser humano. Deixamos de falar em biótipo e passamos a falar de fenótipo, o que tem importância são as envolventes, as condicionantes, os contextos, isso é que é importante. Nós estamos é mais habituadas a fazer cedências, sacrifícios e a dar provas. Os homens já não. Das coisas que me revoltava... por exemplo, casei civilmente e fiquei em casa dos meus pais porque o casamento que contava para mim era o religioso, e só quando casei religiosamente é que mudei para casa do meu marido. Neste interino, tive necessidade de sair do país e precisei que o meu marido dissesse num papel que concordava que eu fosse. Isto tem algum sentido? Nenhum! Eu era casada e ele não precisava de papel para sair e eu precisava? Isto é revoltante.

 

E lutou.

Claro. Toda a gente tem direitos e luta por eles. Tenho de dar provas de que sou igual, para não ter de pedir o tal papel e poder gerir a minha fortuna sem a entregar [ao marido], porque eu até podia casar com um imbecil…

 

Mas esse tempo já passou…

Já passou, mas eu vejo casos em que não passou muito… e o dinheiro é da família dela. Então, não é de lutar?

Como é que se luta contra isso?

Luta-se querendo ascender aos mesmos lugares, querendo estar nos mesmos sítios.

 

E por isso é embaixadora, também, da gestão no feminino.

Eu não queria que se considerassem as mulheres seres superiores, porque não são. Há uma superioridade que elas têm, que Deus lhes deu, que é poderem transmitir a vida.

 

É contra as quotas?

Não entendo que a CMVM e muitos organismos estejam sujeitos a estas directivas. Isso é erradíssimo.

 

O forçar a existência de mulheres nas administrações prova que há um atraso?

É passar um atestado de incompetência às mulheres. Mas se só se chega lá desta maneira, venham as quotas temporariamente. Daqui a uns tempos têm de acabar.

 

A Anabela Mota Ribeiro, que a entrevistou para o Negócios em 2009, e de quem gosta muito, fez-lhe uma pergunta que eu tenho de roubar. O que não é negociável?

A honra não deveria ser negociável. O amor, os afectos não podem ser negociáveis. Não me venha com aquela pergunta: mas, na realidade, não é?

 

Vou antes perguntar-lhe se alguma vez alguém quis comprar-lhe alguma dessas coisas.

Não. Eu também tenho vivido numa redoma e não tenho tido muitas más abordagens. Talvez…

 

Sorte?

Não sei se é sorte ou se eu contribuo para isso.

 

Já lhe quiseram comprar o banco?

Já. Mas isso é negociável. Havia um treinador do Sporting que dizia que todos os negócios são negociáveis. E eu acho que os negócios são negociáveis, ele tinha razão. Mas há coisas que são sagradas. Os nossos tempos maus mostram que, às vezes, as pessoas fazem negócios com coisas inegociáveis.

 

A família? A família está no topo?

É dali que vem todo o nosso bem-estar.

 

Quando olha para baixo na sua árvore genealógica, acha que está bem firmada?

Acho que sim. Vivemos muito a pensar uns nos outros.

 

Passa algum dia sem falar com as suas filhas?

Nunca. Para uma pessoa estar perfeitamente feliz, tem de estar não só muito bem consigo, mas também tem de saber que aqueles de quem gosta estão todos bem.

 

Também fala todos os dias com os netos?

Todos. E acompanho-os muito. [Conta com orgulho uma visita que fez com os netos à biblioteca joanina, com Carlos Fiolhais a cicerone, e a mensagem que a neta de 11 anos enviou ao professor, por iniciativa própria, a agradecer-lhe. "Não é de ficar babada?" Também conta como gosta de lhes dar a conhecer a música, o teatro, a pintura e o que isso lhes proporciona. "Isto vai ser a minha fortuna. Não tenho dinheiro para lhes deixar. Tenho isto"].

 

A rigidez é uma coisa familiar?

É uma luva de veludo, mas a mão é de ferro, para definir a fronteira. Até lá, é tudo de veludo. Como eles são muito bons, não precisam de chegar à parte que é de ferro.

 

É uma pessoa dura?

Sou muito dura, no sentido de querer ir até ao fim, mas nunca por maldade. Quando se tem uma organização, é preciso castigar se a pessoa não anda bem.

 

Ser boa gestora significa ter algum grau de dureza com empregados?

É preciso exigência. E tem de ser assim desde o princípio, para que as pessoas sintam que cada um dá o seu melhor. Agora, eu sei que há vidas muito difíceis. A minha foi sempre muito fácil…

 

É uma pessoa acessível para os trabalhadores do Carregosa?

Muito, Meu Deus. Não podia ser de outra maneira. A porta está sempre aberta. 

"África cola-se à pele"

Quando fez 70 anos, o neto mais velho ofereceu-lhe um livro de vida. A fotografia de capa (tirada nos primeiros anos de corretagem) tem uma frase manuscrita: "Tudo da Nucha", descoberta num envelope com recortes de jornais que falavam de Maria Cândida Rocha e Silva. O espólio tinha sido recolhido pela sua mãe, que era a força que garantia ao seu pai - o seu ídolo (a mãe até dizia que Maria Cândida tinha "paizite aguda") - a rede.

A família é agora a sua base (as suas duas filhas, os netos e os genros). Maria Cândida, ou a Nuchinha, como lhe chamavam em Vila do Conde, viveu em Angola. "África cola-se à pele". 

Luanda ficou lá longe. Foi aí muito feliz. E, por isso, não quer voltar. "Foram três anos muito bons." Tinha 20 anos, uma idade em que se quer mudar o mundo. Acabou por mudar Portugal, ao tornar-se a primeira corretora. A sua sociedade passou a banco em 2008. Américo Amorim foi um dos que a apoiaram.




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