Realismo mágico italiano

Um dos mais geniais criadores italianos do século XX, Dino Buzzati, regressa com um conjunto de contos que atravessam todas as fronteiras da imaginação.
Jornal de Negócios
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Fernando Sobral 16 de junho de 2018 às 17:00

Dino Buzzati entrou no labirinto que é a ficção literária e soube sair dele para nos contar histórias fantásticas e poderosas. O autor italiano foi, claramente, um criador iluminado para perceber um tempo e também os limites dos sonhos e pesadelos dos seres humanos. "Sessenta Contos", conjunto de pequenas ficções que ele próprio seleccionou entre tudo o que escreveu, é uma empolgante viagem à volta da sua criatividade.
Falecido em 1972, Buzzati tornou-se um autor obscuro. Algo incompreensível para quem foi um pintor, um poeta, um dramaturgo e um jornalista. Se ganhou estatuto com "O Deserto dos Tártaros", publicado em 1940, uma empolgante novela sobre um jovem soldado remetido para uma fronteira distante onde se espera o ataque dos bárbaros, o resto da sua obra é fascinante. Escreveu cinco novelas, muitos livros de banda desenhada, peças de teatro e, claro, colectâneas de contos.
Pelo meio, criou uma espécie de "realismo italiano", que de resto encontramos neste livro, no qual se cruzam cidades medievais, arquitecturas góticas, manipulações políticas ou criaturas desconhecidas. No conto "Sete Andares", um homem de negócios é admitido num hospital onde cada andar está reservado a um tipo de doentes, consoante a gravidade do caso. No primeiro piso, estão os que têm pouco tempo de vida. Tudo se transforma num pesadelo, já que o protagonista não tem condições para evitar o seu destino. Vivemos num mundo kafkiano, de erros, mal-entendidos e falsas promessas, que acabam por levá-lo ao piso dos que estão prestes a morrer.
Em "Os Sete Mensageiros", o filho de um senhor feudal pretende fixar as dimensões do reino do seu pai. As notícias da cidade são trazidas por sete mensageiros, que têm de jogar com a velocidade e o tempo. Buzzati cria então uma lógica surrealista. Atente-se: "Tu és a minha última ligação a eles, Domenico. O quinto mensageiro, Ettore, que se Deus quiser me alcançará daqui a um ano e oito meses, não poderá partir de novo porque já não teria tempo de regressar."
Em "Pânico no Scala" confronta-nos com o terror que temos pelo incerto e com a cobardia quando os seres humanos se deparam com o que para eles é incerto. E, esse medo, encontramo-lo novamente em "Os Ratos", sobre a suspeita de que numa casa de campo há ratos. Algo que começa a ser uma verdadeira paranóia.
Já em "As Muralhas de Anagoor", uma cidade enigmática e milenária onde um turista deseja chegar de qualquer maneira, há um imaginário que muitas vezes nos faz lembrar Jorge Luís Borges. Tudo isto mostra o imenso mundo alucinado de Buzzati, que às vezes vive entre a liberdade que a banda desenhada permite e o realismo mágico que convoca para a sua criatividade sem fronteiras. Este é um livro poderoso e muito rico, cheio de pistas para abrirmos novas fronteiras da imaginação. 

Um triângulo amoroso e misterioso

Este livro da espanhola Eugenia Rico ganhou uma série de prémios e compreende-se porquê: é uma ficção bem urdida à volta de uma relação estranha entre três personagens, Antonio, Ofélie e Jean Charles. Todos eles têm segredos que acabam por ir sendo desvendados ao longo das páginas, como se fosse uma forma de se irem libertando de culpas ocultas. Fechados, vão, ao longo do tempo, inventando a sua própria solidão. Uma narrativa muito poderosa.


Eugenia Rico

Os Amantes Tristes

Parsifal, 109 páginas, 2018

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A grande dramaturgia russa de Gógol

Nikolai Gógol é um dos símbolos maiores da literatura russa do século XIX e isso está demonstrado através da sua poderosa obra. Aqui juntam-se uma série de peças suas, a começar pela fundamental "O Casamento", um jogo sobre as vantagens e as desvantagens de tomar uma decisão, e que acaba por demonstrar as indecisões dos seres humanos. A personagem principal é um homem que começa por decidir uma coisa e que acaba por fazer outra. Notável.


Nikolai Gógol

O Casamento e outras peças

Assírio & Alvim, 254 páginas, 2018

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Olhares atentos sobre o mundo comum

João Luís Barreto Guimarães tem, ao longo dos anos, construído um território muito próprio dentro da poesia portuguesa. São acontecimentos do dia-a-dia que espoletam o seu olhar acutilante sobre os labirintos das vidas comuns. Há aqui uma simplicidade complexa sobre o nosso mundo de dúvidas e de sonhos. "Porque/se uma chave em concreto consegue abrir/a memória/acaso consegue uma ideia (tac!) abrir uma porta em concreto?" Um mundo nómada a descobrir.

João Luís Barreto Guimarães

Nómada

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Quetzal, 67 páginas, 2018


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