Tudo ao molho na vinha e no lagar
Certa vez, estava eu numa garrafeira em Lisboa quando entra um cliente esbaforido a perguntar se havia o tinto CV (Curriculum Vitae) - famoso e rateado vinho do Douro da Quinta Vale D. Maria. Compungido, o funcionário diz que "a última caixa é para aquele senhor que está ali a ver outras coisas". Oh!, o que ele foi dizer. O recém chegado cliente ficou em tal estado que não se coibiu de abordar o dono das garrafas para as suplicar. E entre o chorrilho de argumentos, termina com este: "o srº a quem se destinam estas garrafas está num estado de saúde tão débil que provavelmente será o último vinho que bebe". Fez-se silêncio na loja e toda a gente se vira expectante para o primeiro comprador, que, com cara de quem não acreditava na história (nem eu), remata assim: "leve lá as garrafas que eu acho que chego vivo às próximas colheitas".
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Convém, todavia, salientar que os CV (branco e tinto) criados com a orientação de Cristiano Van Zeller são, de facto, extraordinários, reveladores de uma cultura organizacional incomum no Douro moderno e feitos para viver em grande forma na garrafa.
O processo de modernização do Douro, que já leva umas três décadas, assentou na plantação exaustiva de meia dúzia da castas tintas. As eleitas foram a Touriga Nacional, a Touriga Franca, o Tinto Cão, a Tinta Roriz e a Tinta Barroca. E, fosse para fazer Porto ou DOC Douro, os produtores cingiram-se às cinco magníficas, abandonando inúmeras variedades que viviam no meio das vinhas velhas, supostamente problemáticas, irregulares e pouco competitivas. Mais. As vinhas novas passaram a ser instaladas por parcelas de casta.
Tanto tempo passado, começa-se a questionar a estratégia pelo facto dos vinhos do Douro estarem a seguir por um perfil demasiado linear. Quer dizer, levamos um tinto do Douro ao nariz e só temos de perceber se no lote há mais Touriga Nacional ou Touriga Franca. É curto e, quando a Touriga Nacional está mais presente, começa a ser enjoativo.
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Cristiano, a filha Francisca e a enóloga Joana Pinhão estiveram recentemente em Lisboa para apresentar as mais recentes colheitas e a nova marca Vale D.Maria VVV - Três Vales. No decorrer da prova, foi possível constatar que os vinhos com a chancela Vale do D. Maria, revelando a matriz do Douro, vão além do padrão "standard" dos frutos pretos e das flores, da extracção potente, da doçura, do álcool e tal, em particular na marca Quinta Vale D. Maria Vinha Francisca 2013 - um caso muito sério.
As tais práticas vitícolas e enológicas acima mencionadas traduzem-se no aumento considerável da riqueza de aromas e sabores dos vinhos, no arredondamento dos taninos e, claro, num aumento de prazer quando se lhes dá boa companhia à mesa.
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Explicado isto, diga-se então que a marca Vale D Maria VVV - Três Vales ocupará um posicionamento de preço entre a marca Rufo (entrada de gama) e os pesos pesados Vale D. Maria e CV, bem mais puxados em termos de preço. Feitos com uvas de quintas situadas em três vales (Torto, Pinhão e Douro), o branco vem com notas de barrica de fermentação, fruta nada enjoativa e a tal mineralidade que lhe dá alma. À mesa, um vinho guloso. O tinto é mais o padrão do Douro, mas fresco e com umas curiosas notas aromáticas a fazer lembrar romãs.
Termino a destacar o carácter aromático e desafiante do CV branco 2014 (há aqui tanta coisa a descobrir no copa) e a mendigar para que mais produtores sigam a estratégia vitícola e enológica da Quinta Vale D. Maria. Se toda a gente sabe que um grande vinho do Douro vem sempre com muitas castas, é só copiar os bons exemplos.
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