Vinhos Bem-aventurados os teimosos...

Bem-aventurados os teimosos...

… porque deles será o reino dos vinho. Durante uma manhã, na ilha do Pico, participámos numa prova irrepetível: 12 vinhos Czar – o licoroso de nível mundial que não leva um pingo de álcool no processo de fermentação e que resulta da teimosia genial de Fortunato Garcia.
Bem-aventurados os teimosos...
Edgardo Pacheco 04 de março de 2017 às 16:00
No universo do vinho, há provas padrão, provas giras e provas zaragateiras. As primeiras constituem 80% dos eventos e resumem-se à apresentação de novas colheitas com uma ementa desenhada para o efeito (são os produtores a fazer pela vida); as segundas realizam-se em locais improváveis, muito urbanos e "cool" (têm por função atrair os jornalistas fartos do tradicional almoço com o discurso do enólogo a dizer que o seu vinho é grandioso); e as terceiras são promovidas ora por produtores fora da caixa ora por jornalistas que, muito informalmente, se juntam à volta de uma mesa com garrafas para serem avaliadas em prova cega. Como se imagina, neste cenário, a discussão faz por vezes lembrar o ambiente da Assembleia da República. Embora mais civilizado e conclusivo, diga-se de passagem.

Qualquer uma das provas faz parte do mundo do vinho, mas, honestamente, não esconderei que a terceira tipologia de prova é incomensuravelmente mais rica. E, ainda por cima, se estivermos perante um produtor que tem a ousadia de produzir uma tipologia de vinhos que mais ninguém faz no mundo (as horas que tenho perdido em livros e na Internet para fazer esta afirmação) e que exige ouvir as opiniões críticas de quem prova os seus vinhos.... bom, eu diria que estamos na antecâmara do paraíso. E foi mais ou menos isso que me aconteceu recentemente, ao ter participado numa prova do vinho licoroso da ilha do Pico que leva, desde 1970, o nome de Czar. Durante uma manhã, um grupo de felizardos participou numa prova histórica, com 12 colheitas de um vinho único no mundo.

Vejamos. Vinhos doces há muitos. Cá dentro e lá fora. Com mais ou menos doçura ou com mais ou menos álcool, há estilos para todos os gostos. Porto, Madeira, Moscatel, Carcavelos, Licorosos do Pico em geral, Licorosos sem denominação de origem e abafados, é só escolher. Mas a diferença entre todos estes vinhos e o licoroso Czar, é que os primeiros resultam de um processo de fermentação que é interrompido com a adição de aguardente ou álcool e este último é o milagre da fermentação sem qualquer pinga de álcool externo. Ou seja, é um vinho que resulta da fermentação natural das uvas das castas Verdelho, Arinto dos Açores e Terrantez ao deus dará. Havendo muitas leveduras indígenas, o açúcar das uvas será mais consumido e teremos um vinho naturalmente mais seco e alcoólico. Não havendo tantas leveduras, o vinho fica obviamente mais doce. A natureza é que manda.
Imaginando que o leitor esteja à espera de saber que colheitas estão à venda, pois, fora de coleccionadores ou garrafeiras especializadas, poderemos encontrar com facilidade as colheitas de 2008 e 2009, aguardando-se a chegada do 2011.  Czar Superior 2008: €79, Czar Superior 2009: €47
Imaginando que o leitor esteja à espera de saber que colheitas estão à venda, pois, fora de coleccionadores ou garrafeiras especializadas, poderemos encontrar com facilidade as colheitas de 2008 e 2009, aguardando-se a chegada do 2011. Czar Superior 2008: €79, Czar Superior 2009: €47
A diferentes níveis, nada se assemelha a um vinho que tinha tradição nos pequenos produtores do Pico e que ganhou esta marca Czar pelo facto de o seu criador (José Duarte Garcia) ter tido acesso a informações que davam conta do sucesso dos vinhos licorosos naturais do Pico na corte do Nicolau II.

Hoje, quem continua a aventura do Czar é o filho Fortunato Garcia, que faz questão de manter-se fiel às ideias do pai. Se os antigos faziam vinhos licorosos naturais (sem a tal adição de álcool) e isso era reconhecido, por que razão se haveria de mudar de estratégia? Por facilitismo técnico e mercantilismo? Isso nunca.

E, na realidade, quando provamos colheitas de Czar dos anos 70 até à actualidade, só podemos concordar com o produtor, que é, já agora, professor de profissão e músico em várias bandas nas horas vagas.

Se em todos os vinhos sentimos notas salinas e minerais, podemos dizer que os vinhos mais recentes revelam mais fruta e os mais antigos aromas que nos remetem ora para uma farmácia antiga ora para uma loja de especiarias, todos com uma acidez e frescura que impressionam. Vinhos licorosos naturais misteriosos, desafiantes, provocadores, gastronómicos. Inigualáveis.

Imaginando que o leitor esteja à espera de saber que colheitas estão à venda, pois, fora de coleccionadores ou garrafeiras especializadas, poderemos encontrar com facilidade as colheitas de 2008 e 2009, aguardando-se a chegada do 2011.

Havendo possibilidades, creio que se deve comprar mais do que uma garrafa de cada colheita. Umas para abrir agora, outra para daqui por 10 anos. Pode ser que, nesta altura, o leitor enófilo venha a concluir que se ainda existem grandes vinhos portugueses é porque temos - como bem observou Luís Antunes, crítico da Revista de Vinhos, no debate alargado que se seguiu à prova no Pico - produtores que "misturam visão e genialidade com muita teimosia".

Quase apetece criar uma nova bem aventurança para os teimosos do vinho.





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