Para César de Jesus, vaccines director da HIPRA Human Health Division, o regresso da prevenção à agenda europeia não é uma moda, mas uma resposta inevitável ao contexto atual. “Nos últimos meses, temos assistido a uma pressão sobre os sistemas de saúde e, neste sentido, a prevenção deixou de ser uma opção para passar a ser uma necessidade estrutural.” Nesse quadro, defende que as vacinas assumem um papel central, não apenas do ponto de vista clínico, mas também económico e organizacional. Segundo o responsável da HIPRA, "as vacinas são uma das ferramentas mais eficazes nesse domínio, não apenas porque reduzem a incidência de doença grave, bem como o número de internamentos e mortalidade, mas também porque contribuem para uma gestão mais eficiente dos recursos disponíveis”. Ao evitar episódios agudos de doença, sublinha, “libertam capacidade no sistema de saúde e reduzem custos diretos e indiretos, nomeadamente associados à hospitalização, absentismo e perda de produtividade”.
Este impacto ganha ainda mais relevância num contexto de envelhecimento da população e aumento das doenças crónicas. Para César de Jesus, “torna se evidente que a sustentabilidade dos sistemas de saúde depende cada vez mais da capacidade de antecipar risco e prevenir doença”.
Integrar a vacinação como pilar das políticas públicas significa “passar de uma lógica reativa para uma abordagem preventiva, mais eficaz e mais sustentável a médio e longo prazo, garantindo equidade no acesso tanto na dimensão financeira como clínica”, explica.
Saúde é “segurança estratégica”
A pandemia da covid-19 veio também expor outro debate essencial: o da autonomia estratégica europeia. Para o vaccines director da HIPRA, “o contexto internacional recente veio reforçar uma ideia que já tinha sido evidenciada durante a pandemia: a saúde deve ser encarada também como uma questão de segurança estratégica”. A dependência externa em áreas críticas, como medicamentos e vacinas, deixou a Europa vulnerável. “As cadeias de abastecimento globais, que durante anos foram otimizadas para a eficiência, revelaram se frágeis quando sujeitas a disrupções.”
Ter capacidade própria no espaço dos 27 Estados-membros da União Europeia torna se fundamental. “Reforçar a autonomia europeia passa por garantir capacidade própria ao longo de toda a cadeia de valor, desde a investigação e desenvolvimento até à produção e distribuição.” O objetivo, reforça, não é substituir a cooperação global, mas “assegurar que a Europa dispõe de meios para responder de forma autónoma e rápida a crises de saúde pública”.
Primeira vacina 100% europeia: um marco
Foi precisamente nesse enquadramento que a HIPRA desenvolveu a primeira vacina covid-19 100% europeia. Para César de Jesus, o projeto “representou um marco relevante, não apenas para a HIPRA, mas para o ecossistema europeu de inovação em saúde”, ao demonstrar que “a Europa tem capacidade científica, tecnológica e industrial para desenvolver soluções inovadoras de forma autónoma”. Ter um ator europeu com capacidade de I&D e produção de ponta permite à Europa “negociar melhor, responder e adaptar se mais rápido sem depender de autorizações ou cadeias logísticas de países terceiros”, frisa o responsável. Internamente, o projeto marcou um ponto de viragem estratégico para a empresa, reforçando “a aposta na área da saúde humana” e consolidando o desenvolvimento de toda a cadeia de valor. A criação da HIPRA Human Health Portugal insere se nesse caminho e “reflete a confiança no potencial do país como parceiro relevante”.
Atenção às doenças respiratórias
Também na vacinação contra doenças respiratórias, defende uma mudança de paradigma. Embora tradicionalmente encarada como resposta sazonal, “a evolução do conhecimento científico e a análise dos dados mais recentes sugerem que essa abordagem pode não ser suficiente”. No caso da covid-19, lembra, a vacinação reduz de forma significativa a doença grave e a mortalidade, mas “a proteção conferida pode diminuir ao longo do tempo”, com picos de casos fora do período habitua, segundo dados da Direção-Geral de Saúde. Daí que “faça sentido começar a encarar a vacinação não apenas como uma resposta sazonal, mas como parte de uma estratégia contínua de proteção da saúde pública ao longo da vida”, defende.
Sobre Portugal, reconhece condições muito favoráveis para a investigação clínica, mas aponta entraves claros. Apesar da qualidade dos profissionais e centros de investigação, “este potencial ainda não se traduz plenamente numa vantagem competitiva”, devido à morosidade dos processos, à imprevisibilidade regulatória e ao acesso limitado a dados essenciais para investigação. Fatores que “condicionam a capacidade de atrair investimento e de integrar Portugal em projetos internacionais de maior escala”, alerta o vaccines director da HIPRA Human Health Division. Ultrapassar estes constrangimentos exige “um sistema mais ágil, coordenado e digitalizado” e uma redução efetiva do tempo entre a aprovação europeia e a disponibilização dos medicamentos no país, conclui. A sustentabilidade dos sistemas de saúde exige agir a tempo.