O presidente da MOBI.E refere que a infraestrutura de carregamento em Portugal tem acompanhado o aumento da procura. Nesta conversa, Luís Barroso fala da tecnologia desenvolvida pela MOBI.E, aponta a importância das parcerias e considera normal o facto de os veículos elétricos e híbridos já terem representado, em Portugal, mais de 60% das vendas de automóveis ligeiros de passageiros em 2025. Não obstante, não se deslumbra e sublinha que, no que toca à transição para a mobilidade elétrica, o nosso país ainda tem um longo caminho a percorrer.
De que forma a rede de abastecimento de veículos elétricos ligeiros em Portugal tem evoluído?
A rede nacional de carregamento tem registado um crescimento muito expressivo. No ano passado, a utilização aumentou cerca de 45% face a 2024, o número de utilizadores cresceu mais de 68% e a energia elétrica consumida subiu quase 57%. Estes indicadores traduzem-se, igualmente, num aumento da poupança de emissões de CO2 na ordem dos 60%. Este desempenho só é possível porque a infraestrutura tem acompanhado a procura.
Por outro lado, Portugal cumpre hoje plenamente o Regulamento Europeu de Infraestruturas para Combustíveis Alternativos (AFIR), situando-se cerca de 6% acima do critério de potência exigido. Isto demonstra a total adequação da nossa infraestrutura ao parque automóvel existente, segundo os mais rigorosos padrões europeus. Dispomos de uma das redes mais capilares e integradas da Europa, cobrindo todo o território e garantindo o acesso universal: o utilizador pode carregar o seu veículo tanto através de um contrato com um comercializador, como por meio do pagamento direto com cartão bancário, sem necessidade de qualquer vínculo prévio.
E como está a decorrer o desenvolvimento de infraestruturas para veículos pesados?
É uma prioridade estratégica. A eletrificação dos veículos pesados é bastante mais complexa do que a dos ligeiros, pois exige carregamentos de alta potência, o reforço substancial da rede elétrica e um planeamento logístico rigoroso. Falamos de um investimento elevado que obriga a uma grande racionalidade económica por parte de todos os envolvidos.
Estamos a trabalhar em estreita colaboração com operadores, municípios e entidades do setor da energia para preparar hubs específicos, nomeadamente em zonas industriais, plataformas logísticas e nos principais eixos rodoviários estruturantes. Temos a nosso favor o sucesso e a experiência adquirida com a estruturação da rede nacional de carregamento, o que nos confere uma base sólida de conhecimento que devemos saber aproveitar. Estou certo de que, muito em breve, começaremos a ver o desenvolvimento desta nova infraestrutura no terreno de forma bastante visível.
Tem havido desenvolvimento tecnológico de soluções e produtos na plataforma de gestão da rede nacional por parte da MOBI.E? E parcerias? Pode dar exemplos?
A tecnologia é, de facto, o coração da interoperabilidade. A MOBI.E desenvolveu a PGM (Plataforma de Gestão da Mobilidade), uma solução digital de vanguarda que transcende as plataformas de roaming tradicionais. O seu sucesso assenta em parcerias estratégicas: com os Prestadores de Serviços (CEME) e Operadores de Pontos de Carregamento (OPC), garantimos dados em tempo real para otimizar a sua atividade; com os Operadores de Redes de Distribuição (ORD), integramos a mobilidade no setor elétrico, assegurando que o contrato de energia do utilizador seja verdadeiramente “móvel”, funcionando em qualquer ponto, seja ele de acesso público ou privado.
Também com os municípios mantemos uma colaboração estreita, fornecendo informação essencial que facilita os seus processos de decisão para a evolução da infraestrutura nos territórios. Estabelecemos ainda acordos para projetos-piloto inovadores, como o “Ruas Elétricas”, que está atualmente em curso.
Toda esta rede de parcerias gera uma confiança fundamental: disponibilizamos informação em tempo real sobre a disponibilidade de toda a rede nacional, algo crucial para gerar confiança em todos os stakeholders e acelerar a adoção em massa.
Estas parcerias, verdadeiramente integradoras do ecossistema, permitem-nos evoluir tecnologicamente — seja a testar mecanismos de flexibilidade da rede, seja a trabalhar em soluções avançadas que planeamos há algum tempo, como o Autocharge e o Plug&Charge. O objetivo é que estas tecnologias, que tornam a experiência de carregamento quase invisível e automática, se tornem generalizadas em todo o país. Além disso, a PGM oferece uma transparência de informação única ao alimentar todas as aplicações de mobilidade elétrica. É uma capacidade rara noutros mercados e que estamos preparados para partilhar globalmente, exportando o nosso conhecimento e experiência, criando ao mesmo tempo valor para o país.
Que projetos tem a MOBI.E para este ano?
No quadro do novo regime jurídico, a MOBI.E assume agora o papel fundamental de Entidade Agregadora de Dados (EADME). Estamos a construir uma nova realidade que visa garantir que os dados produzidos por todos os operadores — quer operem na rede nacional, quer em redes privadas — cheguem ao Ponto de Acesso Nacional. A Portaria que operacionaliza a EADME foi publicada no passado dia 23 de janeiro, uma sexta-feira, e já no dia 26, o primeiro dia útil seguinte, a MOBI.E lançava o processo de consulta pública sobre a Regra Técnica que regulará as ligações entre os operadores e a EADME. Este é um compromisso com a competência e uma demonstração de eficiência que construímos no passado e estamos empenhados em manter.
Este reconhecimento tem sido validado externamente de forma muito gratificante. Só no ano passado, fomos distinguidos nos Innovation & Excellence Awards e nos Automotive Awards 2025, ambos no Reino Unido. Recebemos também uma menção honrosa no Prémio de Sustentabilidade, uma iniciativa do Jornal de Negócios com a Deloitte, e fomos integrados como caso de estudo na edição portuguesa do manual de Philip Kotler, amplamente considerado o pai do marketing moderno.
Para 2026, o nosso foco será assegurar uma transição tranquila entre regimes jurídicos, mantendo o nível de resposta que os nossos parceiros exigem num mercado em acelerada evolução tecnológica. Paralelamente, apostamos na internacionalização. Olhamos com particular interesse para Espanha — um mercado com um potencial imenso, mas com metade das nossas quotas de mercado. Queremos levar a nossa experiência única para apoiar a construção de um mercado europeu mais integrado e eficiente, mas também colaborar na criação de soluções interoperáveis em regiões que iniciam agora os seus processos, como a América Latina. Esta estratégia permite-nos diversificar fontes de receita, garantindo o nosso equilíbrio económico-financeiro num contexto de mudança de funções, e reforçar o papel de Portugal como um referente internacional incontornável neste setor.
“Honestamente, não surpreende”
Luís Barroso não estranhou o facto de, no ano passado, terem sido vendidos 52.256 veículos 100% elétricos novos (dados da ACAP), o que significou um aumento de 25,1% nos ligeiros de passageiros, em comparação com 2024. “É um dado extremamente positivo, mas, honestamente, não surpreende”, começa por afirmar o presidente da MOBI.E, explicando: “Quem acompanha o setor por dentro sabe que Portugal tem traçado um caminho de liderança na Europa, com crescimentos sólidos e constantes. O ano de 2025 foi mais um marco histórico neste percurso: passámos a vender, mensalmente e de forma consistente, mais veículos totalmente elétricos do que a gasolina.”
O responsável da MOBI.E diz que é um êxito que se deve celebrar, mas “mantendo o realismo de quem sabe que ainda há um longo caminho a percorrer”. “Temos de estar atentos aos riscos e manter o foco para que o país continue a ser este caso de estudo internacional em matéria de mobilidade”, salienta.
Sobre as vendas de os elétricos puros e híbridos serem já superiores às dos veículos que têm motores a combustão, é um sinal de que Portugal está, sem dúvida, na linha da frente da transição energética no setor automóvel. Luís Barroso conta que, segundo a Associação Europeia dos Fabricantes Automóveis, “a percentagem de registos de automóveis eletrificados em Portugal em 2025 foi de 38,4%, sendo superior em 11,6 p.p. à média da UE, dados que puseram o país na sétima posição do ranking europeu”.
Ou seja, mais do que uma moda passageira, está a assistir-se a uma mudança estrutural. Para Luís Barroso, o consumidor português está hoje mais informado, recetivo e confiante nesta tecnologia. “Aquela ansiedade da autonomia, que sentíamos quando as baterias tinham menor capacidade e a rede era escassa, está a dissipar-se, precisamente porque a infraestrutura de carregamento não só cresceu, como tem disponibilizado postos de potências cada vez mais elevadas, acompanhando a evolução da própria procura”, garante. Este sucesso é o resultado de um esforço coletivo entre políticas públicas e investimento privado, no qual a MOBI.E “tem desempenhado um papel central enquanto facilitadora, garantindo que todas as peças deste puzzle encaixam com eficácia”.
Novo regime transfere competências para o privado
Os incentivos governamentais que o Governo atribui aos portugueses para adquirirem veículos elétricos são alvo de críticas recorrentes, com diferentes associações a considerarem os mesmos insuficientes. No que toca a Luís Barroso, afirma que os incentivos “têm sido peças-chave na democratização do acesso à mobilidade elétrica, quer no apoio à compra do veículo, quer nas facilidades criadas ao nível do carregamento e do estacionamento”. O presidente da MOBI.E diz que o Governo tem reforçado estes apoios, o que constitui um sinal positivo e de confiança para o mercado. Também alguns municípios têm assumido um papel cada vez mais dinamizador neste processo. “No entanto, considero que o passo seguinte para acelerar a transição não passa apenas por subsídios diretos, mas, sim, por tornar o mercado cada vez mais vivo, competitivo e focado nas reais necessidades do utilizador”, sublinha.
Questionado de que forma, Luís Barroso responde que o novo Regime Jurídico da Mobilidade Elétrica (RJME), em vigor desde agosto de 2025, “traz consigo o desafio da adaptação a um paradigma radicalmente diferente”. “Até aqui, Portugal viveu uma realidade de interoperabilidade total assegurada pelo Estado — o conceito de ‘multibanco’ da mobilidade que todos conhecemos e valorizamos. Com o novo regime, essa competência transfere-se para o setor privado. Passarão a ser os próprios operadores a definir que nível de interoperabilidade pretendem oferecer, construindo soluções através de acordos estabelecidos entre si. É um processo novo, para o qual o país não tem histórico, e que exigirá de todos um esforço redobrado para garantir que o utilizador não perca a facilidade de acesso e a universalidade que teve até agora”, realça.
Paralelamente, tem de se manter o ritmo de crescimento da infraestrutura, tanto em potência como em capilaridade territorial, de forma a não se perder a coesão territorial já alcançada. "Finalmente, é crucial continuar a investir na literacia: precisamos de normalizar conceitos como o carregamento ad hoc, as potências ideais para cada veículo e os custos reais envolvidos. A transparência da informação é, em última análise, o que dita a velocidade da decisão de compra por parte dos cidadãos", explica.