Se dúvidas havia de que os portugueses estão cada vez mais rendidos aos veículos movidos a energias alternativas, sendo de destacar os elétricos e os híbridos, estas foram desfeitas (novamente…) com os dados apresentados pela Associação Automóvel de Portugal – ACAP, referentes ao ano passado. Em 2025, foram vendidos 52.256 carros 100% elétricos novos, representando um crescimento de 25,1% face a 2024. Quando se somam os 100% elétricos aos híbridos constata-se que foram matriculados, durante todo o ano passado, 136.539 ligeiros de passageiros eletrificados, um aumento de 29,9% face a 2024. O que significa que elétricos e híbridos representaram mais de 60% das vendas de automóveis ligeiros de passageiros em 2025 no nosso país.
Estes números não surpreendem Helder Pedro, secretário-geral da ACAP, mas antes confirmam “uma tendência que se tem vindo a consolidar”: “A crescente oferta de veículos elétricos, aliada à maturação da tecnologia e ao aumento da confiança do consumidor, tem estimulado a procura.” Também uma “mudança progressiva nos padrões de consumo e uma maior consciencialização ambiental por parte dos portugueses” justificam estes valores, que estão em linha com a média europeia. Contudo, importa sublinhar que “este progresso não é homogéneo e continua a ser impulsionado, em grande medida, pelas frotas empresariais, que beneficiam de incentivos fiscais específicos”, conta o responsável da ACAP.
Apesar de este crescimento ser indiscutivelmente positivo, Helder Pedro recorda igualmente que não deve ocultar uma realidade estrutural: “Portugal continua a apresentar um parque automóvel envelhecido, cuja renovação carece de uma estratégia robusta, estável e previsível.” É-nos explicado que a idade média dos automóveis ligeiros de passageiros em circulação ultrapassa os 14 anos, enquanto nos veículos de mercadorias supera os 16 anos, tendência agravada na última década. Em 2025, os veículos enviados para abate tinham, em média, 25 anos, valor significativamente superior aos 16,6 anos registados em 2009, no auge do anterior programa de incentivo ao abate. “Esta realidade evidencia a urgência de medidas eficazes que acelerem a substituição dos veículos mais antigos por soluções mais eficientes e ambientalmente sustentáveis”, alerta o secretário-geral da ACAP.
Helder Pedro pede medidas eficazes, as quais não parecem contemplar os incentivos governamentais, que considera insuficientes para levar mais portugueses a adquirir veículos elétricos. “Não, os incentivos governamentais disponíveis continuam a ser manifestamente insuficientes para levar mais portugueses a optar por veículos elétricos. O apoio direto à aquisição tem um valor limitado, esgota-se rapidamente e não está inserido numa estratégia continuada e previsível, o que dificulta a tomada de decisão por parte dos consumidores”, avisa.
Para que a mobilidade elétrica se afirme como uma solução acessível a um maior número de cidadãos, o secretário-geral da ACAP diz ser necessário implementar medidas mais robustas, estáveis e com verdadeiro alcance. “É necessária a criação de um novo programa de incentivo à renovação do parque automóvel, com critérios claros e abrangentes. Este programa deve contemplar a aquisição de veículos ligeiros elétricos, híbridos ou com baixas emissões, com primeira matrícula em Portugal, adquiridos por qualquer modalidade de financiamento. Relativamente ao abate, devem ser elegíveis veículos a combustão com mais de dez anos, com um processo simples e isento de encargos para os proprietários”, explica.
Helder Pedro acrescenta que “o incentivo poderá atingir os 5.000 euros por viatura 100% elétrica, abrangendo até 40.000 veículos”. “Esta medida permitiria poupar cerca de 3,2 milhões de litros de combustível por ano e reduzir mais de 10.800 toneladas de CO2 anuais”, assegura.
Acabar com a assimetria entre empresas e particulares
No que diz respeito aos incentivos oferecidos, Helder Pedro concorda que as empresas estão em vantagem em relação aos particulares – “de facto, existe uma assimetria evidente entre empresas e particulares no acesso a benefícios fiscais”, constata. Para incentivar os particulares, a ACAP defende “a criação de um mecanismo de benefício fiscal em sede de IRS, à semelhança do que já sucede em países como Espanha”. Trata-se de uma dedução fiscal associada à aquisição de veículos com algum grau de eletrificação que permitiria reduzir o esforço financeiro das famílias e tornar esta solução mais competitiva face às motorizações convencionais. “Esta medida seria essencial para garantir maior justiça fiscal e acelerar a renovação do parque automóvel em Portugal”, sublinha.
Quanto a outras medidas, a ACAP avança que para se promover a mobilidade sustentável em Portugal é preciso “uma visão estratégica clara e ações concertadas”. Segundo Helder Pedro, não basta impulsionar a aquisição de veículos elétricos, é imperativo garantir que as condições estruturais acompanham essa evolução. E uma das falhas mais evidentes reside na expansão da rede de carregamento, que não está a acompanhar o crescimento do mercado de veículos elétricos.
“Temos assistido a uma evolução muito positiva na penetração dos automóveis elétricos no mercado. No entanto, esta dinâmica não está a ser acompanhada por um crescimento proporcional da infraestrutura de carregamento, o que cria constrangimentos crescentes e uma perceção de insegurança por parte dos utilizadores”, assegura o secretário-geral da ACAP, prosseguindo: “Este desfasamento entre a evolução do mercado e a resposta da infraestrutura compromete a confiança do consumidor e constitui um obstáculo direto à massificação da mobilidade elétrica. A expansão da rede tem de deixar de ser vista como um mero complemento e passar a ser encarada como um eixo estruturante da política de mobilidade.”
Helder Pedro não termina sem destacar que é ainda essencial garantir estabilidade nas políticas públicas, implementar um programa eficaz de renovação do parque automóvel, reforçar a capacidade industrial e tecnológica do setor e investir na educação do consumidor. “É, naturalmente, fundamental que continue a existir um sistema que seja de fácil utilização para os utilizadores”, conclui.