pixel

Negócios: Cotações, Mercados, Economia, Empresas

Processo de eletrificação não está em causa

Decisão da Comissão Europeia de abandonar a meta de ter em 2035 apenas carros elétricos ou a hidrogénio, fixando-a nos 90%, não significa marcha atrás na transição para a mobilidade sustentável.

12:36
Eletrificação mantém-se
Eletrificação mantém-se GettyImages

A tendência de transição para os veículos eletrificados em Portugal é indesmentível, como o demonstram os números do ano passado e já os do mês de janeiro. Na Europa e no mundo, o cenário é idêntico. Não obstante, em dezembro, a Comissão Europeia abandonou a meta de ter em 2035 apenas carros elétricos ou a hidrogénio, fixando-a nos 90%. Ou seja, os carros de combustão vão poder continuar a ser vendidos na Europa a partir de 2035, embora com a supracitada limitação. Helder Pedro, secretário-geral da ACAP, explica que a decisão da Comissão Europeia “introduz um elemento importante de previsibilidade para os construtores, mas não abdica de dar um sinal claro de continuidade do processo de eletrificação”. Helder Pedro refere que, ao fixar uma meta de redução de 90% nas emissões a partir de 2035, e ao permitir que os 10% remanescentes sejam compensados através de soluções como o aço de baixo carbono produzido na União Europeia, ou os e-fuels, “se está a reforçar o princípio da neutralidade tecnológica, algo que a ACAP tem defendido desde 2019”.  Todavia, ao dia de hoje, ressalva, não sabe se esta janela de oportunidade é suficiente face à previsão da evolução do mercado até 2035.

“Aliás, a nossa preocupação prende-se, no imediato, ainda com o cumprimento das metas de 2025 e com as de 2030. É sabido que, se não forem cumpridas, os construtores terão de pagar pesadas multas. O atual mecanismo de suavização de três anos que foi definido pela Comissão revela-se, sobretudo ao nível dos comerciais ligeiros, claramente insuficiente. Por este motivo, a ACAP já pediu ao Governo português para defender em Bruxelas um alargamento da média de três anos (2025-2027) para cinco anos (2025-2029)”, informa o secretário-geral da Associação.

Luís Barroso, presidente da MOBI.E, olha para esta decisão como “um sinal de equilíbrio”. “A transição é inevitável, mas deve ser feita com realismo. A União Europeia está a reconhecer que cada Estado-membro tem a sua própria realidade industrial e social. O setor automóvel é um pilar fundamental da economia europeia e a verdade é que a indústria do continente não soube antecipar esta transformação, vendo-se agora na contingência de ter de recuperar o tempo perdido”, conta. Além do investimento necessário na infraestrutura de carregamento, Luís Barroso avisa que é necessário dar espaço para que a indústria automóvel europeia recupere do atraso e, também, para que a consciência dos cidadãos mude. “Carregar um veículo é uma experiência muito distinta de abastecer com combustível: exige uma nova mentalidade que necessita de tempo para que a massificação aconteça”, relembra.

Sobre este tema, José Domingos, Área Sales manager da ABB, diz que “os fabricantes de carros elétricos europeus e americanos ainda não conseguem competir com os fabricantes asiáticos de carros elétricos”. “Na minha opinião, a Comissão Europeia, com esta medida, está a dar mais tempo aos fabricantes europeus para se tornarem mais competitivos”, afirma.

Já está a acontecer

Quanto a Pedro Moreira da Silva, CEO da i-charging, garante que a eletrificação já não é uma questão de “se”, mas de “quando” e “como”. E a resposta a “quando” é: já está a acontecer. Independentemente de metas regulamentares específicas, as pressões para a eletrificação são múltiplas e convergentes: regulamentação ambiental, exigências de clientes e investidores, vantagens económicas do TCO a médio prazo, e a crescente restrição de acesso a zonas urbanas para veículos de combustão.

O responsável da i-charging recorda que “as Zonas de Emissões Reduzidas (ZER) estão a expandir-se rapidamente nas grandes cidades europeias, restringindo ou mesmo proibindo o acesso de veículos de combustão aos centros urbanos”. Para uma empresa de logística ou distribuição urbana, isto não é uma questão de “quando eletrificar”, mas sim “como eletrificar já”.

Pedro Moreira da Silva assegura que a meta de 90% continua a manter “pressão suficiente” para acelerar o investimento em infraestrutura e desenvolvimento tecnológico. “Permite alguma flexibilidade para casos de uso específicos em que a eletrificação ainda é desafiante, enquanto direciona claramente a indústria para a transição”. O importante, e isto é crítico – ressalva –, é que a indústria, os operadores e os governos “continuem a desenvolver e implementar soluções que tornem a transição não apenas possível, mas desejável”. “E isso significa infraestrutura fiável, soluções adequadas a cada caso de uso, e suporte completo ao longo da jornada de eletrificação”, informa.

Equilíbrio entre o ambiente e o realismo operacional

Por sua vez, David Carlos, diretor-geral da MAN, refere que a revisão da meta para 2035 mostra ”um esforço de equilíbrio entre ambição ambiental e realismo operacional”. “A transição para a mobilidade elétrica é inevitável e continuará a acelerar, mas é importante reconhecer que diferentes setores têm ritmos distintos de adaptação. Manter uma margem para tecnologias complementares, como combustíveis renováveis, pode ajudar na transição, desde que não comprometa o objetivo central: reduzir emissões e garantir um setor dos transportes mais sustentável”, recorda.

 

Mais notícias