O UpHill Summit 2026, conferência organizada pela UpHill Health sob o tema “Clinical Automation at Scale”, reuniu em Lisboa líderes hospitalares, autoridades de saúde, clínicos e parceiros tecnológicos europeus para discutir um dos maiores desafios atuais da saúde: como responder ao aumento contínuo da procura num contexto de falta de profissionais e crescente pressão sobre os sistemas. Ao longo do encontro, a discussão centrou-se na forma como a automação clínica e a inteligência artificial podem ajudar os hospitais e as organizações de saúde a ganharem capacidade de resposta, eficiência e sustentabilidade, mas também nos riscos de implementar tecnologia sem impacto real no terreno.
A abrir a conferência esteve Pedro Pita Barros, professor na NOVA School of Business and Economics e uma das vozes mais influentes da economia da saúde em Portugal e na Europa. Com clareza, o economista traçou o retrato de sistemas de saúde cada vez mais pressionados pela escassez de recursos humanos, pelos tempos de espera e pela dificuldade em acompanhar as necessidades das populações, deixando ao mesmo tempo a ideia de que a Inteligência Artificial (IA) poderá não substituir profissionais, mas vai inevitavelmente transformar a forma como os cuidados de saúde são organizados e prestados.
A questão que lançou à sala parecia simples, mas mostrou uma das maiores fragilidades dos sistemas de saúde atuais: porque é que, apesar do investimento contínuo ao longo das últimas décadas, os cidadãos continuam insatisfeitos com os cuidados que recebem?
No decorrer da intervenção, Pedro Pita Barros cruzou dados da OCDE sobre despesa em saúde, tempos de espera e experiência dos doentes para mostrar uma pressão crescente sobre os sistemas europeus. “A despesa tem vindo a aumentar, mas a satisfação da população não aumentou”, afirmou. O professor explicou que durante anos, a resposta foi quase sempre a mesma: investir mais, seja em equipamentos, hospitais, tecnologia e profissionais. Mas, segundo ele há limites que o dinheiro, por si só, não resolve. “A saúde continua a ser um setor extremamente intensivo em trabalho humano e o número de doentes que um médico consegue observar hoje não é muito diferente do que conseguia há 20 anos”, explicou Pedro Pita Barros
A verdade é que a pressão deixou de estar apenas do lado financeiro, para passar a estar agora do lado dos recursos humanos. Os profissionais de saúde tornaram-se escassos, o mercado internacionalizou-se e a força de trabalho está a envelhecer a um ritmo que os sistemas não conseguem compensar. "A escassez de profissionais não existe apenas em termos globais, há também um problema de distribuição dentro dos países", sublinhou, referindo a concentração geográfica de médicos em determinadas regiões e as carências severas que persistem noutras. Portugal não é exceção.
A IA ao serviço da saúde
Foi com este contexto bem estabelecido que Pita Barros chegou à questão da inteligência artificial e foi aqui que a sua intervenção ganhou ainda mais consistência. O economista rejeitou tanto o entusiasmo acrítico como o ceticismo fácil, defendendo uma leitura rigorosa do que a IA pode e não pode fazer nos sistemas de saúde.
A tese central foi a de que a IA não altera a dimensão física dos cuidados, mas muda profundamente a forma como a informação é processada e como o conhecimento pode ser utilizado. "Não se trata apenas de organizar melhor os ficheiros, trata-se de dar melhores ferramentas aos profissionais, utilizando informação que já existe", destacou o especialista. E isso, disse, é qualitativamente diferente do que a tecnologia fazia até aqui.
Na prática, Pedro Pita Barros identificou um conjunto de transformações que a IA pode concretizar, como a automação de tarefas administrativas e repetitivas, a redução de erros, a melhoria do planeamento de recursos, a agregação e a síntese rápida de registos clínicos, de exames e de resultados laboratoriais. E, talvez mais importante, a criação de novos serviços centrados no doente, como a triagem digital, a monitorização remota, a prevenção e a gestão contínua de doenças crónicas, que podem deslocar parte da carga dos sistemas tradicionais e aumentar a autonomia dos próprios doentes. Mas o professor não cedeu à tentação do otimismo fácil. Admitiu que "ainda não existe evidência sólida sobre os efeitos reais da IA à escala dos sistemas de saúde”. E distinguiu dois modelos de adoção com implicações muito diferentes: a IA integrada internamente pelos prestadores de cuidados, em que as organizações podem decidir autonomamente quando e como implementar, com maior velocidade; e a IA integrada diretamente em serviços prestados à população, em que a adoção é necessariamente mais lenta porque exige a confiança simultânea de cidadãos, profissionais e de investidores.
A última parte da intervenção de Pedro Pita Barros abordou a questão da regulação e foi aqui que o economista mostrou a sua visão mais estratégica. A confiança, disse, “é infraestrutura”. É a condição sem a qual nenhuma tecnologia de saúde pode funcionar à escala. Mas a regulação tem os seus próprios riscos. "Regulamentar demasiado cedo tecnologias ainda em evolução pode acabar por impor soluções inferiores ou limitar inovação futura", alertou.