Setor da defesa português vê oportunidades nos EUA e Médio Oriente
Os Estados Unidos e o Médio Oriente estão a afirmar-se como mercados estratégicos para empresas portuguesas de defesa, num contexto de crescente procura global e expansão internacional do setor, segundo o presidente do AED Cluster.
Em entrevista à Lusa, antes do acordo de cessar fogo entre os EUA, Israel e o Irão, José Neves admite um reforço da presença internacional, sublinhando que há empresas portuguesas a expandir operações para os Estados Unidos e destacando o "grande impacto" das iniciativas, como feiras, no Médio Oriente, onde empresas nacionais têm assegurado novos contratos.
PUB
"Não posso dar muitos detalhes, mas tenho conhecimento de algumas empresas portuguesas que estão a expandir operações para os Estados Unidos", revelou o responsável do cluster que integra cerca de 180 entidades entre empresas, universidades e centros de investigação das áreas da aeronáutica, espaço e defesa (AED).
José Neves sublinhou que se trata de um mercado "muito aberto e interessante", com "contratos grandes", o que tem levado "muitas vezes as empresas a falar entre elas" para avaliarem a necessidade de fazer "uma 'joint venture' entre empresas portuguesas e empresas americanas".
Apesar do potencial externo, o responsável defende que a atual conjuntura geopolítica, como o conflito no Médio Oriente, está sobretudo a acelerar uma transformação estrutural do setor, marcada por uma maior aposta em tecnologia e inovação.
PUB
A curto prazo destaca o desafio da guerra no Médio Oriente, com alguns equipamentos europeus a serem desviados da Ucrânia para outros conflitos. "Mas a médio prazo isto pode abrir oportunidades para as empresas produzirem não só para a Europa, mas também para mercados emergentes noutras regiões do globo", explicou.
"A guerra cada vez é menos feita por grandes plataformas e é cada vez mais feita por pequenas plataformas com desenvolvimentos muito rápidos que se adaptam todos os dias", afirmou, apontando para um novo paradigma assente em drones, guerra eletrónica e capacidade de adaptação.
Neste contexto, considera que Portugal está bem posicionado para aproveitar esta mudança, já que "as empresas portuguesas têm tido essa capacidade" de responder rapidamente a novas necessidades no terreno.
PUB
O responsável destaca ainda o conceito de "new defence", nova orientação estratégica e legislativa, baseado em empresas mais ágeis e inovadoras, que conseguem acompanhar ciclos de desenvolvimento cada vez mais curtos.
"As mudanças que se fazem nos drones [...] são a cada duas semanas, não é a cada dois anos", exemplificou.
José Neves sublinha que esta evolução favorece países com empresas mais flexíveis, como Portugal, num contexto em que a Europa procura reforçar a sua autonomia na área da defesa.
PUB
"Essa nova tendência [...] encaixa no perfil e no ADN das empresas portuguesas", afirmou, defendendo que a capacidade de inovação rápida pode ser uma vantagem competitiva no mercado internacional.
Além da tecnologia, José Neves identifica os recursos humanos como um dos principais desafios para o crescimento do setor, numa altura em que a procura por talento qualificado aumenta em toda a Europa.
"O desafio não é contratar, é reter", afirmou, explicando que os trabalhadores ganham competências altamente valorizadas e tornam-se atrativos para outros mercados com salários mais elevados.
PUB
Ainda assim, sublinha que Portugal tem conseguido atrair talento graças à combinação entre projetos inovadores e oportunidades de desenvolvimento. "Desenvolver drones, satélites, aeronaves [...] são desafios enormes", disse.
O responsável enquadra ainda esta evolução num esforço europeu para reforçar a capacidade produtiva no setor da defesa, após décadas de dependência externa, nomeadamente dos EUA.
"Não é de um dia para o outro [...] que se consegue revolucionar", afirmou, sublinhando que o reforço da produção e da qualificação de recursos humanos exigirá vários anos.
PUB
Para o presidente do AED Cluster, esta transformação do setor, aliada à crescente procura internacional, cria uma oportunidade para reforçar o posicionamento de Portugal na indústria global de defesa.
Saber mais sobre...
Saber mais Empresa Empresa de Mudanças Empresas Mercados emergentes Médio Oriente Estados Unidos Portugal José Neves EuropaMais lidas
O Negócios recomenda