Europa acelera plano de contingência para NATO sem Estados Unidos

Apoio de Berlim estará a dar maior tração ao plano. Depois de ameaças à Gronelândia e agora, com desentendimentos em relação ao papel da NATO no Irão, líderes do Velho Continente querem integrar mais europeus nas funções de alto comando da aliança e complementar os recursos militares dos EUA com os europeus.
Mark Rutte (à direita), líder da NATO, com Donald Trump, Presidente dos EUA.
Alex Brandon / AP
João Duarte Fernandes 15 de Abril de 2026 às 11:43

Um plano alternativo para garantir que a Europa se consegue defender utilizando as estruturas militares existentes da NATO, caso a ameaça de Donald Trump de retirar os Estados Unidos (EUA) da aliança atlântica se concretize, está a ganhar tração após ter obtido o apoio da Alemanha.

Segundo informação avançada por responsáveis que estão a trabalhar nestes planos ao The Wall Street Journal (WSJ), o objetivo será integrar mais europeus nas funções de alto comando e controlo da aliança e complementar os recursos militares dos EUA com os europeus. Embora a iniciativa europeia represente uma mudança radical de mentalidade, concretizar essa ambição será difícil. O Comandante Supremo das Forças Aliadas na Europa, por exemplo, é sempre um americano, e as autoridades do país afirmaram que não têm qualquer intenção de ceder esse cargo.

PUB

As discussões — que estarão a avançar informalmente através de reuniões paralelas e jantares de trabalho na NATO e arredores — não pretendem rivalizar com a atual aliança, sendo que a análise destes planos arrancou já no ano passado, dada a ansiedade europeia quanto à fiabilidade dos EUA enquanto parceiro e aliado do Velho Continente. Aceleraram depois de o Presidente norte-americano ter ameaçado , ganhando agora maior tração dada a recusa da

No fundo, diz o WSJ, uma reviravolta política em Berlim está a impulsionar este movimento. Durante décadas, a Alemanha resistiu aos apelos de uma maior soberania europeia em matéria de defesa. Mas a situação está a alterar-se sob a liderança do chanceler alemão, Friedrich Merz, devido a preocupações quanto à posição dos EUA como aliado durante a presidência de Trump.

Anteriormente, alemães e outros europeus temiam que uma liderança europeia no seio da NATO pudesse oferecer aos EUA uma desculpa para reduzir o seu papel de garante da defesa na região.

PUB

No entanto, no final do ano passado, Merz começou a reavaliar essa visão depois de concluir que Trump estaria disposto a abandonar a Ucrânia, segundo relatos de pessoas familiarizadas com o assunto ao WSJ. O chanceler germânico estava preocupado com o facto de Trump estar a confundir vítima e agressor na guerra na Ucrânia, e de já não existirem valores claros a orientar a política dos EUA na NATO, resumiram as mesmas fontes.

A mudança de posição de Berlim abriu caminho para um acordo mais alargado entre outros países, incluindo o Reino Unido, a França, a Polónia, os países nórdicos e o Canadá, que agora olham para este plano de contingência como uma “coligação de [países] voluntários" [coalition of the willing] no seio da NATO, segundo fontes oficiais envolvidas nas discussões.

A transferência do fardo dos EUA para a Europa está em curso e irá continuar. Alexander Stubb, Presidente da Finlândia

Apesar dos planos estarem em movimento, o desafio é significativo, já que toda a estrutura da NATO assenta, sobretudo, na liderança norte-americana em quase todos os níveis, desde a logística e os serviços de informação até ao comando militar de topo.

Os europeus estão agora a tentar assumir uma maior parte dessas responsabilidades, algo que Trump tem há muito vindo a exigir. Nesta medida, Mark Rutte, secretário-geral da NATO, disse recentemente que a aliança será “mais liderada pela Europa”.

A diferença agora é que os europeus estão a tomar medidas por iniciativa própria, devido à crescente hostilidade de Trump, e não como resultado de pressões dos EUA. Nos últimos dias, Trump , acrescentando, em referência ao presidente russo, que “Putin também sabe disso”.

PUB

O Presidente da Finlândia, Alexander Stubb - um dos líderes europeus envolvidos neste plano de dar à Europa uma maior soberania e responsabilidade dentro da estrutura da NATO -, afirmou, citado pelo jornal norte-americano, que “a transferência do fardo dos EUA para a Europa está em curso e irá continuar”.

No início deste mês, Trump ameaçou abandonar a aliança atlântica fundada em 1949 - algo que já tinha feito no seu primeiro mandato -, dada a recusa dos aliados em apoiar a sua campanha militar contra o Irão. Qualquer retirada da aliança exigiria a aprovação do Congresso norte-americano, mas o republicano poderá retirar tropas ou recursos militares do continente, ou recusar apoiar a NATO, dada a sua posição política.

Pub
Pub
Pub