Chuva, neve derretida, solos saturados. APA alerta para "situação complicada"
A Agência Portuguesa do Ambiente tem estado a gerir as descargas das barragens de modo a reduzir o risco de cheias, mas alerta que o cenário de "chuva sobre chuva" dificulta a tarefa. Mau tempo desta semana pressiona, em particular, o Mondego.
A chuva persistente que se faz sentir esta terça-feira e é esperada também para quarta-feira está a pressionar as barragens do país e a potenciar o risco de cheias, em particular na zona do Mondego. O alerta é deixado pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA), que lembra que esta é uma zona que já foi "muito sacrificada".
"É um rio muito difícil. Ali em Coimbra há um açude, e nesse açude o caudal não pode ser superior a 2.000 metros cúbicos por segundo. Se for, os diques não estão dimensionados para esse caudal e podem colapsar", explica José Pimenta Machado, em entrevista ao programa do Negócios no canal NOW. Neste momento, a segurança está assegurada, o caudal está com 1.500 metros cúbicos por segundo, mas o presidente da APA lembra que "já estamos nisto há duas semanas" e "estamos a testar o sistema".
As descargas controladas das barragens têm sido a principal estratégia da APA para evitar cheias em larga escala, mas à medida que a água se acumula - e com depressões tão próximas umas das outras - reduz-se a margem de manobra para efetuar eficazmente estas descargas. "Temos solos completamente saturados. Os solos são uma espécie de esponja que absorve a água. Mas agora estão saturados, qualquer chuva transforma-se em escorrência", descreve. A esta água junta-se outra a proveniente da muita neve que se acumulou na Serra da Estrela e agora, com a chuva, derreteu. "Mais água para Mondego, mais água para o rio Zêzere", sublinha.
Há ainda a questão dos danos que os incêndios causaram nos solos da região centro: "Em agosto, em setembro, ali na Serra do Açor, que desce para o rio Alva e depois ao Mondego, toda aquela parte ardeu. Foi uma coisa dramática. E, portanto, o solo está muito frágil. É outra dificuldade nacional. Cai chuva, arrasta sedimentos, cria problemas no caudal. É só dificuldades".
Os solos saturados trazem ainda o risco de derrocadas, sendo, aliás, esse um dos motivos principais para a deslocação de pessoas. Janeiro, lembra, foi o segundo mês mais pluvioso em 25 anos, seguindo-se a um dezembro também ele chuvoso. Tudo somado, "em janeiro só em cinco dias é que não choveu", conta.
As cheias já levaram ao deslocamento de mais de mil pessoas na zona da lezíria do Tejo e do Sado, e embora José Pimenta Machado indique a pressão no Tejo diminuiu, não afasta riscos para outras áreas. A margem esquerda de Águeda está inundada, "até mesmo a zona urbana", e a Vila de Prado (concelho de Vila Verde, Braga) pode inundar caso o encontro entre o rio Homem e o rio Cávado gere um causal superior a 700 metros cúbicos por segundo.
O presidente da APA mantém confiança que será possível evitar estas situações, mas alerta: "Choveu imenso, e volta a chover amanhã, e isto é chuva sobre chuva. Portanto, a situação é complicada, confesso".
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