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Emigração portuguesa para o Brasil voltou a cair em 2015

A entrada de portugueses baixou pelo segundo ano consecutivo num país em que as oportunidades de trabalho e os salários são cada vez menos atractivos e que já sente o "enorme êxodo" dos estrangeiros.

Brasil 6ª posição em 2030, com PIB de 3.955 mil milhões de dólares, após 7ª posição em 2014.
António Larguesa alarguesa@negocios.pt 26 de Julho de 2016 às 17:54
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O Brasil parece estar, em definitivo, a perder fôlego enquanto destino para a emigração portuguesa. Em 2015, pelo segundo ano consecutivo, o número de entradas de portugueses no país caiu face ao período homólogo, num aparente reflexo da crise económica e social do outro lado do Atlântico, onde a entrada total de estrangeiros também caiu (-21%), ainda que a um ritmo menor.

 

Segundo os dados do Ministério do Trabalho e Previdência Social, apenas 1.294 portugueses fixaram oficialmente residência naquele país em 2015, o que corresponde a uma quebra de 32,6% face ao ano anterior. E em 2014 as entradas já tinham caído 34,1%, isto depois de sete anos consecutivos de fortes aumentos no contingente nacional. No ano passado, os portugueses representaram assim 3,5% dos 36.868 estrangeiros que entraram no Brasil.

 

O Observatório da Emigração, que compilou estes dados mais recentes, fala numa "inversão da tendência" após esse "aumento exponencial" da emigração portuguesa para o Brasil, sobretudo nos três primeiros anos desta década, coincidentes com o agudizar da crise a nível interno e o pedido de assistência financeira por parte do Estado português. Inês Vidigal, investigadora do organismo criado em 2008, assinala ainda que o Brasil é actualmente o 12.º país para onde mais portuguesas emigram.





Hugo Simão aterrou no Brasil em Março de 2011, ou seja, três meses antes da chegada da troika a Lisboa, e destaca que vê "cada vez mais gente quer a regressar a Portugal, quer a escolher outros países para viver". Principalmente após a reeleição da Dilma e no período imediato "assistiu-se a um enorme êxodo da comunidade portuguesa", explicado a partir de São Paulo por razões económicas e sociais, com reflexos ao nível do desemprego, da deterioração da qualidade de vida e do consequente aumento da criminalidade.

 

Este responsável pela análise comercial e estratégica para a América Latina da TSYS (empresa norte-americana de processamento de transacções de meios de pagamento, equivalente à SIBS em Portugal) atesta que há "cada vez menos investimento estrangeiro, incluindo de empresas portuguesas". "Dessa forma torna-se não só complicado a contratação de profissionais portugueses por empresas brasileiras, mas também acabam por não existir proposta atraentes, já que o nível salarial deste tipo de vagas é bastante inferior ao das multinacionais", acrescenta Hugo Simão, formado em Informática e Gestão de Empresas.

 

Terra das oportunidades menores

 

Segundo uma publicação divulgada esta segunda-feira, 25 de Julho, pelo banco central brasileiro, a economia vai contrair este ano cerca de 3,27% e a inflação vai atingir os 7,21%. As novas previsões incluídas neste estudo, que serve de referência para as projecções de crescimento do Governo, indicam assim que o Brasil vai entrar pelo segundo ano consecutivo em números vermelhos em matéria de crescimento, depois do PIB ter recuado 3,8% em 2015.

 

"O país está um caos e, antes do caos económico, está o caos político. Este momento faz ainda mais sobressair problemas crónicos do país, como saúde, educação e segurança", resume a portuguesa Isabel Gonçalves, 31 anos, bolseira de pós-graduação em Ecologia e Conservação da Biodiversidade. A viver no Brasil desde Abril de 2008, esta bióloga marinha não tem muito contacto com estrangeiros em Porto Seguro, no estado da Bahia, mas um vizinho holandês já a avisou que iria voltar este ano para a Europa. Reconhece o cenário de crise quando "até os próprios brasileiros falam de sair do país".

 

Nuno Pereira também só tem um amigo português no Rio de Janeiro, mas não fica surpreendido com estes dados oficiais sobre as entradas de estrangeiros num país "mergulhado numa crise política e económica profunda" e que não dá "sinais fortes suficientes" de inversão no capítulo do crescimento. Fala em "tecidos sociais mais frágeis", numa classe média que vai perdendo esse estatuto e num nível médio de serviços públicos que afunda em sentido contrário ao dos indicadores de insegurança nas ruas.

 

Nuno Pereira está no Rio de Janeiro desde Junho de 2009 e garante que, se a opção fosse tomada hoje, “não consideraria de forma alguma emigrar para o Brasil”.
Nuno Pereira está no Rio de Janeiro desde Junho de 2009 e garante que, se a opção fosse tomada hoje, “não consideraria de forma alguma emigrar para o Brasil”. Direitos Reservados

 

Ao nível do emprego, se antes havia uma enorme disputa pela mão-de-obra qualificada que permitia "aumentos salariais anuais significativos" – e com uma taxa de câmbio que, na época, era bem mais favorável ao real –, o gestor descreve agora um mercado de trabalho com "falta de oportunidades" e uma quebra acentuada no nível remuneratório. Quem perde o emprego enfrenta dois problemas: um tempo médio de recolocação acima de seis meses e depois um emprego com um salário "inferior em perto de 60%" para a mesma função.

 

"Moral da história: se hoje estivesse num outro país, não consideraria de forma alguma emigrar para o Brasil. [É um] país instável, inseguro, tem salários decrescentes com câmbio instável e sem observação de movimentos políticos e económicos contundentes para mudar o rumo", conclui Nuno Pereira, que estudou na Faculdade de Economia do Porto (FEP) e trabalhou na China antes de iniciar há sete anos a aventura brasileira.

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