Figura internacional: Angela Merkel
Angela Merkel não tem tido um segundo para deixar assentar a espuma dos dias, e talvez nunca venha a merecer o epíteto de "líder". Mas é seguramente a mulher mais contestada do ano. E é, a todos os títulos, a mulher do ano.
Ela queixa-se de ser mal compreendida e mal amada, dentro e cada vez mais fora de portas. O eleitorado alemão não lhe tem dado tréguas ("ajudar gregos que se reformam dez anos antes de nós?"); a oposição partidária, muitas vezes pelos motivos inversos, idem aspas; e dentro da coligação governamental (CDU e liberais do FDP) as relações são descritas como "tensas".
Acusam-na de ser uma comunicadora desastrada, uma "comunista reciclada", de ter esquecido a responsabilidade moral da Alemanha na pacificação da Europa, de não ter "faro nem visão" e de apenas tomar decisões quando está prestes a chocar contra a parede.
Também na Europa ninguém lhe poupa críticas. Arrastou os pés o mais que pôde na ajuda à Grécia, e seis meses depois não largou os tornozelos da Irlanda até que esta aceitasse ser intervencionada. Do centro à periferia, "autista", "anti-europeia", "incendiária dos mercados" são alguns dos ultrajes mais brandos que tem sido forçada a engolir. O aliado mais firme tem-no encontrado no sítio de sempre: em Paris, e - pasme-se - no temperamental Nicolas Sarkozy.
Raros foram os líderes reconhecidos como tal no seu tempo. A larga maioria é-o apenas a título póstumo. Angela Merkel não tem tido um segundo para deixar assentar a espuma dos dias, e talvez nunca venha a merecer esse epíteto. Mas é seguramente a mulher mais contestada do ano. E é, a todos os títulos, a mulher do ano. Porque foi, é e será incontornável quando se pensa no futuro do euro - e quando se sabe que dele depende o da União Europeia, que deu 50 anos de paz e de prosperidade a um continente que viu nascer duas guerras mundiais, com epicentro na Alemanha. Foi-o em absoluto em 2010, a começar pela forma como tirou a Alemanha da recessão. É hoje a única economia do euro que já vive e pensa no pós-crise - e que, de resto, saiu dela muito melhor e como há muito não se via, com a mais baixa taxa de desemprego (7,4% em Novembro) e a mais alta de crescimento (3,6% em 2010) desde a reunificação do país, em 1990. Depois de ter sido durante mais de uma década o "doente da Europa", a Alemanha virou oásis. Quer competir com a China e a Índia, e ser uma grande potência sem complexos.
Raros foram os líderes reconhecidos como tal no seu tempo. A larga maioria é-o apenas a título póstumo. Angela Merkel não tem tido um segundo para deixar assentar a espuma dos dias, e talvez nunca venha a merecer esse epíteto. Mas é seguramente a mulher mais contestada do ano. E é, a todos os títulos, a mulher do ano. Porque foi, é e será incontornável quando se pensa no futuro do euro - e quando se sabe que dele depende o da União Europeia, que deu 50 anos de paz e de prosperidade a um continente que viu nascer duas guerras mundiais, com epicentro na Alemanha.
Mas se parece conhecer bem a receita do seu próprio sucesso, ninguém na Alemanha, a começar por Angela Merkel, sabe bem como tirar a Zona Euro deste atoleiro que em seis meses fez duas vítimas e poderá ainda fazer muitas mais. Depois de ter acedido a que se fizesse uma interpretação "muito livre" das regras de fundação do euro, abrindo um precedente que ainda está em julgamento no tribunal constitucional alemão, Merkel quer agora que futuras ajudas a países do euro exijam reestruturações de dívida suportadas pelos bancos e investidores privados.
"Schuld" em alemão tem dois significados - culpa e dívida. Na mais pura ortodoxia alemã, passam por sinónimos. Compreender Angela Merkel pode passar por isso mesmo: quem não quer ser julgado culpado, não acumule dívidas.