Mulheres trabalham mais 1 hora e 13 minutos por dia: a explicação está em casa
Mulheres ocupam diariamente mais de quatro horas com o trabalho não pago das tarefas domésticas, contra cerca de duas horas e meia no caso dos homens. Mas 71% das mulheres e 76% dos homens acham que a distribuição é justa.
Apesar de terem mais trabalho a tempo parcial e de demorarem menos tempo nas deslocações, as mulheres que têm uma actividade profissional trabalham mais uma hora e treze minutos por dia útil do que os homens. Em total, estão em média quase 13 horas a trabalhar. A diferença é explicada pelas mais de quatro horas diárias de trabalho doméstico, que não são pagas, e que comparam com as cerca de duas horas e meia no caso dos homens.
São conclusões do estudo "Os usos do tempo de homens e mulheres em Portugal", que se baseia num inquérito feito a mais de 10 mil pessoas em 2015, e que será apresentado esta terça-feira, 28 de Junho, em Lisboa. O projecto do Centro de Estudos para a Intervenção Social (CESIS) foi elaborado em colaboração com a Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego (CITE).
Os autores começam por explicar que os homens dedicam mais tempo à actividade profissional, incluindo deslocações, do que as mulheres: 9 horas e dois minutos no caso dos homens e 8 horas e 35 minutos no caso das mulheres.
Contudo, o retrato inverte-se quando também são consideradas as tarefas realizadas em casa, o chamado tempo não pago: por passarem mais de quatro horas no chamado "trabalho não pago" (em tarefas domésticas), as mulheres apresentam um tempo médio diário de trabalho de 12 horas e 52 minutos; já os homens, que dedicam pouco mais de duas horas e meia às tarefas em casa, trabalham um total de 11 horas e 39 minutos. E estes dados – que se referem ao último dia útil antes da realização do inquérito – só dizem respeito às pessoas que têm uma actividade profissional, excluindo as que não a têm.
"Isto significa que a jornada de trabalho total das mulheres é, em média, superior à dos homens em 1 hora e 13 minutos", lê-se nas conclusões do estudo.
Não admira, por isso, que sejam mais as mulheres (39,4%) do que os homens (30,2%) que consideram que no dia-a-dia raramente têm tempo para fazer as coisas de que realmente gostam. As percentagens são mais elevadas na área metropolitana de Lisboa do que no resto do País.
Cuidar da roupa, limpar a casa, e quase mais meia hora a preparar refeições
Cuidar da roupa, limpar a casa, e quase mais meia hora a preparar refeições
A análise por tarefas confirma a conclusão geral: nas tarefas relacionadas com a roupa, com a limpeza da casa, ou preparação de refeições, é sempre maior a percentagem de mulheres que dedica mais de uma hora a essa actividade.
"Se um demora cinco minutos a passar uma camisa a ferro – eu estou a falar da minha mulher – e eu demoro quinze minutos, para além de que a camisa nunca vai ficar bem passada… não estou a ser machista, estou a tentar explicar: a camisa não fica bem passada, demoro mais tempo e triplica o consumo de energia", afirma Carlos, que tem 36 anos, dois filhos e foi entrevistado para o estudo.
O estudo revela que o tempo médio afecto nos dias úteis a tarefas doméscitas também é maior entre as mulheres: mais 26 minutos a limpar a casa, mais 18 minutos a preparar refeições (o que também inclui pôr a mesa e lavar a loiça) e mais 14 minutos a cuidar da roupa.
Em relação às actividades de cuidar da roupa, os poucos homens que as executam "fazem-nos apenas para si, ou seja, apenas tratam da própria roupa", enquanto 74% das mulheres o fazem para si ou para outras pessoas.
Apesar de ser muito mais frequente encontrar situações em que as mulheres que cuidam de forma exclusiva de crianças com menos de 3 anos (83,2%), as autoras concluem que a este nível a distribuição de tarefas é mais equilibrada.
"Persiste uma evidente feminização do trabalho de cuidado a crianças; contudo, esta é menos acentuada do que a que se verifica em relação ás tarefas domésticas, domínio no qual os homens parecem resistir mais a entrar". Cerca de 17% das mulheresm face a 7,6% dos homens declaram prestar cuidados físicos a crianças.
Apesar das disparidades, a maioria acha que a distribuição é justaSão as mulheres que exprimem um maior sentimento de justiça em relação à distribuição de tarefas. Mas a percentagem das que se queixam é minoritária.
Sete em cada dez mulheres consideram que a parte das tarefas domésticas realizadas por si corresponde ao que é justo. A percentagem sobe para 75,6% no caso dos homens.
Quase um quinto dos homens assumem ter consciência que fazem menos do que é justo, mas há 4,8% que consideram que fazem mais do que deveriam.