Economia Sete nacionalidades falam a língua da ciência para tratar o mundo

Sete nacionalidades falam a língua da ciência para tratar o mundo

No centro de investigação da Bial, na Trofa, serão investidos mais 40 milhões para que os 98 cientistas coloquem novos medicamentos nas prateleiras das farmácias. O próximo será para a doença de Parkinson, já no final de 2014.
Visto da auto-estrada que liga o Porto a Braga, aquele edifício caiado de branco podia ser só mais uma unidade fabril na paisagem industrializada do Norte. Lá dentro, porém, "esconde" 98 pessoas de sete nacionalidades, que falam a língua comum da ciência no centro de investigação e desenvolvimento (I&D) da Bial. Uma empresa pequena que ousou entrar no campeonato das multinacionais e está hoje entre a elite mundial das farmacêuticas que colocam novos produtos no mercado – onde chegam anualmente apenas 25 a 30 em todo o mundo. O próximo a chegar às prateleiras, lá para o final de 2014, será um medicamento para tratar a doença de Parkinson, que já entrou na terceira e última fase de ensaios clínicos.

De sobrancelha loira e dono de uns expressivos olhos azuis, Lyndon Wright pode até disfarçar o sotaque inglês de quem cresceu a 20 quilómetros da fronteira com a Escócia. Mas é incapaz – e faz questão de verbalizar – a "excitação" com os projectos em curso, sobretudo este que "é dos que estão mais avançados" e vai absorver 12 milhões de euros em 2012. Nos 2.300 metros quadrados que ocupa o departamento de I&D, todos valorizam a multiculturalidade da equipa. Lyndon partilha da ideia, mesmo frisando que "quando se pensa em ciência, todos falam uma língua comum, igual em todo o mundo, seja um português, um russo ou um esquimó".

O chefe do departamento de farmacologia chegou há dez anos e "por amor" a São Mamede do Coronado (Trofa). Viu "crescer e florescer" o grupo Bial, que fechou o último ano com uma facturação de 140 milhões de euros, 60% dos quais gerados em Portugal. "Essa foi a grande mudança: como se transformou, de forma ambiciosa, numa empresa internacional", elogia. Laszlo Kiss, 42 anos, corrobora desta visão transformadora no andar de baixo, no departamento de química. Há uma década, quando chegou de Budapeste, "os recursos eram mais limitados", enquanto hoje tem "basicamente tudo o que é necessário para uma boa performance".

Apesar do aperto estatal, que em quatro anos baixou a média do preço dos medicamentos em 25%, a Bial vai investir este ano mais 40 milhões de euros em I&D, mais de metade aplicados para desenvolver novas indicações do Zebinix, o anti-epiléptico lançado em 2009, que foi o primeiro fármaco de raiz nacional e que já é comercializado em 26 países. Ao todo, os medicamentos de caixa branca e linha vermelha da Bial são hoje vendidos em 50 países. Durante anos, como tantas outras, só comprou as licenças para fabrico. A inovação, resumiu o CEO António Portela, "permitiu internacionalizar a empresa", através de aquisições ou a abertura de filiais, como a espanhola, onde 200 pessoas asseguram a produção e investigação.

Ambiente local, resultados globais

Domenico Russo chegou há ano e meio da Calabria, no Sul de Itália, atraído por um país "bom para viver e trabalhar" e uma "pequena empresa em que é muito rápido evoluir em cada um dos projectos por ter perto tudo o que é preciso". Aqui, no mesmo edifício estão os departamentos químico e farmacológico, e a actividade clínica. "Isto não é comum para quem trabalhou antes numa multinacional, cada repartição estava num país diferente".

Esta proximidade ajuda também a combater a solidão de Humberto Ferreira, que o Negócios encontrou a trabalhar sozinho, ao lado da imponente máquina de ressonância magnética nuclear, que analisa a identidade estrutural dos compostos. "O campo, ali no centro, é à volta de 280 mil vezes a potência do campo magnético da Terra", atira, de forma impressionista. É virado para os dois monitores do computador, encostados à parede, que sonha, "a qualquer momento obter um resultado fantástico, que traga grandes melhorias para a saúde humana, e à escala global".

Aos 41 anos, depois de estudar e trabalhar no estrangeiro, Humberto diz esperar já não "fazer parte dos cientistas portugueses que precisam de emigrar" para encontrar um emprego. No andar de cima, e numa fase também já mais adiantada do ciclo de desenvolvimento do medicamento, Rita Machado interrompe por minutos a bioanálise das amostras, obtidas dos voluntários no ensaio clínico, para dizer que não teve "necessidade nem vontade de procurar outros sítios para estar". Embora tenha colegas com "dificuldade em inserir-se no mundo do trabalho". Já a sua motivação, concluiu, é a mesma de toda a equipa: "conseguirmos todos, um dia, meter um medicamento no mercado". Algo que, desde que é descoberta uma molécula até à comercialização, demora 10 a 12 anos e, atesta o Zebinix, tem custos directos de 300 milhões de euros.

Este é um custo que, uns metros ao lado, o serviço de modelação molecular pode ajudar a baixar. Sem bata e sapato branco, óculos transparentes ou luvas verdes, é no "laboratório seco", em frente a um computador, que Nuno Palma simula as propriedades das moléculas e "desconstrói um pouco aquele processo clássico de tentativa – erro". Ainda que não substitua o teste em laboratório, pré-selecciona as moléculas a testar, permitindo em três dias fazer "screenings" de milhões de compostos que, "de outro forma, não seria competitivo" fazer.




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