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Setembro é o mês em que nascem mais crianças em Portugal. Porquê?

Há 14 anos que Setembro se destaca como o mês em que mais crianças nascem em Portugal. Nem sempre foi assim. O que está por trás desta sazonalidade nos nascimentos?

Função Pública também tem cortes na maternidade
Manuel Esteves mesteves@negocios.pt 14 de Maio de 2016 às 15:00
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"O que é preciso fazer para que nasçam mais crianças em Portugal", perguntou em 2007 o então Presidente Cavaco Silva, fazendo a delícia de muitos portugueses. Piadas à parte, esta questão tem ocupado um lugar de destaque na discussão política dos últimos anos e a preocupação em promover a natalidade é dos poucos temas que reúne um claro consenso nacional.

Ainda no início deste mês, o CDS apresentou um conjunto de propostas visando promover a natalidade, desde o alargamento das licenças para os pais até ao reforço dos apoios do Estado, retomando uma discussão que um ano antes fora lançada pelos partidos de esquerda.

Já sabemos que nascem poucas crianças em Portugal. Mas quando nascem e porque nascem mais nuns meses do que noutros?

É no mês de Setembro que nascem mais crianças. Quase 10 em cada 100 bebés de 2015 deram o ar da sua graça no nono mês do ano. A diferença em relação aos outros meses não é muito grande, mas surpreende a forma sistemática como Setembro lidera sempre o número de nascimentos: é assim há 14 anos (excepto em 2011), mostram os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE). 


Olhando para a média dos últimos cinco anos (de modo a alisar eventuais oscilações arbitrárias), conclui-se que 9,1% dos nascimentos ocorreram em Setembro. Todo o período que decorre entre Julho e Outubro regista elevados níveis de nascimentos, conforme se vê no gráfico. No extremo oposto estão o mês de Fevereiro ("prejudicado" pelo reduzido número de dias), Abril e Junho, que registam um menor número de nascimentos. 


Mas nem sempre foi assim. Um estudo de António Caleiro ("Again on the seasonality of births in Portugal"), da Universidade de Évora, que analisou os nascimentos entre 1929 e 2012, revela mudanças significativas. Além da sazonalidade ser mais vincada na primeira metade do século XX, Caleiro nota que esta "se alterou em termos dos meses associados aos picos de nascimentos, passando dos meses iniciais do ano para os picos de Maio e Setembro", respectivamente.

Segundo os dados facultados pelo INE ao Negócios, ao longo da década de 80, Maio era invariavelmente o mês em que nasciam mais crianças. Só a partir dos anos 90 é que a sua liderança começou a ser disputada, precisamente por Setembro, que se tornou rei e senhor a partir de 2002. Nos últimos cinco anos, Maio surge em quinto lugar, ultrapassado por Julho, Agosto e Outubro, além de Setembro.








Esta não é uma particularidade nacional. Em toda a Europa, Setembro passou a ser o mês de eleição em matéria de nascimentos. Esta mudança, sugerem vários estudos, deverá estar relacionada com uma alteração de hábitos dos portugueses que, com o desenvolvimento da economia, o aumento do rendimento disponível e a maior facilidade em deslocarem-se, acabaram por diversificar os períodos em que gozam as férias, retirando importância ao mês de Agosto. E lá está, menos tempo livre, menos concepções em Agosto, logo menos crianças em Maio.

 

Mas porquê Setembro?

Há décadas que os académicos constataram uma forte sazonalidade dos nascimentos. E embora haja particularidades em cada região, a sazonalidade é incontornável em todas as populações do mundo. Ou seja, há sempre meses (não necessariamente Setembro) que registam um número de nascimento sistematicamente superior ao dos restantes.

Mas o que está por trás desta sazonalidade? Ao contrário do que se possa pensar, não há uma resposta inequívoca para estas perguntas. Nenhuma das causas já identificadas se assume como dominante, segundo os estudos consultados pelo Negócios, variando a sua importância consoante os países ou regiões.

Vamos então ao caso português. Para tentar compreender a causa de tantos nascimentos em Setembro é preciso recuar… nove meses. As crianças nascidas em Setembro foram concebidas em Dezembro.

Uma inspiração chamada Natal

Dezembro é um mês especial. A celebração do Natal traz consigo vários ingredientes que favorecem a concepção de crianças, admitem os especialistas. O factor mais determinante parece ser o lazer. As férias do Natal e do Ano Novo dão mais tempo e descontração para que os casais possam fazer o que é preciso para engravidar. "Não descurando outros factores relevantes, é óbvia a importância do tempo livre", escreve António Caleiro, da Universidade de Évora.

Por outro lado, este é também um período de reunião de alguns casais que, por razões profissionais, estão afastados do ponto de vista geográfico (tipicamente, o caso dos emigrantes). Finalmente, alguns especialistas apontam também a cultura natalícia de fraternidade e amor como potenciadora de um maior número de concepções.

Numa interpretação que assume ser "muito pessoal", a quadra natalícia "é um período mais favorável à tomada de decisões" deste género, argumenta Filomena Mendes, da Associação Portuguesa de Demografia, que destaca igualmente o papel das expectativas em torno do novo ano. A questão das férias e do descanso também é referida por esta especialista, que sublinha "a maior descontração das pessoas" nesta altura do ano.
 

A seguir ao casamento vêm os filhos

Já foi mais assim, mas ainda tem a sua importância. Muitos casais aguardam pelo casamento para procriarem e outros acabam por ceder à pressão familiar e cultural que se exerce depois de casarem. Segundo um estudo de António Caleiro, "os casamentos continuam a apresentar-se como factores explicativos dos nascimentos".

Uma investigação sobre a população de Malta conclui que existe uma correlação entre casamentos e nascimentos, com um hiato temporal de 13 a 14 meses. Em Portugal, tal como em Malta, a maioria dos casamentos realiza-se no Verão. Segundo o INE, em média, 43% dos casamentos ocorreu entre Julho e Setembro nas últimas duas décadas. Daqui a Setembro decorrem entre 14 e 12 meses, respectivamente, semelhante ao hiato temporal verificado em Malta. Estes dados sugerem que muitos casais decidem tentar o primeiro filho logo a seguir ao casamento. Claro que a concepção não é imediata, demorando, neste caso, três a cinco meses.   

O principal contra-argumento para este factor é o do segundo filho. É que o mês de Setembro também tende a ser preponderante nos segundos filhos e aí a justificação do casamento já não serve.

Alguns estudos também apontam que os ciclos de luz e a temperatura podem influenciar a concepção (por via da concentração hormonal, qualidade do esperma ou actividade sexual), tal como acontece em muitas espécies animais, mas o seu alcance está longe de merecer o consenso dos médicos. Maria José Carvalho, ginecologista e obstetra, desconhece uma relação de causalidade entre a temperatura ou luz e as concepções. Sem afastar essa hipótese, a especialista lembra contudo que, "hoje, os casais já gerem a data de nascimento". Antes era mais de acordo com o que a natureza determinava, mas agora, com a introdução da pílula, é tudo mais planeado".  

Voltando a 2007, Cavaco Silva terminava as suas declarações com um desabafo: "eu não acredito que tenha desaparecido nos portugueses o entusiasmo por trazer novas vidas ao mundo". O que os estudos parecem sugerir é que o entusiasmo em "trazer novas vidas ao mundo" está muito condicionado pelo tempo disponível. E, provavelmente, o tempo e o lazer não influenciam apenas o padrão de sazonalidade dos nascimentos mas também a decisão maior de ter filhos.
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