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Europa preparada para deixar a Grécia sair da Zona Euro

A 20 dias das eleições legislativas gregas intensificam-se as pressões, nomeadamente da Alemanha, para que Atenas cumpra as medidas acordadas com a troika. Caso contrário, o governo de Angela Merkel e de François Hollande já assumiram a possibilidade da Grécia abandonar o euro. Comissão Europeia lembra que pertença à Zona Euro "é irrevogável"

Bloomberg
David Santiago dsantiago@negocios.pt 05 de Janeiro de 2015 às 10:06
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Tendo em conta as informações vindas a lume nos últimos dias, parece claro que para a Alemanha, a maior economia do euro, há dois cenários em cima da mesa no que à Grécia diz respeito: a Grécia pode permanecer na Zona Euro após as legislativas desde que mantenha os compromissos assumidos pelo governo ainda em funções; e a Europa está preparada para a saída da Grécia do bloco do euro caso Atenas reivindique o não cumprimento do anteriormente acordado nos memorandos e insista em reestruturar a dívida.

 

No mesmo sentido, o Presidente gaulês François Hollande assume a necessidade de Atenas "respeitar os compromissos assumidos", independentemente do resultado das eleições. Todavia, Hollande deixa aos próprios gregos a decisão sobre a permanência no euro "porque é uma escolha que só a eles cabe". É uma afirmação prudente do governante francês na medida em que os tratados europeus não prevêem a expulsão de países do bloco europeu ou da moeda única. 

 

Hollande acredita que não cabe a Bruxelas teorizar sobre se os votos dos eleitores gregos vão ou não determinar a saída do país da moeda única. E numa aproximação ao fim da austeridade sustentado por Alexis Tsipras, líder do Syriza, Hollande defende que "a Europa não pode continuar a ser identificada pela austeridade".

 

De acordo com uma fonte oficial anónima do governo alemão, citada pela revista alemã Der Spiegel, a Zona Euro está preparada para uma eventual saída da Grécia da moeda única, algo que os governantes germânicos consideram quase inevitável, refere a revista alemã, caso seja o Syriza a sair vencedor das eleições parlamentares de 25 de Janeiro.

 

O ministro das Finanças alemão Wolfgang Schäuble já havia prevenido isso mesmo quando assumiu que se "a Grécia assumir um percurso diferente será difícil" a sua permanência na moeda única. Num trabalho publicado este fim-de-semana, a Der Spiegel explicava que para os governantes alemães a situação é bem diferente daquela que marcou o início da crise do euro.

 

Aquela publicação escreve que a conclusão da união bancária e a criação do mecanismo europeu de estabilidade financeira (MEEF) impedem o contágio no seio da Zona Euro, designadamente a países como a Irlanda e Portugal que também beneficiaram de resgates internacionais e cujos processos de reestruturação se encontram a caminho da consolidação.

 

Berlim coloca água na fervura

 

Entretanto, de Berlim, foram proferidas declarações no sentido de relativizar o artigo publicado pela revista Der Spiegel, até porque é já conhecido, tendo em conta os estudos de opinião, que na Grécia a pressão externa acaba por penalizar os partidos do centro. Algo contrário às próprias pretensões germânicas.

 

O ministro da Economia alemão Sigmar Gabriel, líder do SPD, esclareceu, citado pelo The Guardian, que a actual capacidade da Europa para suster os efeitos negativos da saída grega da Zona Euro explica o "porquê de não podermos ser chantageados e o porquê de esperarmos que o governo grego, independentemente de quem o lidere, cumpra os acordos feitos com a União Europeia (UE)".

 

O objectivo do governo alemão, da União Europeia e mesmo o de Atenas, é o de manter a Grécia na Zona Euro
 
Sigmar Gabriel

Quanto ao artigo publicado na Der Spiegel, Gabriel assevera que "não existiram nem existem planos no sentido contrário" à permanência da Grécia no bloco da moeda europeia. Antes pelo contrário, porque, de acordo com o Kathimerini, o líder dos sociais-democratas alemães defende mesmo que "o objectivo do governo alemão, da União Europeia e mesmo o de Atenas, é o de manter a Grécia na Zona Euro".

 

No mesmo sentido, o secretário-geral do partido de Merkel, os democratas-cristãos da CDU, Peter Tauber, garante, segundo refere a agência Bloomberg, que "não vê" que a Grécia venha a sair do euro. "A Grécia assumiu um acordo com os credores internacionais, que o país terá de assumir", sustentou Tauber para quem o Syriza apenas está a fazer uma "campanha de retórica".

 

Numa entrevista a uma rádio alemã, Tauber assume porém que as consequências da saída da Grécia da Zona Euro são "diferentes do que eram há uns anos" devido à criação de instrumentos, pela União Europeia, para lidar com tais cenários. "Trabalhámos muito para tornar esses cenários controláveis", assegurou.

 

A Comissão Europeia optou por não comentar o artigo da revista alemã Der Spiegel mas sublinhou que, de acordo com o artigo 140, parágrafo 3, do Tratado da União Europeia a pertença à Zona Euro "é irrevogável".

 

Samaras joga cartada de risco de saída do euro, mas Tsipras lidera sondagens

 

O resultado das eleições de 25 de Janeiro vai decorrer da escolha, cada vez mais polarizada, nota o politólogo grego Ilias Nikolakopoulos ao Guardian, entre duas personalidades: Antonis Samaras, actual primeiro-ministro e líder do Nova Democracia, e Alexis Tsipras, o mediático líder do Syriza.

 

Tal como refere o jornal britânico, desde a marcação das eleições parlamentares, o primeiro-ministro Samaras tem centrado a sua campanha nas referências ao risco de a Grécia ser levada a sair do euro caso seja o Syriza a vencer o acto eleitoral. Possivelmente para esvaziar esse mesmo discurso, Tsipras já assumiu que defende a permanência de Atenas no euro.

 

Para Nikolakopoulos, a escolha dos gregos far-se-á entre a preferência pela estabilidade garantida pelo candidato Samaras, bem considerado pelas instituições europeias e internacionais, ou pela ruptura representada pelo Syriza, que defende a reestruturação da dívida grega e o final das medidas de austeridade acordadas com os credores internacionais. Algo que tem deixado os mercados em alerta e já fez subir os juros da dívida grega, cuja taxa no prazo a dez anos sobe 18,9 pontos base para os 9,439%. Já a praça grega segue a cair nesta manhã perto de 4%. 

 

Recorde-se que o segundo programa de assistência financeira à Grécia, que terminava a 31 de Dezembro, foi prolongado por dois meses, altura em que Atenas ja deverá ter acordado as condições para o estabelecimento de uma almofada financeira de linhas de crédito cautelares. Algo que neste momento poderá depender do vencedor da corrida a primeiro-ministro.

 

Independentemente das pressões externas, inclusivamente do presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, para quem Tsipras "não é o homem ideal" para governar a Grécia, num discurso agendado para hoje, 5 de Janeiro, o líder do Syriza deverá defender, escreve a Bloomberg, que as eleições gregas vão abrir caminho para uma mudança progressiva das políticas europeias contra a receita de austeridade feita por Angela Merkel.

 

Alexis Tsipras deverá também continuar a tentar acalmar os mercados e os eleitores gregos que possam temer mudanças radicais na condução política grega. A Bloomberg refere que Tsipras, caso seja eleito primeiro-ministro, vai assegurar a garantia dos depósitos bancários e a definição de um saldo primário orçamental e rejeitar, desde já, a lógica irrealista de excedentes primários.

 

A última sondagem da Rass, divulgada sábado, dá a vitória ao Syriza com 30,4% dos votos, 3,1 pontos percentuais acima dos 27,3% atribuídos ao Nova Democracia. O Pasok, que forma a coligação governamental com o Nova Democracia, teria somente 3,5% dos votos. Nesta sondagem ressalta ainda um dado que se prende com a clara preferência de 74,2% dos inquiridos pela permanência da Grécia no euro. Quanto àquele que os gregos consideram poder ser melhor primeiro-ministro, 41% responderam favoravelmente a Samaras e 33,4% escolhem Tsipras.

 

Papel importante no resultado final poderá ter a força partidária que está a ser formada pelo antigo primeiro-ministro grego George Papandreou, que a confirmar-se uma sondagem referida na semana passada pelo Financial Times (FT), poderia alcançar entre 4% e 5% dos votos dos eleitores gregos. O FT escrevia ainda que os votos alcançados pela nova força partidária poderiam resultar, na sua maioria, de uma transferência de votos do Syriza para o partido de Papandreou.

 

(Notícia actualizada às 13h22)

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