Guerra na Ucrânia: “Mais vale começarmos a falar menos na redução da despesa pública”

As transformações em Portugal e na Europa provocadas pela invasão da Ucrânia, há quatro anos, são o tema do novo episódio do podcast Partida de Xadrez, que vai para o ar esta segunda-feira. António Ramalho e Gonçalo Moura Martins analisam o que mudou e o que ainda vai mudar.
A guerra na Ucrânia, quatro anos depois, é o tema do 48.º episódio.
Negócios 12:00

O investimento na transição energética, no envelhecimento da população e na reconstrução da Ucrânia “vai criar uma pressão tão grande sobre as sociedades ocidentais que mais vale começarmos a falar da inevitável eficiência do Estado e menos na redução das despesas públicas”, alerta António Ramalho no 48.º episódio do podcast Partida de Xadrez, que vai para o ar esta segunda-feira no site do Negócios e nas principais plataformas.

Para o gestor, “há quase uma impossibilidade de virmos a ter um processo de redução das despesas públicas, que foi uma espécie de El Dorado que a Europa criou nos últimos anos”. Porquê? Porque “o envelhecimento é uma evidência, a transição energética é uma inevitabilidade e a recuperação da Ucrânia é um dever moral”.

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Quatro anos depois da invasão russa da Ucrânia, Gonçalo Moura Martins concorda que a guerra “teve um impacto significativo mas temporário na inflação, no preço da energia e dos alimentos, assim como na chegada de refugiados, mas “mais importante e estrutural é a alteração dos equilíbrios externos e geoestratégicos, que perduravam desde a Segunda Guerra Mundial e que se refletem hoje nas política externa e de defesa”.

Na questão da energia, o gestor acredita que o crescimento da procura que vai resultar de uma utilização plena dos instrumentos de inteligência artificial “vai exigir que se diversifique e incremente brutalmente o nível de geração”, sendo que “não vai não vai ser fácil fazê-lo sem recurso ao nuclear na Europa".

Relativamente à defesa, Moura Martins reconhece que a guerra “tem sido um fardo pesado para a Europa, mas é um investimento essencial” que “ainda não desequilibrou as contas dramaticamente de nenhum país”. “Aquilo que Europa não gastou no passado tem que gastar agora”, diz. Em sua opinião, contudo, há opções que vão começar a fazer-se. “Ninguém vai perceber que a defesa seja financiada à custa da educação ou da saúde, mas se calhar da subsidiação da agricultura sim, e é mais até justo”, diz.

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Relativamente ao impacto que a guerra teve em Portugal. António Ramalho explica que “o país foi apanhado neste período de guerra numa situação positiva” e “aproveitou muito bem o contexto porque tinha feito trabalho de casa” depois da crise de 2010, 2011 e 2012.

Além de estarmos geograficamente longe do conflito, diz, “pudemos beneficiar de energia mais barata, turismo mais seguro, capacidade de reduzir a dívida pública, de ter contas mais certas e um sistema financeiro que se tornou bastante sólido e saudável”. 

Já quanto a efeitos colaterais do pós-guerra, Gonçalo Moura Martins lembra que houve 5,1 milhões de refugiados da Ucrânia recebidos na Europa desde o início do conflito, “mas toda esta imigração vai regressar à Ucrânia no fim da guerra e vai causar problemas porque são considerados trabalhadores bem preparados”.

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