“EUA querem impedir que dólar deixe de ser a moeda de referência na transação de petróleo”

Depois do ataque dos EUA à Venezuela, Gonçalo Moura Martins e António Ramalho analisam os objetivos da Administração Trump, a rivalidade com a China e o papel que a Europa poderia ter. Novo episódio do podcast Partida de Xadrez vai para o ar esta segunda-feira.
Gonçalo Moura Martins e António Ramalho analisam a alteração do paradigma político e dos equilíbrios de poder.
Negócios 12:00

No próprio dia em que os Estados Unidos atacaram a Venezuela, a 3 de janeiro, Donald Trump assumiu o objetivo de “recuperar o petróleo venezuelano para as empresas norte-americanas”, mas para Gonçalo Moura Martins o que está em causa com o domínio das reservas do país é “o controlo dos fluxos futuros do petróleo quer para condicionar o comércio com a China, quer para que o dólar não deixe de ser a moeda de referência nas transações mundiais” de crude.

No 45.º episódio do podcast Partida de Xadrez, que vai para o ar esta segunda-feira no site do Negócios e nas principais plataformas, o gestor explica que, “no meio destas tensões geoestratégicas, a China está a comprar petróleo em moeda chinesa e a Índia em lira indiana” e com isso “o dólar está a perder importância”. No entanto, frisa, “é fundamental para a economia dos Estados Unidos que o dólar continue a ser a moeda de referência da transação de petróleo no mundo”.

PUB

António Ramalho salienta, por seu lado, que o recente evento na Venezuela “é a realidade nua e crua do que a estratégia de segurança nacional dos EUA, divulgada em novembro do ano passado, esclareceu: um alargamento do espaço económico para todos aqueles que são elementos essenciais às prioridades estratégicas daquilo que a América julga que é tornar-se grande outra vez”.

O gestor, que diz levar a sério as ameaças que Trump fez já sobre outros países, considera, contudo, que nesta estratégia para assegurar que as cadeias de abastecimento necessárias ao desenvolvimento tecnológico não são interrompidas, “o movimento foi rápido de mais”. Ou seja, em sua opinião, “a Administração Trump está com medo de ter os dias contados”, tendo em conta as eleições de meio de mandato que se realizam em novembro.

Gonçalo Moura Martins salienta, por seu lado, que “a única coisa que pode parar neste momento os Estados Unidos de serem a potência hegemónica do ponto de vista económico, militar e energético são os próprios americanos”.

PUB

Recorda que “as mudanças que temos assistido nas últimas décadas tiveram a sua génese na economia e na tecnologia”, mas agora “estamos a assistir a mudanças estruturais e de paradigma baseadas em novas orientações geoestratégicas e na vontade da maior potência mundial”. Em seu entender, “um mundo muito diferente está a emergir”.

Já a Europa, diz, “não está a conseguir falar uma só voz e isso vai enfraquecer ainda mais a sua imagem no mundo, que está completamente bipolarizado”. “Há uma guerra tecnológica de duas potências – EUA e China - e a única terceira potência que podia tentar ombrear era a Europa, mas deixou-se ficar para trás”.

Também António Ramalho sublinha que "hoje estamos numa guerra tecnológica em que há dois países que ganharam dimensão e depois há um grupo de consumidores muito grande que se chama Europa, que é um anão do ponto de vista da tecnologia". "A Europa, num prazo muito curto, vai ter que fazer uma reflexão muito séria", diz, apontando as prioridades  de "investir fortemente em tecnologia,  retenção de talento e defesa" e simultaneamente "definir novas prioridades comerciais, de que é exemplo o acordo com o Mercosul", e adotar "um novo modelo de governação que permita rapidez na decisão".

PUB
Pub
Pub
Pub