Depois dos casinos, índios norte-americanos viram-se para o negócio da erva
Vai abrir no Dakota do Sul o primeiro resort de cannabis nos Estados Unidos. Os responsáveis? A tribo Santee Sioux, que espera arrecadar dois milhões de dólares por mês com o novo negócio.
As oportunidades para o negócio da droga não param de aumentar nos EUA. Embora a marijuana ainda seja ilegal no Dakota do Sul, as tribos índias têm autonomia para a cultivar e vender nas suas reservas nas mesmas condições que alguns Estados norte-americanos, como Colorado, Washington ou Oregon. A venda de erva foi legalizada na Reserva Santee Sioux em Junho, depois de o Departamento de Justiça o ter autorizado.
Qual é o passo seguinte? Obviamente, abrir um resort de marijuana. Sim, um resort. Segundo a Associated Press, os líderes da tribo planeiam cultivar a sua própria droga e vendê-la numa zona de fumadores, onde também haverá uma discoteca, jogos de arcadas, um bar e comida à venda. No futuro, esperam acrescentar máquinas de jogos (slot machines) e um espaço exterior para concertos.
As estimativas dos responsáveis apontam para lucros de dois milhões de dólares por mês, com o arranque da operação planeado para 31 de Dezembro deste ano, numa festa de Ano Novo. "Queremos ser como um recreio de adultos", afirmou Anthony Reider, presidente da tribo. "Não existe nenhum sítio na América que tenha algo como isto."
Depois de ter arrancando há 27 anos a vaga de casinos em reservas de povos nativos norte-americanos, os Santee Sioux decidiram aproveitar a sua autonomia e expandi-la para outras áreas de negócio. A tribo tem de "olhar para estas oportunidades porque, para preservar o passado, temos de avançar no presente", acrescentou Reider.
Não existe nenhum sítio na América que tenha algo como isto [...]
Blake Trueblood, director do Centro de Desenvolvimento Empresarial dos Índios Americanos, explica que "a grande maioria das tribos tem pouca ou nenhuma oportunidade de negócio" e que a cannabis "é algo para que podem olhar e dizer "temos de fazer alguma coisa".
Segundo a AP, em Flandreau - uma pequena cidade do Dakota do Sul, com pouco mais de dois mil habitantes – a plantação já está a ser desenvolvida num armazém, com 30 tipos diferentes de erva, como "Gorilla Glue," ''Shot Glass" ou "Big Blue Cheese".
"Isto não é uma operação da noite para o dia […] Queremos mostrar ao Estado [do Dakota do Sul] quão limpa, eficiente, proficiente e segura esta operação é. Não pretendemos fazer nada desonesto", explica à AP Jonathan Hunt, responsável pelo cultivo em Flandreau e vice-presidente da Monarch, uma consultora de Denver, onde a marijuana é legal, contratada para aconselhar os Santee Sioux no arranque do negócio.
A grande interrogação que falta esclarecer é se o próximo Presidente dos Estados Unidos – que entrará em funções em 2017 - não anulará a decisão do Departamento de Justiça. Se tudo correr bem, a receita com venda de erva pode servir para apoiar as comunidades índias. Os Santee Sioux esperam conseguir injectar dinheiro em habitação, uma comunidade de idosos e um centro para o período pós-escolar.
Menos uma guerra para os EUA
Aos poucos, os Estados Unidos estão a recuar na "guerra contra as drogas", que mostrou ser pouco eficaz na redução do consumo das mesmas. Quem defende a legalização argumenta que retirará poder de fogo aos cartéis de droga e poderá até ajudar a controlar o consumo por menores de idade.
Além disso, dá também uma ajuda aos cofres públicos. Por exemplo, o arranque da legalização da venda de cannabis para fins recreativos no Colorado em 2014 foi acompanhada de uma subida das receitas com impostos e da criação de milhares de empregos. Segundo um artigo recente da Time, as receitas fiscais relacionadas com a venda de erva atingiram os 70 milhões de dólares no Estado no ano terminado a 30 de Junho. É muito ou pouco? É quase o dobro daquilo que o Estado consegue arrecadar com os impostos sobre o consumo de álcool.
Esses 70 milhões de dólares dividem-se em 44 milhões que vêm de uma taxa de 10% sobre as vendas de retalho e 26 milhões de uma taxa de 15% sobre as vendas a grosso. No que diz respeito ao álcool, foram conseguidos 42 milhões: 27 milhões das bebidas espirituosas, nove milhões da cerveja e cinco milhões do vinho. O Colorado é um Estado três vezes maior do que Portugal, mas com metade da sua população. Seis meses depois da legalização (há um ano e meio), a indústria da droga já empregava 10 mil pessoas. Muitos dos postos de trabalho vinham do tempo da marijuana vendida para fins medicinais, mas entre mil ou dois mil já estava relacionada com a utilização recreativa. Esse número entretanto já terá aumentado, mas na altura já representava 0,4% dos trabalhadores do Colorado. Pode parecer pouco, mas percentualmente é o equivalente a todas as pessoas que trabalham nas pescas em Portugal. Nessas 10 mil pessoas também não estão incluídas contratações indirectas, como advogados, empresas de construção para ampliação de lojas ou electricistas, bem como o impacto positivo que o "turismo de erva" está a ter na hotelaria e na restauração.
É um negócio profissional e muito bem organizado
e gerido por pessoas sérias."
Em Junho de 2014, o Negócios entrevistou Michael Elliott, director do Grupo Industrial da Marijuana (MIG, na sigla original). "Algumas pessoas acham que vêm até aqui e têm de descer à cave de um gajo que tem lá uma plantação, mas não é nada assim. É um negócio profissional e muito bem organizado e gerido por pessoas sérias", descrevia por telefone. Armazéns de vários andares convivem com lojas abertas e iluminadas em centros comerciais. Uma mistura estranha de seguranças armados e empregados especializados em dezenas de tipos de cannabis a enrolar erva atrás do balcão. "A maioria das lojas tem espaços muito agradáveis, limpos como uma Apple Store. Têm muitos recipientes para as pessoas poderem cheirar e várias amostras para experimentarem", explica Stephen, um publicitário de 28 anos que vive nos arredores de Denver e com quem o Negócios trocou emails.
Um estudo do início deste ano do ArcView Group, divulgado pelo Huffington Post, concluía que a marijuana é a indústria de maior crescimento nos Estados Unidos, tendo avançado 74% entre 2013 e 2014, de 1,5 para 2,7 mil milhões de dólares.
O argumento económico pode ser bastante convincente. Mesmo para os opositores políticos da legalização. Em Abril deste ano, o governador do Colorado, John Hickenlooper, que se assumiu contra a legalização, admitiu: "Se olhar para trás, acabou por não ser tão embaraçoso como algumas pessoas como eu" tinham inicialmente esperado.