Netanyahu: Hitler não queria exterminar os judeus, apenas expulsá-los
Durante o Congresso Mundial Sionista, o primeiro-ministro israelita garantiu que a intenção de Hitler não passava por eliminar os judeus, mas expulsá-los. Netanyahu diz que foi o Grande Mufti de Jerusalém quem "inspirou o Holocausto".
O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, fez incidir sobre si mesmo os holofotes da polémica com o discurso proferido esta quarta-feira, 21 de Outubro, durante o Congresso Mundial Sionista, em Jerusalém. Netanyahu acusou o Grande Mufti de Jerusalém durante o período que antecedeu e sucedeu à Segunda Grande Guerra, Haj Amin al-Husseini, de ter inspirado o Holocausto.
Numa altura em que subiu o clima de tensão entre palestinianos e israelitas, com dezenas de mortes contabilizadas nos últimos dias, Benjamin Netanyahu descreveu um alegado encontro entre o líder nazi e al-Husseini em Novembro de 1941, já durante a Guerra.
"Na altura Hitler não queria exterminar os judeus, ele queria expulsar os judeus. E foi Haj Amin al-Husseini quem disse a Hitler: ‘Se queres expulsá-los eles virão todos para aqui (Palestina)’". Netanyahu acrescentou ainda que al-Husseini terá sugerido a Hitler que deveria "queimá-los".
Esta não é a primeira vez em que Netanyahu aponta o dedo àquele clérigo sunita, que era um defensor da autonomia palestiniana face ao então Império Britânico, co-responsabilizando-o pelo que também ficou conhecido como a Solução Final. Há alguns anos, em pleno Parlamento israelita, Netanyahu acusou o Mufti de Jerusalém de ser "um dos arquitectos da Solução Final".
Todavia, este discurso em que o primeiro-ministro israelita parece atribuir responsabilidades ao antigo responsável pelos locais sagrados de Jerusalém, está a provocar grande polémica, havendo historiadores que acusam Netanyahu de revisionismo da história.
Citado pelo Guardian, o professor Dan Michman, um dos mais reputados investigadores académicos do Holocausto, afiança que o dito encontro entre Hitler e al-Husseini apesar de ter mesmo acontecido, só teve lugar quando já estava em marcha a designada de Solução Final.
Também a Organização de Libertação da Palestina (OLP), pela voz do seu secretário-geral, Saeb Erekat, "denuncia a afirmação de [Netanyahu] por ser moralmente indefensável e difamatória". "Os esforços palestinianos contra o regime nazi estão profundamente radicados na nossa história", vincou Erekat.
O líder da oposição ao Likud de Netanyahu, Isaac Herzog, da União Sionista, também levantou a voz contra o "negacionismo" do primeiro-ministro de Israel. Citado pelo La Repubblica, Herzog sustenta que "há um limite para a deformação da história", acusando de seguida Netahyahu de "fazer o jogo dos negacionistas do Holocausto". Herzog vai mais longe ao assegurar saber o quanto al-Husseini odiava Israel e os judeus, mas sublinha que "Hitler não precisava de Husseini para ordenar o extermínio dos judeus só por serem judeus".
Confrontado com esta torrente de críticas, em declarações aos media israelitas citadas pelo La Repubblica, Netanyahu esclarece que "não tive qualquer intenção de isentar Hitler da responsabilidade pelo Holocausto e pela solução final". Até mesmo o ministro israelita da Defesa, Moshe Ya’alon, um dos defensores de uma linha dura contra a Palestina, já veio garantir que al-Husseini "não inventou a Solução Final".
No entanto, num momento de grande tensão com a autoridade palestiniana, Ya’alon não deixou de notar que foi "Hitler quem iniciou" a Solução Final, mas lembra que al-Husseini "juntou-se a ele" e sublinha que os palestinianos já chegaram a afirmar que são fiéis depositários do "legado nazi".
Depois de ontem o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, ter visitado Jerusalém para dialogar com os líderes palestiniano e israelita, instando-os a retomarem o processo de paz e alertando para a proximidade do "abismo", esta tarde o primeiro-ministro de Israel viaja para a Alemanha para conversar com a chanceler Angela Merkel. E para amanhã está agendado um encontro com John Kerry, secretário de Estado norte-americano, que também já pediu o regresso às conversações de paz. Há já mais de duas semanas que a Palestina e Israel mergulharam em nova escalada de violência, depois de ataques mútuos a lugares de culto terem espoletado uma série de acções violentas de parte a parte que ameaçam voltar a fazer da Faixa de Gaza um verdadeiro cenário de guerra.