Assad avisa que os Estados Unidos “vão pagar” caso ataquem a Síria
Enquanto Moscovo e Damasco pressionam o regresso dos inspectores da ONU à Síria, Kerry avisa que se o regime de Assad não entregar as armas químicas irá sofrer um “ataque militar”. Rússia pede a Assad que destrua o seu arsenal de armas químicas.
Em entrevista à cadeia de televisão americana CBS, o Presidente sírio, Bashar al-Assad, reafirmou que o seu Governo não é responsável pela utilização de armamento químico. Assad, depois de garantir a inexistência de provas, instou os Estados Unidos a “divulgarem as evidências” relativas aos referidos ataques.
Na entrevista que será emitida na íntegra ainda esta segunda-feira, o Presidente sírio lembrou que “o Médio Oriente está à beira de explodir” e repetiu a ameaça: “Vão pagar um preço se não tiverem a capacidade para lidar com terroristas. Vai haver repercussões”, disse sem especificar se a referência era relativa a grupos próximos do regime sírio, como é o caso do Hezbollahl, ou a células da al-Qaeda que combatem Assad juntamente com os rebeldes.
O secretário de Estado americano, John Kerry, que esta segunda-feira de manhã se encontrou, em Londres, com o seu homólogo britânico, William Hague, reafirmou não ter dúvidas quanto às responsabilidades de Assad nos ataques de 21 de Agosto. Com Hague a seu lado, Kerry dirigiu-se ao regime de Damasco avisando que “devem entregar as armas químicas, no prazo de uma semana, se quiserem evitar um ataque militar”.
As declarações de Kerry que consubstanciam uma posição de força que reduz a margem de manobra americana e internacional foram, entretanto, colocadas em perspectiva por oficiais da Casa Branca. Segundo estes, Kerry limitara-se a proferir um argumento retórico que pretendia explicar a improbabilidade de Assad entregar o referido armamento. Hague voltou a dizer que o Reino Unido não foi colocado de parte, depois da votação, na Câmara dos Comuns, que chumbou qualquer participação militar na Síria.
Os desenvolvimentos também se deram a leste. Em Moscovo, esta segunda-feira, os ministros dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Sergei Lavrov, e da Síria, que se encontraram para uma reunião bilateral, pediram o regresso dos inspectores das Nações Unidas, com o propósito de continuar as investigações e assim identificar as responsabilidades dos ataques do passado dia 21 de Agosto. Lavrov anunciou aquilo que parece ser uma inflexão da posição russa.
“Solicitámos à liderança síria que para além de aceitar colocar as armas químicas sob controlo da comunidade internacional, subsequentemente as destrua e assim se junte ao Tratado sobre a proibição de armas químicas”, declarou o dirigente russo. Acrescentou ter apresentado a proposta ao seu homólogo sírio e disse esperar “uma rápida e positiva resposta”. O ministro dos Negócios Estrangeiros sírio, Walid al-Moualem, declarou ver com bons olhos a proposta feita pela diplomacia russa.
Moualem, de acordo com o “Guardian”, aproveitou a situação para notar que “os tambores da guerra já estão a sonar” e deixou no ar a pergunta: “Perguntamo-nos como será possível que Obama apoie aqueles que destruíram as Torres Gémeas em Nova Iorque?”, numa clara referência à al-Qaeda. Por fim, Moualem agradeceu o apoio de Moscovo, à Síria, durante a cimeira do G20 da semana passada.
De regresso ao ocidente, em Washington vota-se, esta segunda-feira, no Congresso americano a proposta defendida por Barack Obama, Presidente dos Estados Unidos. A votação do Congresso não será definitiva quanto a uma eventual intervenção americana contra Damasco, uma vez que Obama, enquanto Comandante Chefe do exército americano poderá tomar uma decisão de cariz unilateral. Ainda assim, a votação de hoje será importante porque será indicativa da vontade dos representantes do povo americano. É importante, contudo, lembrar que Obama além de pretender legitimação para uma operação militar na Síria, foi, como disse recentemente, eleito para “acabar com guerras e não para as começar”.
Uma sondagem, divulgada esta manhã, feita pela CNN, indica que 55% dos americanos se opõem a uma intervenção militar na Síria, mesmo que esta fosse votada favoravelmente no Congresso, enquanto cerca de 43% a apoiariam. No caso de o Congresso rejeitar a moção de Obama, a proporção de americanos contra uma intervenção militar sobe para 71%, enquanto apenas 27% se manteriam favoráveis a uma intervenção na Síria.