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Bin Laden: um líder paranóico com a segurança que queria deixar fortuna para a "jihad"

Documentos revelados pelas autoridades norte-americanas mostram um homem que desejava que a sua fortuna fosse usada na ‘jihad’. Crente no falhanço da incursão norte-americana no Afeganistão, estava porém a par das fragilidades da Al-Qaeda.

Reuters
Inês F. Alves inesalves@negocios.pt 01 de Março de 2016 às 18:32
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Uma série de documentos apreendidos em Maio de 2011 durante a incursão militar norte-americana em Abbottabad, no Paquistão, que culminou na morte de Osama bin Laden, foram hoje divulgados pelas autoridades dos EUA. São mais de 100 documentos, a maior parte destes escritos entre 2009 e 2011.

O desejo de Osama bin Laden era que a maior parte da sua fortuna – que este dizia ser de 29 milhões de dólares (27 milhões de euros) – fosse utilizada "na jihad, pela graça de Alá". O restante deveria ser distribuído pelos seus familiares, escreve a Bloomberg.

Ao que tudo indica, o líder da organização estava ciente do risco que corria. "Se eu morrer, rezem muito por mim e continuem a contribuir para a caridade em meu nome, porque haverá grande necessidade de apoio para se conquistar um lar permanente", escreveu em 2008 numa carta dirigida ao seu pai, e citada pela agência.

Numa outra carta dirigida "à comunidade islâmica em geral", Osama bin Laden faz uma análise optimista do trabalho levado a cabo pela organização desde os ataques de 11 de Setembro de 2001 nos EUA, e defende que os norte-americanos não têm condições para manter a guerra no Afeganistão.

"Estamos no décimo ano da guerra, e a América e os seus aliados estão ainda a perseguir uma miragem, perdidos no mar sem praia à vista", escreveu numa carta que não está datada, mas que as autoridades acreditam ser de 2010.

"Eles pensavam que a guerra seria fácil e que cumpririam os seus objectivos em alguns dias ou semanas, mas não se prepararam para isto financeiramente, e não há apoio popular que lhes permita manter a guerra por uma década ou mais. Os filhos do Islão opuseram-se a eles e colocaram-se entre eles e os seus planos e objectivos", pode ler-se na missiva traduzida pelas autoridades e citada pela Bloomberg.

O retrato que faz é de um país atolado numa guerra impossível de vencer no Afeganistão, escreve a agência. Numa outra nota compara a posição de combate dos americanos à da União Soviética nos últimos anos de ocupação do Afeganistão, em 1980.

"A América parece estar presa por um fio, devido a dificuldades financeiras", escreveu. "Precisamos de ser pacientes por mais um tempo. Com paciência há vitória", acrescentou.

Apesar da aparente confiança, Osama bin Laden estava a par das fragilidades da organização, mostrando-se especialmente preocupado pelas divisões entre Al-Qaeda e a Al-Qaeda do Iraque.

Um associado da Al-Qaeda, cuja missiva segue assinada apenas como "o seu amado Atiyah", dá conta também de algumas dificuldades em substituir oficiais de topo no terreno: "não há novos irmãos, talvez alguns venham a ser indicados no futuro, mas não agora", escreveu.

Uma Al-Qaeda cada vez mais paranóica

Escreve a Reuters que a tranche de documentos revela igualmente um líder cada vez mais paranóico com questões de segurança e preocupado com a possibilidade de existirem espiões no seio da organização.

Numa das missivas, Osama bin Laden dá instruções precisas sobre as negociações de sequestrados afegãos: "É importante livrarem-se das malas em que os fundos [resgates] são entregues, dada a possibilidade de virem equipados com 'chips'", escreveu para alguém identificado apenas por Shaykh Mahmud.

Numa aparente referência aos drones norte-americanos que sobrevoavam o terreno, Osama bin Laden avisa aos seus homens que não devem sair da casa alugada no Paquistão, na cidade de Peshawar "excepto em dias de nevoeiro", cita a Reuters.

Numa carta ao oficial que o sucedia na cadeia de comando, Atiyah Abd al Rahman, Osama bin Laden recomenda especial cuidado na marcação de uma entrevista com o jornalista da al Jazeera, Ahmad Zaidan, alertando que os seus movimentos poderiam estar a ser monitorizados pelos EUA.

"Devem ter em mente a possibilidade, mesmo que pequena, de os jornalistas estarem sobre vigilância, sem que eles nem nós nos apercebamos, seja por via terrestre ou por satélite", escreveu.

Numa outra missiva, também citada pela Reuters, em que o líder da Al-Qaeda escreve sob o pseudónimo Abu Abdallah, este mostra-se especialmente preocupado com a ida da sua esposa a um dentista no Irão, receando que pudesse ter sido introduzido um "chip" de localização no seu enchimento dentário. Carta essa que termina com o pedido: "Por favor, destrua esta carta depois de a ler.

Há ainda relatos da execução de alegados espiões no seio da organização e de serem interceptadas mensagens de espiões no Paquistão.

Escreve a Reuters que esta é a segunda trache de documentos divulgados pelas autoridades referentes à intervenção militar no complexo onde Osama bin Laden estava escondido.

 

 

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