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Blogger saudita Raif Badawi vence prémio Sakharov

O prémio Sakharov para a Liberdade de Pensamento foi atribuído ao blogger saudita Raif Badawi, condenado a 10 anos de prisão e mil chicotadas por alegado insulto ao Islão.

Chris Wattie/Reuters
Ana Luísa Marques anamarques@negocios.pt 29 de Outubro de 2015 às 12:07
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O Parlamento Europeu concedeu, este ano, o prémio Sakharov para a Liberdade de Pensamento ao escritor, activista e blogger Raif Badawi. Com 31 anos, Raif Badawi foi condenado, em 2013, a sete anos de prisão e 600 chicotadas por alegado insulto ao Islão. Em 2014, a sentença foi revista para 10 anos de prisão e mil chicotadas. A 9 de Janeiro de 2015, pouco dias antes de Raif Badawi completar 31 anos, as autoridades sauditas aplicaram, em praça pública, as primeiras 50 chicotadas.  

"Centenas de espectadores numa praça pública em Jidá viram, sexta-feira [9 de Janeiro de 2015], Raef Badawi a ser chicoteado 50 vezes. Durante 15 minutos, em silêncio e sem chorar, Raif Badawi foi sujeito ao castigo decidido pelas autoridades da Arábia Saudita que incluem, além de dez anos de prisão, mil chicotadas repartidas por 20 semanas por ter insultado o Islão", contou, na altura, o jornal Público. As restantes chicotadas têm sido adiadas não só devido ao estado de saúde Badawi mas também devido às críticas da comunidade internacional. Ameaças de morte obrigaram a mulher de Badawi e os seus três filhos a exilarem-se no Canadá.

No blogue Saudi Free Liberals (pode ler aqui alguns excertos reunidos pelo jornal britânico The Guardian), que fundou com a activista dos direitos das mulheres Suad al-Shammari, Raef Badawi questionou a "influência da religião na vida pública" da Arábia Saudita. "O seu crime foi ter escrito, a 28 de Setembro de 2010, um artigo em que defendia a importância do secularismo, 'o mais importante refúgio de um cidadão de qualquer país'. Para Riad, a afirmação configurou não só um crime de desobediência ao rei, como um 'insulto ao islão' e apostasia (renúncia da religião). Este último crime é punido com a morte na Arábia Saudita, mas acabaria por ser retirado", escreve o jornal Público. "O secularismo respeita todos e não ofende ninguém. O secularismo é a solução mais prática para que os países (incluindo o nosso) passem do terceiro para o primeiro mundo", escreveu Badawi a 28 de Setembro de 2010.

Esta quinta-feira, 29 de Outubro, os deputados do Parlamento Europeu decidiram atribuir a Raif Badawi a mais alta distinção da União Europeia pela sua "luta pela liberdade de expressão". "Badawi é um homem muito corajoso", afirmou esta manhã o presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz, que pediu ao rei da Arábia Saudita a libertação imediata de Badawi. "Peço ao rei da Arábia Saudita a libertação imediata de Raif Badawi para que ele possa vir receber o seu prémio" em Estrasburgo no próximo mês de Dezembro, apelou Martin Schulz.

"Hoje o Parlamento Europeu enviou uma forte mensagem política e humanitária às autoridades da Arábia Saudita", afirmou Guy Verhofstadt, presidente do grupo liberal e antigo primeiro-ministro belga, citado pelo The Guardin. "Apelamos a sua Majestade o rei Salman que liberte Raif Badawi da prisão e termine com esta pena bárbara de açoitamento", acrescentou Verhofstadt.

A organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF) também apelou ao rei da Arábia Saudita, Salman bin Abdelaziz, que indulte o bloguer. "O reino saudita não tolera nenhum meio de comunicação livre e a repressão digital tem vindo a aumentar desde a primavera árabe de 2011", afirmou a RSF em comunicado citado pela agência Lusa.

Badawi era um dos três nomeados ao prémio Sakharov, juntamente com o movimento da oposição venezuelana Mesa de la Unidad Democrática e o líder da oposição russa, Boris Nemtsov, assassinado a 27 de Fevereiro deste ano.  

Prémio Sakharov

O prémio Sakharov para a Liberdade de Pensamento foi criado em 1988 em honra do cientista e dissidente soviético Andrei Sakharov e distingue pessoas que "tenham feito contribuições excepcionais na luta pelos direitos humanos".

A mais alta distinção da União Europeia visa chamar a atenção para a violação dos direitos humanos, e apoiar os premiados e a sua luta. Em 2014, o prémio foi concedido ao médico Denis Mukwege, da República Democrática do Congo, pelo tratamento de mulheres vítimas de violência em África.

 

Nelson Mandela e o dissidente soviético Anatoly Marchenko (a título póstumo) foram os primeiros galardoados, em 1988. Em 1999, o galardão foi entregue a Xanana Gusmão (Timor-Leste) e, em 2001, ao bispo Zacarias Kamwenho (Angola).

(Notícia actualizada às 13h49)

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