Mundo E quando a raiva é tão grande que apetece partir tudo?

E quando a raiva é tão grande que apetece partir tudo?

A primeira "sala de raiva", que é um conceito de destruição recreativa, surgiu em 2008 nos EUA. São tantos os testemunhos de que o efeito é verdadeiramente apaziguador de estados de alma mais revoltos que o conceito já se encontra em muitas outras regiões do mundo, como Canadá, Polónia ou Sérvia. Entre no jogo online e destrua já um sofá com uma "arma" à sua escolha.
E quando a raiva é tão grande que apetece partir tudo?
Reuters
Carla Pedro 28 de maio de 2016 às 10:00

Em 2008, em plena crise financeira nos Estados Unidos, com a recessão a ameaçar tempos difíceis, surgiu um conceito no país que rapidamente ganhou muitos adeptos, o Sarah’s Smash Shack [uma espécie de ‘barracão de destruição’, em que os sacos de pancada eram os objectos existentes no seu interior], em San Diego (Califórnia).

 

Entretanto já fechou portas, mas não sem antes fazer as delícias de muitas pessoas desejosas de descarregarem as suas energias negativas. Num espaço criado para o efeito, e a um preço acessível, qualquer pessoa poderia chegar e destruir televisores, computadores, cadeiras, espelhos, móveis, telefones, manequins, etc., em cinco minutos. Se precisasse de mais tempo, pagava mais.

 

A ideia começou a disseminar-se e rapidamente surgiu em Dallas (Texas) um Anger Room, ou sala de raiva. No website desta empresa está tudo explicado, desde as medidas de segurança – há que entrar com luvas, óculos de protecção e capacete – aos preços dos três pacotes disponíveis, que variam entre 25 e 75 dólares. No final da experiência, o cliente pode ainda levar um DVD do seu desempenho. O negócio tem crescido e a empresa planeia estender-se a todo o país.

 

Neste mesmo website, pode começar por testar a sensação de destruição de um objecto, já que está disponível um jogo de "cacetada no sofá". Pode experimentar aqui.

 

Shawn Baker, conta o The Guardian, gostava da ideia de haver espaços próprios para libertar más energias ou extravasar emoções fortes ou mesmo frustrações. Certa vez, no fim de um concerto, viu um grupo de jovens a tirar lixo de um camião e a desfazê-lo com um bastão de basebol. E pensou: poderia ser uma boa forma de ganhar dinheiro, capitalizando o apetite pela destruição.

 

Naquela época, tinha um emprego estável numa grande petrolífera, em Houston, e rapidamente se esqueceu da ideia. Mas, com a queda dos preços do crude, que em Maio do ano passado quebraram a barreira dos 50 dólares – uma fasquia mítica que só agora voltou a ser superada -, tudo mudou. Baker perdeu o emprego. Estava com 45 anos. Voltou a pensar no assunto. E se bem o pensou, melhor o fez. Arregaçou mangas e pôs de pé a Tantrums em Dezembro do ano passado, disse ao The Guardian.

 

Este tipo de conceito de ‘destruição recreativa’ tem-se espalhado por todo o território norte-americano, recorda o jornal britânico, que dá mais exemplos: o Break Room prestes a abrir no Minnesota, ou ainda um renovado Smash Shack – mas em Jacksonville (Carolina do Norte).

 

A ideia não se fica pelos Estados Unidos. No Canadá, Toronto apontou baterias a este negócio e criou o Rage Room. Um espaço, dizem no seu website, onde o stress pode ser libertado. "É um local onde podes ficar zangado!", sublinha a empresa. Há vários pacotes à escolha, com o preço a oscilar entre 20 a 45 dólares por pessoa. E há também um preço para casais que queiram destruir a dois: 70 dólares.

 

Na Polónia, o empresário Zdzislaw Hoffmann é o dono da sala de raiva que criou na cidade de Lodz, no centro do país. "Sempre me fascinou o facto de uma pessoa poder atirar o seu televisor do 11º andar depois de um jogo de futebol. Agora podem vir aqui e fazê-lo", contou ao The Telegraph. Em segurança e sem multas, já que é uma destruição legal.

 

Neste espaço, os clientes pagam 35 dólares por pessoa e podem usar a sala durante 30 minutos. Os objectos que lá encontram, prontos a serem partidos, espezinhados, atirados contra a parede e escavados com a ajuda de uma "arma" à escolha, são obtidos gratuitamente por Hoffman em sites de reciclagem criados especificamente para este efeito.

 

Na Sérvia, dois adolescentes tomaram conhecimento, pela Internet, da sala de raiva em Dallas e acharam que poderia ser uma boa forma de ganharem dinheiro. Está a resultar. Num país "onde duas décadas de crise resultante da guerra, da política e das dificuldades económicas deixaram muitos à beira de uma crise de nervos", a "Sala de Fúria" criada na cidade de Novi Sad (no norte) tem sido o alvo de muita atenção, conforme relata o website IG.

 

Esta versão sérvia da sala de raiva criada em Dallas tem sido uma "lufada de ar fresco" para os habitantes locais. Em Novi Sad, a variedade dos objectos que podem ser destruídos é menor, e o espaço também – já que se trata de uma garagem remodelada. Por isso mesmo, o preço também é bastante inferior: por seis dólares, qualquer pessoa pode destruir uma cadeira, uma mesa, uma cama, um cabide e uma prateleira de livros, a par com fotografias emolduradas, latas vazias e recipientes de plástico, acrescenta a mesma fonte.

No Chiado, em 2010, partiram-se 10 mil pratos em poucos dias

 

Mesmo em Portugal, o conceito já foi testado. Entre 6 e 30 de Maio de 2010, quem se deslocasse ao Chiado, em Lisboa, poderia "partir a loiça" para libertar o stress. Os pratos em exposição tinham nomes, como "cocktail das verdades que têm de ser ditas", mas o próprio visitante do Chiado After Work podia escrever uma mensagem ao seu gosto antes de atirar o prato contra a parede.

Em seis dias, esgotaram. Cinco mil curiosos com o conceito partiram outros tantos pratos muito rapidamente, a ponto de o idealizador do projecto, Hugo Israel, ter tido de encomendar à pressa mais uma remessa – e em igual quantidade.

 

Com o passar dos anos, as ideias vão sendo afinadas, aprimoradas e mesmo alteradas, surgindo agora "ramificações" do conceito original que se destinam a públicos-alvo mais específicos. É o caso da Destruction Company, em Hoboken (Nova Jérsea), onde "os miúdos ricos" – conforme os descreve a Reuters – pagam uma "nota preta" para usarem armas ou outros instrumentos a destruírem objectos mais caros.

 

Este clube de membros exclusivos oferece aos seus abastados clientes a oportunidade de esmagarem o que desejem, e com a arma que escolherem. Na lista de itens a destruir podem encontrar mobiliário, televisores, máquinas de fax, guitarras, motorizadas, loiça e computadores portáteis. Mas se isso não lhes for suficiente, basta abrirem os cordões à bolsa para poderem "dar cabo" de um carro ou de um piano.

Desengane-se, contudo, se pensa que um problema mais grave pode ser resolvido com uns quantos cacos. Os psicólogos consultados por vários meios de comunicação social - como a Veja e a IG, no Brasil –, a propósito destas salas de raiva, são peremptórios: podem funcionar bem como válvula de escape, mas não substituem a terapia quando o caso já é muito sério – sobretudo quando está inerente um problema de agressividade. 




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