Mundo Irão corta acesso à Internet em momento de convulsão interna

Irão corta acesso à Internet em momento de convulsão interna

Protestos começaram por causa do aumento dos preços da gasolina e estenderam-se a todo o país com slogans políticos contra o governo e o sistema. Confrontos entre manifestantes e forças de segurança já resultaram em 40 detidos.
Irão corta acesso à Internet em momento de convulsão interna
Bloomberg
Sábado 17 de novembro de 2019 às 16:00

"Não querem que o mundo veja o que está a acontecer no país". Ali vive na cidade de Jorramshahr e foi uma das pessoas que denunciou, em declarações a Efe, a decisão do governo do Irão de cortar o acesso à Intertet. "Estamos praticamente incomunicáveis", defendeu, acrescentando que "a medida foi tomada para impedir o envio de imagens dos protestos". Tal como no Líbano ou Iraque e vários países da América Latina, o povo tem saído à rua para contestar medidas governamentais. Os protestos começaram na sexta-feira por causa do aumento dos preços da gasolina e estenderam-se a todo o país, com slogans políticos contra o governo e o sistema, o que provocou duras reações por parte das forças de segurança.

Este domingo, segundo a Reuters, vários manifestantes bloqueram estradas em Teerão. A polícia divulgou, por outro lado, que um dos seus efetivos morreu durante confrontos com os manifestantes na cidade de Kermanshah. As autoridades não divulgaram o número de vitimas mortais. Até ao momento foi confirmada apenas a morte de um manifestante na cidade de Sirjan, além do polícia, mas a própria televisão estatal fala em "vários mortos". Dados não oficiais indicam que pelo menos uma dúzia de pessoas perderam a vida. 

O site netblocks que monitoriza a interrupção da Internet em todo o mundo informou que "as maiores operadoras de redes móveis do Irão, como MCI, Rightel e IranCell, foram desligadas às 18h00 (14h30 de Lisboa) de sábado. Mais tarde, informou que a partir das 22h15 locais a Internet foi quase completamente bloqueada e que apenas 7% estão conectados.

Maryam, 45 anos, de Bandar Abas, por seu turno queixou-se de não poder seguir as notícias: "Além disso, sou tradutora e o meu trabalho depende da Internet, eles paralisaram a minha vida, nem tão pouco consegui fazer uma transferência bancária, é insuportável". Organizações internacionais sediadas em Teerão, como as agências da ONU, pediram aos seus funcionários que trabalhassem a partir de casa.

Ali Khamenei defende governo
No sábado, o ministro iraniano do Interior, Abdolreza Rahmaní Fazlí, numa primeira reação aos protestos, advertiu os manifestantes de que se continuarem a ocupar as ruas, enfrentarão as forças de segurança. "Até agora, têm sido tolerados, mas já foi decidido que se continuarem, as forças de segurança irão enfrentá-los", disse Rahmaní Fazlí à imprensa local.

Uma posição reforçada pelas declarações de apoio do líder supremo do Irão, aiatola Ali Khamenei, que apelidou alguns dos manifestantes de "bandidos" ajudados pelos inimigos do país.

Este domingo, a agência semi-oficial Isna adiantou que 40 pessoas foram presas na cidade de Yazd, no centro do país. Os detidos são "desordeiros", acusados de vandalismo e a maioria deles não são da região, anunciou o procurador provincial Mohammad Hadadzadeh.

O aumento da discórdia

O Irão, que vive uma grave crise económica, anunciou na sexta-feira o aumento em pelo menos 50% o preço da gasolina para reformar o caro sistema de subvenção dos combustíveis e lutar contra o contrabando.

No Irão, um dos países onde a gasolina é mais subsidiada, o preço do litro era até agora de 10 mil riais iranianos, menos de oito cêntimos de euro.

Cada condutor com um cartão para abastecer passará a pagar 15.000 riais (11 cêntimos de euro) por litro até um máximo de 60 litros por mês, indicou a Companhia Nacional Iraniana de Distribuição de Produtos Petrolíferos num comunicado. Além daquela quantidade, cada litro custará 30.000 riais (22 cêntimos de euro).

Os cartões foram introduzidos em 2007, numa anterior reforma do sistema de subvenção dos combustíveis, tendo sido progressivamente abandonados antes de serem reintroduzidos em 2018.

As receitas da subida dos preços destinam-se a subsidiar 60 milhões de iranianos com necessidades, declarou o responsável pela Planificação e Orçamento, Mohammad Bagher Nobakht, citado pela Irna.

Encorajado pelo baixo preço, o consumo de combustível é elevado no Irão, onde os 80 milhões de habitantes consomem em média 90 milhões de litros por dia.

Os baixos preços conduzem ainda a um contrabando elevado, que a Irna estima entre 10 e 20 milhões de litros por dia, sobretudo para o vizinho Paquistão, onde o combustível é mais caro.

O contrabando foi estimulado pela queda do rial no mercado cambial, ligada à parte às sanções económicas restabelecidas a partir de meados de 2018 pelos Estados Unidos, após a sua retirada unilateral do acordo internacional sobre o nuclear iraniano de 2015.

A inflação é superior a 40% no Irão e, segundo o Fundo Monetário Internacional, a economia deve contrair-se 9% este ano, antes de registar um crescimento de 0% em 2020.




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