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BCE considera deixar correr inflação acima dos 2% à imagem da Fed

A líder do banco central admite que a atual meta para a inflação terá de ser revista, uma vez que tem falhado. Agora, Lagarde volta a introduzir o conceito de inflação simétrica, defendido por Draghi, aproximando-se da postura adotada pela Fed.

Francois Lenoir
Gonçalo Almeida goncaloalmeida@negocios.pt 30 de Setembro de 2020 às 11:37
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A presidente do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde, está a estudar seguir a política adotada pela Reserva Federal dos Estados Unidos no capítulo dos preços, permitindo que a inflação suba acima da atual meta por longo períodos de tempo, de forma a apoiar a recuperação económica da atual crise pandémica. 

Desde 2003 - o ano da última grande revisão aos mandatos do BCE - que a meta de inflação da instituição europeia é um, valor próximo, mas abaixo de 2%. Contudo, o nível de preços no consumidor tem falhado constantemente esse alvo, evidenciando esta lacuna nos últimos meses, com a inflação negativa de 0,2% registada em agosto.

"No ambiente atual de baixa inflação, as preocupações que enfrentamos são diferentes e é preciso refletir sobre a nossa meta para a inflação", diz Lagarde, na conferência intitulada "ECB and its watchers XXI", acrescentando que, "para fixar as expectativas para a inflação, precisamos de assegurar que a nossa meta é interpretada como simétrica pelo público".

Desde janeiro desse ano, a inflação média mensal da Zona Euro é de cerca 1,5%. E para chegar a uma inflação de 2% é preciso contar desde o início de 1990, de acordo com os cálculos do Negócios, com base nos dados do BCE.

Esta noção de inflação simétrica não é nova no seio do BCE. Já Mario Draghi, o antigo presidente da instituição que precedeu a Lagarde, tinha vindo a inserir este conceito, nos seus últimos discursos enquanto presidente. No entanto, nunca foi oficializado nos mandatos do banco.

Andar atrás da Fed, novamente
A necessidade de uma remodelação na forma como o BCE olha para a inflação tem vindo a ser vincada desde o início deste ano por vários membros da instituição. O governador do Banco da Finlândia, Olli Rehn, reforçou por diversas vezes a ideia de uma alteração oficial para um conceito semelhante ao introduzido por Draghi e idêntico ao agora adotado pela Reserva Federal dos Estados Unidos.

No encontro anual em Jackson Hole, o presidente do banco central norte-americano Jerome Powell anunciou uma alteração na sua política sobre os preços no consumidor, adotando um objetivo móvel para a inflação, que permite a este indicador estabelecer-se acima dos 2% por largos períodos. Isto para que Jerome Powell, o líder da instituição, tenha mais flexibilidade para manter as taxas de juro em mínimos históricos e continuar a injetar dinheiro na economia, sem ter de mudar de rumo no caso de uma subida desmedida dos preços.

A ideia de Lagarde será a mesma do homólogo norte-americano. Apesar de não ter feito comentários sobre as perspetivas da política monetária, a injeção de largas quantias de dinheiro no sistema europeu estará para ficar. 



Em vigor está o programa especial para responder à pandemia, o PEPP, com uma bazuca de 1,35 biliões de euros para continuar a disparar. Este mês, o Financial Times noticiou que o banco central poderia fazer uma revisão a todos os seus programas, conferindo ainda mais flexibilidade à sua atuação.

Apesar de não ser totalmente claro quais serão as possíveis alterações, as mudanças poderão passar por uma extensão do prazo referente ao programa de compras pandémico e injetar mais flexibilidade aos restantes programas em vigor antes do PEPP.

Esta hipótese recebeu comentários negativos de Yves Mersch, membro da Comissão Executiva do BCE, que referiu que este programa especial "foi criado em primeiro lugar para ser um 'backstop". "Não podemos dizer que a pandemia acabou, mas continuamos com o programa pandémico, ou transferimos os princípios deste programa para outros já existentes. Na minha humilde perceção sobre o que diz a lei, esta será uma operação bastante curiosa", atira. 

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