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Há 10 anos BCE subia os juros. Dois meses depois Lehman Brothers faliu

A 3 de Julho de 2008 Jean-Claude Trichet anunciava um aumento de juros na Zona Euro, numa altura em que nos EUA e no Reino Unido já se implementava uma política mais “acomodatícia”. Dois meses depois deu-se o grande colapso no sistema financeiro, com a falência do Lehman Brothers, que deu origem a uma crise mundial.

Trichet licenciou-se em engenharia de minas. Mais tarde estudou economia na Universidade de Paris
Trichet licenciou-se em engenharia de minas. Mais tarde estudou economia na Universidade de Paris
03 de Julho de 2018 às 17:01

Foi precisamente há 10 anos que o Banco Central Europeu (BCE) implementou o último aumento de juros antes de crise financeira. Na altura, Jean-Claude Trichet, então presidente da autoridade monetária para a Zona Euro, anunciou um aumento de juros de 25 pontos base para 4,25%. Na altura, houve vários economistas que consideraram a decisão arriscada.

Trichet explicou, então, que o BCE precisava de controlar a inflação, que rondava os 4%. E deixou claro que a decisão foi unânime entre os governadores.

Nos EUA, a Reserva Federal (Fed), e no Reino Unido, o Banco de Inglaterra, já estava a ser implementada uma política oposta. A Fed cortou, pela primeira vez neste período, os juros em Outubro de 2007. E o Banco de Inglaterra em Dezembro do mesmo ano.

Naquela altura, os EUA viviam a crise do "subprime" – empréstimos hipotecários de alto risco – que estava já a ditar problemas financeiros e que levaram a que o banco central actuasse, cortando o preço do dinheiro.

Mas a 3 de Julho de 2008 estava longe de se imaginar a dimensão da crise que ia assolar o sistema financeiro mundial. Os sinais eram já de algum alarme, o BCE chegou a injectar liquidez no sistema no Verão de 2007, mas manteve a política de juros altos.

Dois meses depois, a 15 de Setembro, era anunciada a falência do Lehman Brothers. E deu-se início a uma crise financeira que contaminou todo o mundo e deu origem a acções concertadas entre bancos centrais de todo o mundo, com cortes de juros e injecções de liquidez. Aquele período ilustrou bem as debilidades do sistema financeiro. Houve várias instituições nacionalizadas e outras que não escaparam à falência.

 

Em Outubro de 2008, o BCE desceu os juros, pela primeira vez, em 50 pontos base, tendo chegado a Maio do ano seguinte com o preço do dinheiro em 1%. A Fed, que já tinha começado a descer os juros no Outono de 2007, realizou 10 descidas do preço do dinheiro até Dezembro de 2008. O Banco de Inglaterra começou em Dezembro de 2007 e efectuou nove descidas até Março de 2009, altura em que os juros foram fixados em 0,5%.

O sistema financeiro teve muitas dificuldades em recuperar e arrastou as economias. A Zona Euro acabou por, em 2011, ser afectada por uma crise de dívida. Grécia já estava sob resgate financeiro, assim como a Irlanda. Foi nesse ano que Portugal recorreu à troika. E, em 2012, foi a vez de Espanha pedir um empréstimo de 100 mil milhões de euros para salvar a sua banca.

Mesmo neste período, o BCE avançou e recuou. Em Maio de 2011 decidiu elevar os juros em 25 pontos base e dois meses depois voltou a elevar o preço do dinheiro na mesma dimensão para 1,5%. Quatro meses depois recuou e cortou os juros. Em Março de 2016, o preço do dinheiro na Zona Euro estava em 0%. E o banco central injectou milhares de milhões de euros no sistema.

Actualmente o cenário central é que assim se mantenha por mais de um ano, com o BCE a deixar antever que antes do Verão de 2019 não haverá mexidas de juros. Ainda que a história recente nos mostre que num segundo tudo pode mudar.

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