2005: Sócrates quebra o “mito” político – e outros inéditos
O Tony Blair português. Na noite em que José Sócrates chegou a São Bento, Eduardo Catroga esperava que, "tal como o líder socialista inglês foi o seguidor das reformas da senhora Thatcher, Sócrates [fosse] o continuador reformista da obra de Cavaco, que foi interrompida e [precisava] de ser reatada". Doze anos depois, o ex-ministro das Finanças justifica ao Negócios que essa esperança assentava no facto de ser encarado como "um socialista dos tempos modernos, que percebia as exigências da globalização, da economia competitiva e do euro".
PUB
O ano de 2005 arrancou com o governo PSD/CDS demissionário, um Parlamento com maioria de direita em dissolução e o país à espera de eleições antecipadas. Na mensagem de Ano Novo, o Presidente da República dizia ser "preciso restaurar a estabilidade política" depois de uma "sucessão imprevista de crises governamentais" durante o atribulado mandato de Santana Lopes, que Jorge Sampaio decidiu encurtar. E dessa ida às urnas a 20 de Fevereiro resultou não só uma completa mudança de cores e protagonistas no poder, como uma vitória histórica para o PS.
Sem o "carisma" de Mário Soares, o "prestígio internacional" de António Vitorino ou a "experiência" de António Guterres, como adjectivava então o jornal espanhol "El País", José Sócrates angariou a maior vitória de sempre para os socialistas, com 45% dos votos e um número de deputados que ainda hoje é recorde no partido. E cumpriu o adágio de que à terceira é mesmo de vez, como gritou das janelas do Largo do Rato na noite da apoteose: "Caiu o mito de que só a direita poderia ambicionar uma maioria absoluta".
PUB
Só as regiões de Leiria e da Madeira não ficaram coloridas de rosa no mapa desta esmagadora vitória, que só encontra comparação nas de Cavaco Silva em 1987 e 1991. O PSD teve quase menos um milhão de votos do que o PS e a direita somou, também de forma inédita, menos de 36%. Santana ainda atrasou a saída, Paulo Portas demitiu-se naquela noite ao anunciar (ir)revogavelmente que "terminou o ciclo político" na presidência do CDS-PP.
O recém-eleito primeiro-ministro falava numa "nova maioria e nova esperança". Manuel Pinho, que coordenara o programa eleitoral e acabaria ministro, antecipava que "a maioria absoluta [iria] facilitar a tomada de decisões na área económica" e prometia "um discurso pela positiva". No entanto, a comissão independente criada para apurar o valor do défice, liderada pelo então governador do Banco de Portugal, Vítor Constâncio, antecipou um desequilíbrio de 6,8% no final desse ano e justificou a quebra da primeira grande promessa eleitoral: não aumentar os impostos. A subida do IVA de 19% para 21% foi uma das medidas para travar a derrapagem nas contas públicas, adoptadas pelo ministro das Finanças, Luís Campos e Cunha, que não durou mais de quatro meses no cargo e foi substituído logo em Julho por Fernando Teixeira dos Santos.
PUB
Do brilho à bancarrota
Com maioria absoluta e António Costa como número dois, o arranque do Executivo ficou marcado pelo desafio a vários lóbis e corporações. Por exemplo, alguns medicamentos passaram a ser vendidos fora das farmácias, reduziu as férias judiciais e alterou o modelo de avaliação dos professores. Entre as marcas associadas ao primeiro mandato de Sócrates ficaram a reforma da Segurança Social, o Simplex, o computador Magalhães, o Parque Escolar, o investimento na ciência, o complemento solidário para idosos, a assinatura do Tratado de Lisboa, as energias renováveis, o plano de privatizações ou as grandes obras públicas, como o TGV e o novo aeroporto.
PUB
O rebentamento das crises financeira e das dívidas soberanas ajudou a substituir o brilho pelo descalabro na governação. Ainda consegue a reeleição em 2009 (maioria relativa), mas o défice dispara para os dois dígitos, os juros tornam-se insustentáveis e acaba engolido pela austeridade. Ao quarto plano (PEC IV), é travado pela oposição, demite-se e pede finalmente ajuda externa. "Olhando para trás, o primeiro mandato foi relativamente positivo, mas depois entrou numa deriva despesista que foi um desastre completo. Bastava ter levado o país à falência para o legado ser altamente negativo", resume Catroga, que acabou a negociar com a troika em nome do PSD, em 2011.
O rótulo de "menino de ouro do PS", colado pela biógrafa Eduarda Maio, rapidamente deu lugar ao de "animal feroz", que o país já conhecia e Cavaco eterniza no livro "Quinta-feira e outros dias", ao descrever as repetidas exaltações do governante nas 188 reuniões que tiveram – sobretudo visando "personalidades da oposição, jornalismo, sindicatos ou justiça". Envolvido em inúmeros casos políticos e judiciais – da licenciatura e do fim do telejornal incómodo da TVI, ao Freeport, Face Oculta, Taguspark ou Monte Branco –, algumas das suspeitas avançaram na investigação e envolveram Sócrates noutro evento inédito: a prisão de um ex-primeiro-ministro, no final de 2014.
Saber mais sobre...
Saber mais Política eleições José Sócrates PS maioria absoluta troika bancarrota Tony Blair Eduardo Catroga Santana LopesFicámos para trás?
Quem forma melhor os jovens?
Mais lidas
O Negócios recomenda