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S. João é para muitos mais do que um hospital. É uma casa.

O segundo maior hospital do País trata da saúde a milhares de utentes por dia. Para quem lá fica internado ou mesmo para quem está apenas de passagem é muito mais do que um hospital. "É uma casa", diz Maria da Conceição, que agradece a Deus por isso

23 de Abril de 2013 às 14:52

Olhos verdes e grandes. Sorriso branco de orelha a orelha. A simpática presença do "Joãozinho" espreita a cada canto do Hospital de S. João, no Porto, e todos os utentes o conhecem. A mascote do projecto de construção da nova ala pediátrica deste hospital permanece há sete anos com um ar bem disposto, mas o entusiasmo em torno deste projecto foi esmorecendo. A falta de verbas tem atrasado a construção desta ala, que deveria ter ficado pronta em quatro anos, e as crianças continuam a ser internadas num grande contentor personalizado, com capacidade para 80 crianças, que não agrada à direcção.

Menos preocupadas parecem estar as próprias crianças. Giovani, de oito anos, já esteve internado no dito contentor, quando foi operado às "mínguas", conta, apontando para o pescoço. E queixas até tem, mas não é das instalações. "Não gostei, por que eles puseram-me uma coisa (um tubo) que cheirava a gasóleo", lembra o menino, que acrescenta logo de seguida que o hospital "trata das pessoas".

Giovani hoje está no S. João apenas de visita e juntamente com os seus cinco primos tem estado a espalhar "o terror" pela sala de espera das visitas, uma das áreas do hospital que já está remodelada. Só param quando se apercebem de todo o aparato tecnológico - câmara de filmar, máquina fotográfica, gravador. E não se afastam, enquanto não falam todos, mesmo os que ainda não dizem nada que se perceba realmente.

Apesar de servir para familiares e amigos esperarem pela hora da visita, esta sala acaba por ser o hall de entrada por onde passam doentes e profissionais. Depois da barreira da segurança e dos torniquetes é o "salve-se quem puder", como diz um dos pacientes, que já mais do que uma vez se perdeu pelos corredores deste que é o segundo maior hospital do País. Nem as linhas com cores, que estão lá para guiar, conseguem evitar os passos perdidos de quem procura um gabinete médico, ou outro serviço.

Novo e velho convivem no Hospital S. João

Ao longo dos últimos anos, a administração do Hospital de S. João, presidida por António Ferreira, tem apostado na renovação dos espaços que têm mais de 50 anos de existência. Mas ainda falta remodelar um terço desta unidade. Com o adensar das restrições orçamentais, as obras foram abrandando, havendo uma convivência já quase característica entre o novo-remodelado e o velho.

A zona das consultas externas é uma das que funciona ainda num espaço antigo, que de provisório já pouco tem, dados os anos que passaram desde a sua criação. Embora deixe muito a desejar à vista, quem lá vai já não estranha e poucas são as críticas que se fazem ouvir. A prová-lo, o último inquérito que mostra que 85,6% dos doentes está satisfeito ou muito satisfeito com o hospital.

 
Hospital aumenta produção com redução de custos
No Hospital de S. João a crise também se sente, sobretudo na hora de receber verbas do Ministério da Saúde, mas o seu impacto tem sido em grande parte atenuado pelo corte na despesa. Só assim a administração deste hospital consegue equilibrar as contas, tendo fechado o ano, pela sexta vez consecutiva, com saldo positivo, mesmo com aumento da produtividade. Uma das medidas mais importantes na redução de despesa e na "promoção da sustentabilidade" em 2012 foi, segundo a directora clínica Margarida Tavares, a adopção de uma política de consumo de remédios que lhes permitiu poupar, até Novembro, perto de 860 mil euros. A despesa com pessoal também caiu, fruto dos cortes salariais e nas horas extra.

Hermenegildo Silva, 75 anos, veio buscar uma receita de que se esqueceu quando veio à consulta e diz que só tem "a dizer bem desta casa. Os profissionais são muito atenciosos, artistas no trabalho e diligentes". "Acabamos por nos tornar uma grande família", remata o idoso, já com uma lágrima no canto do olho, que o faz acelerar o passo em direcção à porta de saída.

Acabada de chegar ao hospital, Maria da Conceição Fonseca também não mede elogios a esta unidade que é mais do que sítio para curar as doenças. "Como vamos dizer? Obrigada meu Deus porque esta, abaixo da nossa, é a segunda casa. E a terceira que é quando Deus nos chamar", apregoa, com um sorriso que lhe vinca mais as rugas dos seus 70 anos.

Sentada numa cadeira de rodas, lendo "as gordas" do jornal, a octogenária Blandina Andrezo também não tem "queixa nenhuma" do hospital e até compreende os tempos de espera por consulta. "Temos de ter paciência".

Os elogios que se vão ouvindo pelos corredores do hospital descem ao piso da direcção e são um motivo de orgulho para o conselho de administração, que criou um serviço de humanização precisamente para melhorar o atendimento aos utentes, mas não chegam para manter a funcionar o segundo maior hospital do País, que atende 2.757 pacientes em consulta por dia e realiza para cima de 100 cirurgias diariamente.

"Sustentabilidade? Sim, sei. O comer é um bom sustento"

Sentada na sua mesa, cheia de papéis, a directora clínica, Margarida Tavares, reforça que a "sustentabilidade é essencial" e só com este objectivo em mente é possível fechar o ano com saldo positivo, como tem acontecido nos últimos anos.

Mas só a administração e profissionais, alguns, sabem do que se trata. Entre os pacientes, o único que disse saber o que significa a expressão "sutentabilidade do SNS" foi Hermenegildo Silva, que avançou com um exemplo à sua maneira: "a comida que aqui dão é um bom sustento!".

A abalar a sustentabilidade do hospital está um problema que se tem vindo a intensificar e que reside naqueles que cá ficam internados. São "os doentes da crise", como os apelida João Jaime Sá, director do serviço de urgência do S. João.

Em causa estão idosos debilitados que não se conseguem cuidar sozinhos, nem têm quem cuide deles e que, por isso, acabam por permanecer mais tempo no internamento do que é suposto, à espera de uma resposta social, que tarda quase sempre em chegar.

No quinto piso do edifício principal, no internamento de Medicina B, Alexandra Ferreira não tem mãos a medir.

O gabinete desta assistente social são os corredores do serviço e, na melhor das hipóteses, consegue sentar-se no espaço de convívio dos doentes. "Com esta crise há uma maior dificuldade das famílias para conseguirem manter os idosos. O dinheiro não chega e muitas vezes os filhos estão a viver à custa dos próprios pais", resume a assistente, depois de falar com os filhos de um dos idosos internados.

E embora o S. João promova esta articulação entre cuidados, muitas vezes a Segurança Social demora a responder.

S. João é para muitos mais do que um hospital. É uma casa.
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