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levarTravel: Levar Portugal para lá, trazer o mundo para cá

No pico da pandemia, com o país e o mundo fechados, Isabel Neto e Nuno Relvas decidiram criar uma agência de viagens. Mas não uma igual às outras. Na levarTravel, impera o turismo sustentável e regenerativo.

Paulo Duarte
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Um homem e uma mulher entram num cartório, prontos para assinar a constituição de uma empresa. "Que empresa é esta?", perguntam-lhes. "É uma agência de viagens", respondem. Silêncio e olhares incrédulos no cartório. Não terá sido a receção desejada por Isabel Neto, hoje com 34 anos, e Nuno Relvas, 35, o casal que criou esta agência. Mas o momento em que o fizeram ajuda a explicar a reação.

Era abril de 2020, o primeiro pico da pandemia de covid-19 na Europa, Portugal incluído. A maioria dos serviços estava encerrada, assim como quase todas as fronteiras, ao mesmo tempo que as ligações aéreas por todo o mundo estavam cortadas. A circulação era proibida entre concelhos, quanto mais entre países.

O cenário era drástico, mas esta história começa muito antes de o vírus ter alterado por completo o paradigma das viagens. Isabel e Nuno viviam em Londres desde 2017, ela líder de uma equipa de bioengenharia, ele financeiro numa empresa de transportes. As carreiras eram promissoras, mas a vida em Londres "já não compensava a ausência" da família e amigos.

"No dia em que fui promovida, despedi-me", conta Isabel. Foi então, no verão de 2019, que, durante uma das várias dezenas de viagens com que já contam no currículo, Isabel e Nuno começaram a pensar que estava na altura de regressar a Portugal.

O regresso, porém, não poderia ser feito "de mãos a abanar". Se o fosse, acreditam, teriam de se sujeitar àquilo que os levou a emigrar: baixos salários e falta de progressão na carreira. A resposta para encher as mãos estava na ponta da língua. A paixão pelas viagens é o que une este casal e passou a ser, também, o que os une nos negócios.

Com a decisão de criar uma agência de viagens tomada, é ainda nesse verão que começam a dar asas ao projeto. Trabalharam no site, desenvolveram conteúdo, criaram roteiros e a imagem da marca. Em dezembro de 2019, de visita a Portugal, falaram com contabilista e advogada, para saber quais eram os passos seguintes. Em janeiro, a marca estava registada: nascia a levarTravel.

Voltam a Portugal em março de 2020, para visitar a família, quando o país já estava fechado. Sem saber quando conseguiriam voar para Inglaterra - e voar de volta para Portugal -, decidiram acelerar o processo. É agora que regressamos ao ponto de partida, num cartório, em abril. O momento, recorda Nuno, foi breve. "Chegámos, lemos e assinámos, quase de cruz. Desinfetámos as mãos e saímos. Cinco minutos."

Levar para lá

A marca e a empresa estavam criadas. E o conceito? Também é simples. Viagens regenerativas, turismo sustentável, destinos fora da caixa.

Isabel Neto explica. "É uma agência de viagens culturais e de aventura, com foco total na sustentabilidade, no turismo sustentável e regenerativo", diz. O primeiro passo é planear as viagens de forma a "valorizar o desenvolvimento socioeconómico e cultural das comunidades" que os acolhem. Isso passa por fazer parcerias com os negócios locais, do transporte à restauração, mas também por apoiar associações sociais, ambientais ou de proteção dos animais. Em cada viagem, os turistas são levados a conhecer uma associação, podendo contribuir com o que quiserem. Do lado da levarTravel, é doada à associação em causa uma percentagem dos lucros.

24Destinos
A levarTravel tem roteiros para 24 destinos, na Europa, Ásia, América e África. Data, duração e preço já estão definidos.

O último passo é a regeneração. No fim da viagem, a agência calcula o carbono emitido por todos os viajantes e compensa essas emissões com contribuições monetárias para projetos de florestação.

Para já, a levarTravel tem roteiros disponíveis para 24 destinos, na Europa, Ásia, América e África. Os pacotes já têm data, duração, preço e número mínimo e máximo de participantes definidos. Os números variam, mas, na maioria dos destinos, há um número mínimo de quatro ou cinco pessoas e um máximo de 12. Qualquer um se pode juntar a um grupo de desconhecidos; ou qualquer grupo de conhecidos pode juntar-se e fechar um pacote para si. E há, também, flexibilidade para adaptar os roteiros às necessidades dos viajantes: uma duração maior ou menor, um orçamento ou datas diferentes, por exemplo.

17Líderes de viagens
Os viajantes são acompanhados pelos "líderes" de viagem. São 17, contando com Isabel Neto e Nuno Relvas. 

Nos destinos, as viagens são feitas com um acompanhamento de 24 horas pelos chamados "líderes" de viagem. São 17 líderes, contando com Isabel e Nuno, que se apresentam como profundos conhecedores dos destinos para os quais viajam. Uns médicos, outros arquitetos, outros advogados, todos portugueses. São eles que guiam os grupos, que os acompanham durante toda a viagem e que fazem a ligação com os parceiros locais.

Trazer para cá

Apesar de já ter sido criada em pandemia, a levarTravel teve, à semelhança de tantas outras empresas, de fazer adaptações ao plano inicial.

"Tínhamos uma estratégia inicial ‘outgoing’, de levar os portugueses para fora. O passo seguinte era trazer os estrangeiros para Portugal, fazendo o mesmo turismo sustentável", explica Nuno. "Sentimos a necessidade de apressar o processo. Já temos duas viagens disponíveis para os Açores e vamos abrir para a Madeira e para o continente", acrescenta. A estratégia recompensou. "No próximo mês, temos o primeiro grupo totalmente internacional que vai para os Açores", completa Isabel.

O negócio arrancou aos soluços. O plano passava, desde o início, por começar a fazer as viagens só a partir de 2021, mas o novo confinamento veio exigir "resiliência" a Isabel e Nuno. Mais uma vez, recompensou.

De zero reservas nos primeiros dois meses do ano, a agência passou para pedidos de reserva ou de informação diários, para além dos pedidos de viagens personalizadas, um serviço que também oferecem. "Sentimos um ‘feedback’ muito positivo dos clientes que já compraram viagens e de potenciais clientes. Recebemos imensas mensagens diárias de clientes que se identificam com o nosso projeto e com os nossos ideais. E temos a certeza de que, quando a situação mundial melhorar, vamos ter uma adesão muito maior", prevê Nuno.

Certo é que a agência tem 40 reservas, com vários roteiros esgotados. "Esperamos, até ao final do ano, continuarmos a ser procurados e conseguirmos ter um volume mais alto", conclui Isabel.

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